"Dr. Rui Rio, prefere entregar novamente os destinos do país ao PS do que chegar a um entendimento com o Chega?" "Não, não"

4 jan, 14:34

Rio está disponível para uma coligação com o Chega? Não. E para um entendimento? Não fechou a porta. Porque coligação e entendimento não são definitivamente o mesmo. E entre um Governo PS e diálogo com o Chega, Rio prefere o Chega. Excertos do debate entre Rui Rio e André Ventura à SIC Notícias:

EXCERTO 1

Clara de Sousa - O que lhe peço é que seja claro e que diga de forma inequívoca se o Chega e André Ventura fazem ou não parte da equação.
Rui Rio - Sim senhora, Clara, vou ser claro [risos]. Eu reconheço isso, reconheço que se o Chega tiver uma votação muito elevada vai dificultar o PSD poder ser governo. Porquê? Porque aquilo que o Chega diz é que só apoiará o PSD se fizer uma coligação com o PSD. Até disse que quer quatro ou cinco ministros. Isso não pode ser porque há divergências de fundo entre o PSD e o Chega que não permitem isso.

CS - O que é que pode ser?
RR - Há uma coisa que é assim: eu não quero ir para o poder a qualquer preço, eu chego aqui e faço uma negociação qualquer, olhe, como o Dr. António Costa fez com a geringonça a seguir a 2015, as pessoas contavam com uma coisa, chegou lá o PSD ganhou mas ele é que foi primeiro-ministro… Eu quero ser claro. Há aqui divergências. Eu tive o cuidado de ver o programa do Chega e há aqui coisas graves. (…) O Chega filia-se contra o regime “que desde 1974 subverteu a ordem moral da tradição secular portuguesa”. Mais abaixo um bocadinho diz que o Chega “enfrenta a causa original do falhanço do regime pela renovação da orientação da moral social”. Portanto, o Chega assume-se contra o regime. Ora bom, eu reconheço que o regime democrático está com muitas falhas, muito desgastado e precisa de um abanão, precisa de uma série de reformas. Mas aquilo que eu quero é pôr o regime democrático [mesmo] democrático. Não quero outro regime. Portanto, desde logo à partida, isto é uma dificuldade muito grande para estarmos coligação…

CS - Ou seja, o senhor não está a colocar o Chega fora da equação.
RR - Eu estou a dizer que é impossível haver uma coligação com o Chega. Quer dizer, não é possível pelas posições que temos.

CS - Com este Chega ou com um Chega mais moderado?
RR - Bem, mas não há mais moderado nem menos moderado. O Chega disse isto, tem as posições bem claras, a minha posição também é clara, portanto, aqui, é claro.

EXCERTO 2

RR - Já arrumámos a questão ideológica, vamos às outras questões. O Chega é um partido instável. Eu não posso fazer uma união com um partido que é instável. (…)

CS - Ao fazer um acordo [nos Açores com o Chega], o PSD não assume o ónus dessa instabilidade e não está também nas mãos do PSD poder negociar e poder garantir essa estabilidade?
RR - Sim, mas a negociação não pode chegar nunca, nunca, a uma situação em que haja uma coligação, em que haja ministros do Chega. Nem pode nunca chegar a uma situação em que nós vamos violentar aquilo que são os nossos princípios. Prisão perpétua, para sermos claros, vamos ser claros. Há três possibilidades de prisão perpétua, três: há os países que não têm prisão perpétua, somos nós, e que são poucos; há os países que têm prisão perpétua e são poucos; e há no meio um vasto conjunto de países que têm prisão perpétua mas de certa forma mitigada, …

André Ventura – Mas nós admitimos isso!

RR - … ou seja, é condenado em prisão perpétua mas ao fim de 15 anos, por exemplo, sai em liberdade condicional…

AV – Nós admitimos isso, Rui Rio.

RR - … Se faz qualquer coisa, vai lá para dentro e então vai a prisão perpétua por inteiro. Se nós estamos a falar da prisão perpétua e ponto final parágrafo, vai para a cadeia e nunca mais sai de lá até ao fim da vida, isso nós somos contra, é um atraso civilizacional.

EXCERTO 3

AV – Isto não é um programa “Quem quer namorar com o agricultor”, isto é um programa para formar um governo. Nós temos de pôr as nossas simpatias ou antipatias pessoais acima disto, está em causa um governo para mudar a governação de António Costa. E o que Rui Rio veio aqui dizer hoje é: ele é radical. E porquê que é radical? Não sei bem porquê, “ordem moral”, “instável” e tal, e quando eu lhe apresento coisas concretas, diga lá se é favor ou não da redução do RSI e que os ciganos tenham de cumprir a lei, “diga lá se é ou não verdade que é preciso criar mais incompatibilidades no exercício de cargos públicos”, eu até penso que seja, é ou não verdade que temos mais cargos políticos do que precisamos? Ó Rui Rio, nós temos 27 mil deputados de freguesia, temos seis mil deputados municipais, temos mais de dois mil vereadores, para quê, um país com dez milhões e pouco de pessoas? É isto que é ser radical? É querer cortar nas gorduras do Estado? É querer uma administração que funcione melhor e dizer que podemos ser melhores políticos com menos políticos? Era isto que eu gostava de ouvir hoje da parte do PSD.

CS – Rui Rio, quer responder à questão de porque é que considera que o Chega é radical?
RR – [Ventura] pega na G3, dispara tudo de rajada, podemos responder ponto a ponto, depois não há tempo para responder ponto a ponto. Primeiro ponto, eu não disse…

CS – A questão é: há ou não possibilidade de confiança com André Ventura e com o Chega? Coloca ou não em cima da mesa ter uma relação de confiança com este senhor que está à sua frente e com o seu partido?
RR – Já disse que neste momento, face ao historial, isso não é possível.

CS – “Neste momento” não é inequívoco. A questão é que ainda ninguém respondeu a isso. Depois de 30 de janeiro, o senhor é suficientemente pragmático para neste momento dizer “não” ou dizer “depois vamos ver”?
RR -  Sou. Ó Clara, muito claramente, muito claramente. Aliás, relativamente ao eleitorado do Chega, eu não disse que não queria o eleitorado do Chega, o que eu disse que eu queria era manter o eleitorado do PSD para não fugir para o Chega. Quem quer o eleitorado do PSD é o Chega. O Chega quer roubar o eleitorado ao PSD, porque o Chega tem um vírgula tantos por cento e quer ter seis ou sete ou oito.

AV – Ou dez.

RR – Portanto quer roubar aqui. Eu não quero roubar o eleitorado do Chega, eu quero é segurar no PSD o eleitorado que é do PSD. Por isso, é evidente que se o resultado eleitoral der ao Chega uma votação expressiva temos muita dificuldade efetivamente em tirar o PS de lá. Isso para mim é absolutamente claro.

CS – Ou seja, vão ter de conversar, Rui Rio.
RR – Portanto, se o eleitorado votar muito no Chega e menos no CDS ou no PSD, por exemplo, obviamente que está a dificultar imenso a saída do Dr. António Costa. Se fizer o voto razoável e útil e óbvio no PSD está a facilitar nós substituirmos o Dr. António Costa. Isto é absolutamente claro.

CS – Mas nada aponta nesse sentido, portanto prefere nesse cenário entregar novamente os destinos do país ao Partido Socialista…
AV- Ora bem.

CS - … do que chegar a um entendimento com o Chega?
RR- Não, não. Eu apresento o meu programa e aquilo que o Chega tem de ver é confrontar o programa do PSD com o programa do PS…

AV – Ai nós é que temos de ver? Ai nós é que…? [risos]

RR - … ver qual é o que gosta mais. Se gostar mais do do PS, tem de derrotar o do PSD para passar o do PS, isto é absolutamente claro. Vai ter de o fazer, não é?

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