Grelhadores e lenha: as armas contra o frio dos palestinianos em Gaza

11 jan, 17:25

O Território Palestiniano da Faixa de Gaza é banhado pelo Mediterrâneo Oriental, mas isso não significa que as temperaturas não desçam no inverno. Com cortes de eletricidade constantes e sem dinheiro para comprar gás, as famílias palestinianas encontraram uma solução tradicional, mas que pode ter consequências a longo prazo: a queima de troncos de madeira e os grelhadores para cozinhar em família.

O contexto de dependência em que vivem os palestinianos de Gaza faz com que sejam particularmente vulneráveis às variações de produtos essenciais, como os alimentos e a energia.

Com invernos mais rigorosos do que é habitual, a falta de dinheiro para o gás e com os constantes cortes na distribuição de energia - cujo processo é controlado por Israel, as famílias palestinianas tentam as soluções possíveis. Uma delas é a queima de troncos de madeira e o recurso a grelhadores para manter habitações precárias aquecidas.

Uma opção que tem feito prosperar - se é que o termo pode ser utilizado num território estrangulado por sanções e bloqueios - o negócio de venda de madeira de Samir Heji, lenhador palestiniano.

Tem 55 anos. À agência Reuters contou que as vendas aumentam "porque o gás é caro e os cortes na eletricidade podem durar oito horas ou mais, principalmente a partir da tarde. "Todos os habitantes de Gaza fazem assim. Sentam-se ao pé do grelhador para se aquecerem e é por isso que se vende mais madeira."

Até Samir faz a mesma coisa em casa. Diz que, para aquecer os filhos, usa dois grelhadores que acende quando o tempo arrefece.

Uma das clientes de Samir é Saadeya, de 43 anos. Vive como a maioria dos palestinianos de Gaza. Sem recursos e com a ajuda que vai chegando.

Saadeya vive num subúrbio da Cidade de Gaza. É nas ruas estreitas que recolhe tudo o que pode ser queimado e que se assemelhe o mais possível a um tronco de madeira. Ramos, folhagem seca. Leva tudo o que encontra à cabeça e usa o que encontrou para atear um fogo e cozinhar para os dois filhos. 

Conversa com o jornalista da agência Reuters enquanto prepara uma refeição no chão.

"Usamos o fogo porque não temos dinheiro para comprar gás. Não temos nada. O que devemos fazer? Queremos viver. Como vamos alimentar os nossos filhos? E como vamos cozinhar? E comer? Só conseguimos fazer isso tudo com fogo."

A poluição e as mudanças climáticas

Mas a concentração de fumos que se faz sentir por todo o território - a Faixa de Gaza tem atualmente apenas 365 km2 - tem consequências a médio prazo para a qualidade do ar que respira a população. 

Nizar al-Waheidi é perito em assuntos ambientais. Diz que, para além da poluição, a queima constante de troncos no território tem um impacto negativo no que diz respeito às alterações climáticas porque incrementa o fenómeno do aquecimento global. 

Além disso, as fogueiras que se vão acendendo um pouco por todo o lado, seja para cozinhar, seja para aquecer famílias em casa, produzem fumos tóxicos. Nizar Al-Waheidi diz que devem ser encontradas alternativas. Para além do aquecimento global e do agravamento da qualidade do ar, está em causa a saúde de uma população empobrecida. 

Uma das regiões mais densamente povoadas do planeta

Vivem na Faixa de Gaza mais de dois milhões de pessoas, o que faz do território palestiniano um dos mais densamente povoados do Planeta.

A retirada unilateral de Israel em 2005, que ocupou o território desde 1967, deixou Gaza à mercê das tensões entre as principais forças políticas incapazes de chegar a um entendimento a governação de um Estado Palestiniano com pleno reconhecimento pela Comunidade Internacional.

Refém dos desentendimentos entre os fundamentalistas do Hamas e nacionalistas seculares da Fatah (a maior fação da confederação de forças a Organização para a Libertação da Palestina), os palestinianos de Gaza sobrevivem numa economia de rastos e sem capacidade para satisfazer as necessidades básicas da população.

O Comissariado das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários diz que 15 anos de bloqueio da Faixa de Gaza impostos por Israel e pelo Egito deixaram a população adulta sem emprego. Quase toda a população sobrevive graças a ajuda humanitária. Mais de metade da população é pobre. 

Stéphane Dujarric, porta-voz do Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, diz que 80% dos habitantes de Gaza não poderia viver sem a ajuda externa. E que mais de 80% dos jovens adultos não tem emprego.

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