E depois do adeus? Sem fim do chavismo à vista, quem manda em Caracas?

12 jan, 17:48

Os dias que se seguem à invasão militar da Venezuela pelos Estados Unidos fizeram com que a comunidade internacional temesse um vazio de poder, após 25 anos de um chavismo que foi esmagando a liberdade dos venezuelanos.

Para o politólogo venezuelano Victor Mijares, a decisão da Administração Trump foi "um mal necessário".

Em entrevista à CNN Portugal, o professor da Universidade Nacional dos Andes, especialista em temas de segurança e defesa e conhecedor da política interna venezuelana, mostrou-se preocupado com a possibilidade de um vazio de poder. 

"Há aproximadamente umas 15 definições distintas de soberania. E uma delas tem a ver, precisamente, com a soberania que emana da vontade popular. E neste caso, a soberania não se pode exercer (durante os governos de Nicolás Maduro)," disse.

"Portugal tem uma forma de fazê-lo pacificamente se. Se amanhã não gosta do Governo, tem instituições que podem permitir-lhe, com liberdade, formar um novo Governo. E sem disparar uma bala," continuou Mijares.

Um equilíbrio de poder muito precário

Um vazio que poderá dar lugar a tensões entre as diferentes alas do chavismo, que se foram consolidando ao longo dos anos posteriores à morte de Hugo Chávez, em períodos de governação do Nicolás Maduro marcados por um agravamento do aparelho repressivo. 

E, uma vez decapitado o poder, Víctor Mijares acredita que a Venezuela vive dias tensos e que os próximos passos da Administração Bush podem ser decisivos e que eliminar o aparelho chavista das instituições federais e estaduais com um golpe é impossível. 

"O que vivemos na Venezuela é um equilíbrio muito precário, mas a alternativa a esse equilíbrio seria ter arrasado completamente com o regime e isso poderia ter sido muito pior, com violência e anarquia descontrolada."

É que o exército da Venezuela, pilar fundamental da governação e repressão madurista, poderia fragmentar-se. Victor Mijares contempla todos as possibilidades, incluindo a de uma guerra civil.

"As forças armadas poderiam fragmentar-se, as forças armadas venezuelanas. Mas também estamos a falar de grupos criminosos

e de guerrilhas transnacionais, grupos colombianos, como o Exército de Libertação Nacional."

Mijares refere ainda a influência na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia que exercerem os guerrilheiros que ainda operam em nome das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC.

Machado ainda pode chegar ao poder

Depois do rapto do Presidente Nicolás Maduro e da mulher, Cília Flores, sob o pretexto de ligação a narcotráfico, os Estados Unidos aceitaram, por agora, a decisão do Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela em nomear Delcy Rodríguez, próxima de Maduro, como presidente interina. O irmão da Presidente interina é Jorge Rodríguez, Presidente da Assembleia Nacional. 

A medida deixou os vizinhos da Venezuela e a comunidade internacional à espera de uma reação da Administração Trump. Ora, se Rodríguez disse e insistiu que governava apenas por e para os venezuelanos e que nenhuma potência estrangeira iria ingerir nos interesses nacionais, Trump respondeu que a Venezuela era controlada por Washington.

Ao mesmo tempo, Trump parece ter prescindido da vencedora do Prémio Nobel da Paz e ua das mais destacadas líderes da oposição, Maria Corina Machado, que deixou o país clandestinamente, com medo de represálias do aparelho chavista. 

Trump e o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, explicaram, ao longo dos dias que se seguiram à nomeação de Delcy Rodríguez, que apostavam na capacidade dos venezuelanos em dar "continuidade ao processo."

Victor Mijares diz que Maria Corina Machado ainda tem, no entanto, possibilidade de chegar ao poder:

"Primeiro, Maria Corina Machado não viveu muito tempo fora da Venezuela. Todos os estudos universitários dela foram feitos em universidades venezuelanas. E vem de uma família de tradição política, para além de que o seu tio foi fundador do Partido Comunista da Venezuela nos anos 30." - Gustavo Machado.

Uma elite distanciada da maioria dos venezuelanos?

Sobre a capacidade dos membros da elite venezuelana, no poder antes do início do chavismo em 1998, em estabelecer ligação com a maioria do eleitorado, Victor Mijares acredita que isso é possível, mais não seja pelo desgaste dos governos chavistas. E isso aplica-se a Maria Corina Machado:

"Tem uma ligação sim, com as elites uma conexão com essa elite branca de origem colonial. Pode encaixar nessa visão da elite colonial latino-americana branca," admite.

"Mas teve uma aceitação grande por parte de alguns setores populares, que a vêm como uma alternativa viável para a modernização do país."

Por agora, tanto a oposição, em Caracas e na diáspora, de Madrid a Miami, quanto o aparelho chavista, devem contar com o plano de três fases imposto pela Administração Trump para a Venezuela.

E o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, um cubano-americano empenhado em eliminar do Hemisfério Sul das Américas qualquer réstia de sistema socialista, já avisou que o que se está a passar na Venezuela "não é improviso."

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