"Sinto-me mais seguro casado com alguém que tem VIH do que solteiro". Um único comprimido por dia mudou a forma de viver com este vírus

9 fev, 08:00

ENQUANTO A CURA NÃO CHEGA 1/3 || Outrora tratado com um “cocktail" de comprimidos, hoje é possível controlar o VIH apenas com um comprimido diário. A medicação retroviral desenvolvida nos últimos anos permite tornar o vírus indetetável, impedindo que seja transmitido a outras pessoas. Tal abre novas portas também na forma como as pessoas seropositivas amam e se relacionam com outras que não transportam o mesmo vírus, como mostra a história de Leandro Buenno e Rodrigo Malafaia. Em Portugal, o tratamento do VIH/SIDA custa todos os anos cerca de 200 milhões de euros. Contudo, o valor por cada paciente tem vindo a descer: há uma década, custava o triplo. Existem focos de preocupação quanto às novas infeções: os homens jovens que têm sexo com outros homens e a comunidade imigrante. Este é o primeiro de três capítulos desta reportagem da CNN Portugal.

“Para mim, não mudou nada. Sinto-me mais seguro casado com alguém que tem VIH do que solteiro”. Rodrigo Malafaia começou a namorar com Leandro Buenno em 2018. Foi apenas um ano depois de uma confirmação que forçou algumas adaptações na vida de Leandro: o teste do VIH que deu positivo.

“Nunca ninguém está preparado a 100% ou à espera deste diagnóstico”, conta o músico brasileiro, a viver em Portugal desde 2023. Leandro, hoje com 31 anos, já tinha sido o conforto para outros amigos que tinham recebido o mesmo diagnóstico. Isso tornou as coisas mais fáceis quando foi a vez dele. “Essa bagagem ajudou-me. Fiquei tranquilo, sabia que tinha de começar o meu tratamento. Pensei mais na minha família do que em mim, porque eles não tinham a informação que eu já tinha”.

Esta é a medicação tomada por Leandro Buenno: um comprimido por dia (DR)

Indetetável = Intransmissível

Praticamente oito anos depois, Leandro sente ter uma vida “normal”, mesmo sendo seropositivo. “Para tratar o VIH tenho de tomar um comprimido todos os dias antes de dormir”. Foi desta forma que, ao longo dos últimos anos, evoluiu a terapêutica do VIH/SIDA. O que no passado era um “cocktail” de comprimidos – às vezes, com mais de 30 por dia – transformou-se, em muitos casos, num único comprimido. A regra é entre um e três.

“Com um comprimido por dia, como acontece noutras doenças, consegue-se ter a infeção totalmente controlada. Podemos mesmo dizer que a infeção VIH, quando tratada devidamente, e um doente esteja indetetável, se trata de uma doença crónica. São pessoas que vão ter uma experiência média de vida sobreponível à da população geral”, atesta Rita Sérvio, médica infeciologista a trabalhar no Hospital Beatriz Ângelo.

A lógica é simples: indetetável significa intransmissível. Com a medicação, o vírus deixa de ser detetável. A carga viral torna-se tão baixa que não tem força para ser transmitida a outra pessoa, mesmo no caso de uma relação sexual desprotegida.

Para que uma pessoa seropositiva seja considerada indetetável e intransmissível, é necessário que a carga viral seja indetetável há pelo menos seis meses. Há casos em que os novos fármacos conseguem controlar o vírus em apenas quatro semanas. Tudo depende da dimensão da carga viral no momento do diagnóstico.

Em Portugal, ao contrário do que acontece noutros países da União Europeia, não existem dados sobre quantas pessoas com VIH estão em tratamento e já com a carga viral suprimida.

Infeciologista Rita Sérvio explica como funciona a medicação para o VIH (DR)

Uma certeza libertadora

Leandro contou a Rodrigo que vivia com VIH no dia em que o pediu em namoro. “A única coisa que ele me respondeu foi ‘Está tudo bem? Estás a tratar-te? Já estás indetetável? Então, está tudo certo’”.

Foi uma reação positiva, a contrastar com aquilo que, segundo os profissionais de saúde ouvidos pela CNN Portugal, ainda continua a marcar o momento em que alguém revela a um potencial parceiro que é seropositivo: a rejeição.

E isto aconteceu porque Leandro já tinha, na sua posse, muita informação sobre esta infeção. “Para mim, não foi um choque”, garante. Ainda assim, havia muito mais para aprender, sobretudo porque o casal, hoje em dia, se dedica a esclarecer as dúvidas que chegam dos seus seguidores nas redes sociais.

“Por exemplo, no que diz respeito ao indetetável, não tinha a certeza absoluta de que não estava a correr riscos. Quando procurámos um médico, quando procurámos a ciência para ter a informação completa, soube que estava completamente seguro. É libertador. Hoje, casado com uma pessoa com VIH, sinto-me muito mais seguro do que quando era solteiro. Antes, relacionava-me com diversos parceiros, que poderiam viver com o vírus e não saber. Sendo casado, só me relaciono com ele, que é indetetável”, junta Rodrigo, modelo e criador de conteúdos, hoje com 34 anos.

Leandro Buenno e Rodrigo Malafaia mudaram-se para Portugal em 2023 (DR)

Um maior controlo da saúde

“Podemos dizer com toda a segurança, nos casais serodiscordantes [em que um tem VIH e o outro não], que quando a pessoa está a fazer medicação de forma certinha, sem falhas, que a probabilidade de infetar a outra pessoa é zero. Portanto, risco zero”, confirma a infeciologista Rita Sérvio.

Ainda assim, segundo a médica, é preciso ter cuidados para evitar que alguma barreira na absorção da medicação possa contrariar esse cenário. “Se houver algum sintoma gastrointestinal que diminuía a absorção, isto é, se a pessoa estiver com vómitos ou diarreia, ou se falhar um dia da medicação, o que pode acontecer por ser uma medicação para a vida toda, aconselhamos a utilização de um método de barreira, nomeadamente o preservativo”.

Além disso, a cada seis meses, a pessoa infetada com VIH desloca-se ao médico para confirmar como está a carga viral e avaliar a saúde no seu geral.

“Na realidade, comecei a cuidar mais de mim, porque faço exames periódicos, que era algo que eu não fazia antes do VIH. Hoje em dia, lido com o meu corpo de uma forma muito mais responsável", conta Leandro, que quando iniciou o tratamento tomava dois comprimidos por dia.

“Costumo dizer que o Leandro tem uma saúde muito mais controlada do que a minha. Quem é que vai ao médico e faz todos os exames de seis em seis meses? Ele vai, eu não. A saúde dele está muito mais controlada e assistida por ter um vírus, que não tem poder sobre ele, do que a minha, que não vivo com o vírus", concorda Rodrigo.

Registo fotográfico de 1987 de comprimidos retrovirais usados no tratamento do VIH/SIDA (AP Photo)

Estigma pode começar logo no hospital

Rodrigo confessa que nunca sentiu culpa em relação ao VIH. “Este vírus não escolhe ninguém. Não vê cara, não vê cor, não vê raça, não vê grupo social. O VIH pode estar em mim, em ti, na tua mãe, na tua avó”.

Ainda assim, o estigma em relação ao VIH/SIDA está longe de ser ultrapassado. Muitas vezes, começa logo no hospital. Um estudo europeu, citado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, revelou que cerca de 31% dos profissionais de saúde inquiridos em Portugal “apresentavam alguma forma de estigma, motivado pela falta de formação específica e de experiência prática com pessoas que vivem com VIH”.

“São números assustadores, porque na verdade esta questão também começa por nós”, reconhece a médica Rita Sérvio.

Quarto de hospital para receber seropositivos na década de 1980 no Reino Unido (Getty Images)

Foi o que sentiu na pele Cristina Calca, hoje com 54 anos, quando, há cerca de 15 anos, recebeu o diagnóstico. “Colocavam duas ou três luvas, não se aproximavam muito de mim, iam sempre com máscara. Sentia-me humilhada. Estava muito doente, precisava de colo”, confessa. Vamos conhecer melhor a história de Cristina no próximo capítulo desta reportagem.

Leandro, tal como o marido, acredita que esse combate tem de partir também de quem está infetado. E daí que o ativismo tenha tomado conta da vida dele e do marido. “Foi uma das coisas que mais me levou a apaixonar-me por ele: a forma como ele tomou a atitude de disseminar a informação, porque é a informação que salva vidas", conta Rodrigo.

Uma infeção que custa 200 milhões por ano ao SNS

Os relatórios anuais do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge mostram que, todos os anos, são diagnosticados cerca de 900 novos casos em Portugal, confirmando uma tendência de descida neste indicador – que, contudo, continua acima da média da União Europeia.

Em Portugal, estima-se que existam mais de duas mil pessoas que estão infetadas sem o saberem.

O tratamento do VIH/SIDA custa todos os anos ao SNS mais de 200 milhões de euros. Esta infeção representa praticamente 13 em cada 100 euros gastos em medicamentos pelo sistema público. Os dados do Infarmed revelam que o valor total se tem mantido relativamente estável: isto deve-se ao facto de existirem mais pessoas em tratamento, já que o valor anual por cada doente no SNS tem vindo a diminuir ao longo dos anos, reflexo também da descida no preço dos medicamentos que é aplicado pelas farmacêuticas.

Hoje, cada paciente com VIH/SIDA custa à volta de cinco mil euros por ano aos cofres público. Há uma década, segundo várias estimativas, custava o triplo.

Em Portugal, ao longo de quatro décadas de existência do vírus - identificado no país em 1983 -, já foram diagnosticados cerca 69 mil casos de VIH, sendo que quase 24 mil atingiram o estágio de SIDA. Morreram praticamente 16 mil pessoas devido a esta infeção. Atualmente, uma fatia considerável dos óbitos acontece mais de 20 anos depois do diagnóstico.

Em Portugal, hoje em dia, existirão cerca de 47 mil pessoas a viver com este vírus, “95% das quais estavam diagnosticadas, o que indica que Portugal atingiu o primeiro objetivo da ONUSIDA”, segundo o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

Custo por doente tem vindo a diminuir devido à evolução na terapêutica (DR)

Dois focos de preocupação

Apesar dos vários indicadores positivos, com uma “redução de 36% de novos casos entre 2013 e 2023”, existem dois focos a gerar maior preocupação entre os especialistas: os homens jovens que têm sexo com outros homens e a comunidade imigrante.

Já no que respeita às pessoas heterossexuais, nomeadamente nos homens acima dos 50 anos, o principal desafio está em conseguir que os diagnósticos sejam feitos cada vez mais cedo, evitando a progressão da infeção e o seu desenvolvimento para o estágio de SIDA.

“Nos novos diagnósticos, o que sabemos é que a maior parte são homens, com a mediana de idades nos 36 anos. Nos homens que têm sexo com homens, este diagnóstico é feito muito mais cedo, com uma mediana nos 31 anos”, explica a infeciologista Rita Sérvio.

Em seis em cada 10 diagnósticos, a pessoa infetada estava assintomática. A maioria dos novos casos positivos acontece na região de Lisboa.

Registo da investigação científica levada a cabo sobre o VIH/SIDA na década de 1980 (Getty Images)

Comunidade imigrante: o que explica as preocupações

Nos últimos tempos, no que respeita ao VIH/SIDA, uma das grandes preocupações está na comunidade imigrante: as pessoas não nascidas em Portugal já representam metade dos novos casos registados.

No ano de 2023, segundo a informação oficial, “em metade dos casos, é indicado ou existe evidência que terão adquirido a infeção em Portugal”, o que poderá refletir as dificuldades de acesso a tratamentos preventivos em Portugal. A lista de espera para uma consulta de profilaxia pré-exposição – tratamento que permite evitar uma infeção pelo VIH/SIDA – pode chegar a um ano. E, nesse intervalo de tempo, dizem os especialistas, há quem acabe por se infetar.

“Temos a população homossexual, que, maioritariamente, vem da América Latina, quase todos brasileiros. Muitos sabem que estão infetados e, portanto, têm um bom seguimento no Brasil. Trazem, de facto, o seguimento médico e estão controlados. Depois temos, na comunidade heterossexual, as pessoas de origem africana, que muitas vezes, não sabem que estão infetados. Tendem a chegar já numa fase de infeção avançada, sem saber previamente que estavam infetados”, simplifica o infeciologista Eugénio Teófilo, a trabalhar no Hospital Santo António dos Capuchos.

Assim, os números relativos aos imigrantes integram várias realidades: os casos já identificados nos países de origem que são contabilizados como novos para efeitos de inscrição de SNS e os casos identificados já em Portugal devido à falta de tradição ou capacidade de testagem nos países de origem, encarados como áreas endémicas deste vírus.

“Sabemos que, muitas vezes estas pessoas têm dificuldades de acesso ao SNS. Mas isto é uma questão de saúde pública. Uma pessoa que vive com VIH tem direito a aceder aos cuidados de saúde, independentemente da sua origem, de ter número de segurança social ou de SNS”, argumenta Rita Sérvio.

O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, no seu último relatório, defendia que esta população devia ser “alvo de ações dirigidas, com especial foco na prevenção e no rastreio”.

Caso de Rodrigo foi identificado no Brasil. Segue agora a terapêutica em Portugal (DR)

ENCONTRE ABAIXO TODOS OS MATERIAIS DESTA REPORTAGEM

CAPÍTULO 1: "Sinto-me mais seguro casado com alguém que tem VIH do que solteiro". Um único comprimido por dia mudou a forma de viver com este vírus

CAPÍTULO 2: "Antes acreditava que ia ficar numa maca". Há uma "revolução" em curso no tratamento do VIH/SIDA e já se controla o vírus com injeções a cada dois meses

CAPÍTULO 3: O mundo sempre esperou a vacina para o VIH/SIDA. Mas a cura pode estar noutra direção: "Temos de destruir os reservatórios"

VERSÃO TELEVISIVA: Enquanto a cura não chega: como a “revolução” no tratamento está a mudar a única pandemia que não teve fim

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