Entrevista: a diáspora iraniana quer mudar o regime por dentro

13 jan, 00:09

Vai ser difícil conhecer o número exato de mortos às mãos das forças da ordem da República islâmica do Irão por causa de mais uma vaga de manifestações contra o regime dos aiatolás.

É que Teerão consegue ser tão eficaz a reprimir uma população superior a 90 milhões de pessoas quanto é a esconder informação.

A Amnistia Internacional diz que o Governo cortou a Internet dia oito de janeiro e que o mesmo aconteceu com os serviços de telecomunicações.

Para a organização de defesa dos Direitos Humanos, é um ato deliberado para que a comunidade internacional desconheça a dimensão das atrocidades cometidas nas últimas semanas, em especial, a partir de janeiro.

Massou Salari dividiu a vida entre França e o Irão enquanto lhe foi possível. Jornalista franco-iraniano, também escreve. Publicou "As Nostalgias do Futuro," em francês, em 2024. À CNN Portugal diz que o Governo dos aiatolás já provou que é um regime sanguinário.

"O regime reprime com sangue. Não há informação que saia do Irão, mas a repressão é cruel. Fala-se em milhares de mortos, mas não há informações oficiais sobre o assunto."

Massou tem acompanhado a repressão das forças iraniana sobre uma população farta de viver em apertos económicos, mas também cada vez menos apta a tolerar a falta de expressão imposta pelo regime islamista xiita em 1979.

Há algum tempo que não vai ao Irão, até porque, da última vez que lá foi, ficou retido na fronteira. As autoridades alegaram um problema com o passaporte. Mas talvez os vários artigos assinados por ele e as peças que passavam num canal de televisão tenham influenciado a decisão. Nunca se sabe, em Teerão.

Uma violência de uma dimensão nunca antes vista

Salari diz à CNN Portugal que estão a ser registados episódios de uma violência que não conhece em toda a História da República Islâmica.

"E o regime nunca esteve tão debilitado, seja ao nível da economia, seja ao nível dos seus apoiantes. Há cada vez menos forças para reprimir motins e manifestações," explica.

O jornalista e poeta diz que, ainda assim, "as pessoas continuam a manifestar-se em Teerão e noutras cidades," mesmo que forças do regime "entre em casa das pessoas para obter informações."

Salari é parte de uma diáspora de iranianos e dos seus descendentes que foram deixando o Irão com a queda do Irãio da dinastia Pahlavi, com a Revolução Islâmica.

São mais de quatro milhões, muitos com dupla nacionalidade, de França à Alemanha, passando pela Suíça e Estados Unidos.

A comunidade iraniana, que é diversa étnica e culturalmentem, partilha informação, grande parte das vezes em língua persa ou farsi, e mantém-se atualizada através dos canais de informação na língua oficial, que emitem a partir de países como o Reino Unido ou os Estados Unidos. Juntam-se várias rádios, páginas digitais com grande difusão e, claro, as redes sociais, que escapam ao controlo totalitário das autoridades.

Massoud Salari explica que é essa comunidade, espalhada por vários países do Ocidente, que tem estado a fazer tremer o regime por dentro.

Há quem queira o regresso da dinastia Pahlavi ao poder, o que significa que o Irão deixaria de ser uma República Islâmica e voltaria a ser governado pela figura do Xá. Resta saber se é isso o que os mais de 90 milhões de iranianos desejam, ou se preferem outra alternativa, entre uma República Islâmica mais aberta ou um Estado laico, mais próximo das democracias liberais do Ocidente.

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