Durante a Guerra do Vietname, este hotel de luxo protegeu celebridades dos ataques aéreos dos EUA

CNN , Lilit Marcus
1 mai 2025, 11:00
Hotel no Vietname (CNN)

O Hotel Metropole de Hanói situa-se, imponente, numa esquina no centro da cidade, revestido de um branco brilhante com portadas pretas bem cuidadas. Quando os hóspedes chegam ao edifício colonial francês, são recebidos por funcionários vestidos com túnicas de seda chiques.

Fotografias emolduradas ao longo do átrio mostram alguns dos hóspedes mais famosos do hotel, desde os presidentes franceses François Mitterand e Jacques Chirac, ao escritor Graham Greene, à atriz Jane Fonda e à estrela do cinema mudo Charlie Chaplin. Em 2019, o Metropole recebeu o presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder norte-coreano, Kim Jong Un, para uma cimeira.

Mas, por baixo dos elegantes pavimentos de azulejos, há uma outra camada de história, mais sombria.

O Vietname assinala esta semana o 50.º aniversário da reunificação e o hotel - agora chamado Sofitel Legend Metropole Hanoi - está a destacar a sua herança de guerra.

O dia 30 de abril de 2025 marca meio século desde a queda de Saigão e a evacuação de helicóptero do embaixador dos EUA Graham Martin, pondo fim à chamada Guerra do Vietname - que os vietnamitas apelidam de Guerra Americana.

Embora a maior parte dos grandes eventos formais do aniversário - como uma parada militar e a inauguração de um terminal aeroportuário - se realizem na metrópole do sul, a cidade de Ho Chi Minh (antiga Saigão), Hanói, a capital do Vietname, tem muita história para partilhar.

O Metropole foi inaugurado em 1901, quando o Vietname estava sob controlo francês. Passou por vários proprietários até ser adquirido pelo governo comunista na década de 1950 e rebatizado de Hotel da Reunificação.

Foi um dos poucos hotéis autorizados a albergar visitantes estrangeiros durante a guerra, pelo que muitos políticos, jornalistas e artistas famosos passaram por lá.

Em 1965, o hotel construiu um bunker subterrâneo onde os hóspedes podiam abrigar-se durante os ataques aéreos dos EUA. De acordo com o diretor do hotel, Anthony Slewka, o espaço tinha capacidade para cerca de 100 pessoas - aproximadamente o mesmo número de hóspedes - e estava dividido em quatro câmaras com dois pontos de acesso.

Depois da guerra, o bunker foi esquecido - até 2011, quando uma empresa de construção civil que estava a remodelar o Bamboo Bar do hotel o redescobriu.

Atualmente, o Metropole oferece duas visitas diárias ao bunker aos hóspedes do hotel, às 17:00 e às 18:00 horas.

Enquanto estão no bunker, os visitantes podem observar as lâmpadas originais e outros acessórios enquanto ouvem a canção de Joan Baez “Where Are You Now, My Son?”, que a cantora gravou precisamente enquanto estava hospedada no Metropole. A canção incorpora música, palavras faladas, clips de uma mulher vietnamita a gritar pelo seu filho e o som de sirenes de raid aéreo.

Baez passou algum tempo no bunker durante as suas visitas ao Vietname e descreve como se tornou uma ativista da paz depois de ver os efeitos da guerra nas pessoas.

A história de Hanói

A vista frontal do Sofitel Legend Metropole Hanoi (Cortesia: Sofitel Legend Metropole Hanoi)

Os turistas que visitam Hanói e que querem saber mais sobre a época da guerra, podem também visitar a Prisão de Hoa Lo, onde estiveram detidos prisioneiros de guerra norte-americanos - incluindo o falecido senador John McCain. Apelidada de “Hanoi Hilton”, foi convertida num museu de história multimédia e dispõe de materiais em inglês.

Entretanto, o Museu de História Militar do Vietname, em Hanói, é o maior museu do país, após uma reestruturação no outono de 2024. A secção exterior exibe aviões, tanques, foguetes e artilharia que foram utilizados pelos militares norte-americanos durante a guerra.

O corpo embalsamado de Ho Chi Minh, o revolucionário que liderou o exército norte-vietnamita e mais tarde se tornou presidente do Vietname, está exposto ao público num grande edifício no centro de Hanói.

O mausoléu fica a uma curta distância a pé do complexo do Palácio Presidencial, onde se encontra a tradicional casa de palafitas de madeira onde Ho Chi Minh viveu.

"Olhar para o futuro"

Atualmente, os norte-americanos são os principais hóspedes do Metropole, segundo o diretor do hotel, Slewka. Alguns são veteranos da guerra e querem regressar para rever o país, mas outros são jovens do pós-guerra que estão simplesmente interessados na comida, na cultura e nas paisagens do Vietname.

De acordo com dados do governo vietnamita, os EUA são a quarta maior fonte de turistas internacionais e o maior mercado fora da Ásia, com 717 mil turistas norte-americanos a viajar para o Vietname só em 2023.

Embora as visitas guiadas ao bunker do Metropole sejam populares entre os hóspedes, Slewka diz que a maior parte das perguntas que lhe fazem vão além da própria estrutura. “Na maioria das vezes, querem saber se gostam ou não dos norte-americanos aqui”.

Slewka, que nasceu nos EUA e cresceu no Canadá, dá sempre a mesma resposta. "Os vietnamitas são muito virados para o futuro. Estão a olhar para o futuro."

Relacionados

Ásia

Mais Ásia