Os mil corpos enterrados em dois cemitérios às portas de Mariupol no último mês

27 abr, 21:43

Não é difícil chegar a Mangush. A cerca de 20 quilómetros de distância de Mariupol, encontramos esta localidade depois de pedirmos indicações a um soldado separatista num posto de controlo. Não escondemos ao que vimos. Abrimos o jogo e dizemos que as autoridades ucranianas denunciam haver valas comuns no cemitério de Mangush. Sorri e manda-nos avançar. É um sinal de que, muito provavelmente, não há ali nada a esconder.

Quando chegamos ao cemitério, não encontramos valas comuns, ao contrário do que denunciava o ex-autarca de Mariupol apoiado por imagens de satélite. No local preciso da geolocalização, o que há são cerca de 230 campas individuais com placas numeradas, muitas delas com nome, data de nascimento e morte.

Tentamos perceber melhor quem são estas pessoas e quando chegaram, através de vários coveiros que abrem uma sepultura mais abaixo. Dizem que não estão autorizados a falar mas que sabem que aqueles corpos vêm de Mariupol e que muitos são civis e soldados ucranianos.

A seguir, procuramos conversar com várias pessoas que estão a limpar e a cuidar das campas dos seus familiares. "O carro trazia corpos de Mariupol. Duas escavadoras abriam buracos e uma outra enchia de terra. O carro ia e voltava. Dizem que os corpos foram primeiro levados para Mangush para a morgue", afirma Ana, uma idosa que aceita falar para as câmaras. Acrescenta que estes corpos têm sido enterrados ao longo do último mês neste cemitério.

Precisamente seis meses depois da morte do pai, Irina limpa a campa de Alexey, um importante arquitecto de Mangush. Não sabe a quem pertencem estas novas campas no cemitério local. Mostra-se indignada com as autoridades ucranianas e acusa-as de atacar o próprio povo. Não conseguimos obter mais informações e decidimos procurá-las na morgue do hospital de Mangush.

É aqui que esperamos algum tempo por um responsável que nos possa esclarecer sobre quem são estas pessoas e que tipo de enterros têm sido feitos. Chegam vários militares que se identificam como médicos e um deles aceita falar para as câmaras. Nega a existência de qualquer vala comum e afirma que os corpos correspondem sobretudo a civis e a militares ucranianos. "Nós examinamos os cadáveres de civis e soldados que morreram em Mariupol. Na verdade, emitimos um atestado médico de óbito", explica.

Perguntamos directamente sobre valas comuns e vítimas do exército russo e de Donetsk. Contesta que é "mentira". "Há dois cemitérios em Staryi Krym e Mangush [com estes corpos]. Uma sepultura separada, um caixão e uma placa com um número são alocados para cada corpo. Depois da autópsia de cada cadáver, juntamente com a equipa do Ministério Público, a empresa pública [funerária] Ritual trata das sepulturas", contesta.

De seguida, confirma que nestas sepulturas estão também soldados ucranianos e corrige os números que tínhamos em Mangush para 300 mortos. Como afirmaram os civis que estavam no cemitério, também diz que estes enterros começaram há cerca de um mês.

Stary Krym

No dia seguinte, decidimos visitar o cemitério referido pelo responsável militar e pelas autoridades ucranianas como uma outra localização de valas comuns. As imagens de satélite correm o mundo. Neste caso, são centenas de campas a perder de vista. No total, mais de 650 pessoas estão enterradas em sepulturas recentes.

O cemitério é enorme. Provavelmente, o maior de Mariupol. Uma vez mais, repete-se o cenário de Mangush mas desta vez confirmamos que estas pessoas estão dentro de caixões. Quando chegamos, Danya está a operar uma escavadora para abrir uma fileira que possa receber novos corpos. Também este trabalhador nega a existência de valas comuns. De facto, não há nenhuma evidência nesse sentido. Em frente a cada caixão, está uma placa com o registo. É uma forma de ajudar os familiares a encontrar pessoas desaparecidas, diz.

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