Cinco ideias para entender a primeira volta das legislativas francesas

13 jun, 23:57

A primeira volta das legislativas francesas poderia muito bem vir a ser uma terceira volta para o líder da união das esquerdas. Jean-Luc Mélenchon não passou à segunda volta das presidenciais, mas quer ser primeiro-ministro. Aqui ficam as principais conclusões de um escrutínio marcado por uma abstenção recorde numa França polarizada. 

1. A abstenção é o partido mais importante de França

O fenómeno do desinteresse pela política não é exclusivo de Portugal nem de países onde as democracias são consideradas menos maduras. Em França, tal como em vários dos vizinhos europeus, o interesse pelas eleições tem vindo a diminuir nos últimos anos. A preocupação pelo aumento da abstenção domina os debates pré e pós-eleições. Nesta primeira volta, a abstenção atingiu os 52,49%, de acordo com os dados do Ministério do Interior (Administração Interna). Nas legislativas de 2017, o número foi de 51,3% - outro recorde, na altura. Tal como em Portugal, muitos falam dos abstencionistas como membros do “partido mais importante de França.” De acordo com o site da France Info, (canal de televisão e rádio de informação públicas) a abstenção foi particularmente elevada entre os votantes com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos (69%) e entre os eleitores com idades entre os 25 e os 34 anos (71%). Quem mais votou tem entre 35 e 49 anos (59%), ainda que mais de metade dos que se encontram nesta faixa etária não tenha ido às urnas. A France Indo refere também que o fenómeno é mais forte entre as classes populares, enquanto as classes médias tendem a votar mais. O fenómeno, dizem os politólogos entrevistados pela France Info, explica-se por fatores como uma crescente desconfiança do eleitorado em relação à classe política, a falta de esperança na melhoria das condições de vida e a ausência de debates públicos. 

2. A vitória da coligação de Macron foi mais um empate do que outra coisa

Foi uma vitória por uma unha negra e sem grandes garantias no que a uma maioria “clara e forte na segunda volta" diz respeito. E foi isso mesmo o que pediu a primeira-ministra francesa, Elisabeth Borne, este domingo em Paris, conhecidos os resultados. A coligação Ensemble pour la Majorité Présidentielle (Juntos pela Maioria Presidencial), conhecida como Ensemble! nestas legislativas, conseguiu 25,75% dos votos.  A Ensemble! junta partidos do centro liberal, movimentos sociais-liberais e forças do centro-direita. A menos de um ponto percentual ficou a aliança das esquerdas denominada Nova União Popular, Ecológica e Social, com 25,66% dos votos. Se os representantes da coligação Ensemble! se apressaram a falar numa vitória nesta primeira volta, a verdade é que a NUPES de Jean-Luc Mélenchon se encontra em condições de obstaculizar o projeto reformista do Presidente da República. Emmanuel Macron e o seu partido La République en Marche (A República em Marcha, liberais-centristas) querem, por exemplo, aumentar a idade da reforma de 62 para 65 anos. É uma das medidas mais impopulares perante o eleitorado francês. 

3. A união fez a força. As forças de esquerda podem forçar um governo de coabitação 

Algo tão difícil de alcançar em França quanto em Portugal é a união das várias forças de esquerda. E é isso mesmo o que está a acontecer nestas legislativas, ao contrário do que aconteceu nas presidenciais. A Nova União Política, Ecológica e Social, a NUPES, como é referida nos meios de comunicação franceses, roubou a Marine Le Pen o estatuto de representante da oposição às políticas do Presidente Emmanuel Macron. O diário francês Ouest France refere que a união entre Socialistas, Comunistas, Ecologistas e Insubmissos (do partido A França Insubmissa) é um sucesso, apesar dos dissidentes da ala direita do Partido Socialista. A NUPES parte fortalecida para a segunda volta. Jean-Luc Mélenchon, antigo Socialista, candidato às presidenciais e grande beneficiário da subida da esquerda unida, quer ser primeiro-ministro. O sistema semi-presidencialista francês permite que seja formado aquilo que se chama um governo de coabitação, ou seja, um executivo em que o Presidente e o Primeiro-ministro pertencem a partidos diferentes. Não seria algo inédito na História da V República francesa. Por isso, Mélenchon apela ao voto na NUPES e diz que o mais importante é "rejeitar os projetos desastrosos de Macron." A NUPES diz estar presente em mais de 500 circunscrições na segunda volta de domingo. 

4. Tal como a abstenção, também a extrema-direita de Marine Le Pen bateu um recorde

Nas legislativas de 2017, o partido da filha de Jean Marie Le Pen obteve 13,7% dos votos. Este domingo, a União Nacional, antiga Frente Nacional, conseguiu 18,68% dos votos e parte para a segunda volta das legislativas como a terceira força mais votada. Além disso, o partido de Marine Le Pen ficou em primeiro lugar em mais circunscrições do que nunca - um total de 110. Apresenta candidatos em 208 circunscrições no próximo domingo, sendo a força de extrema-direita mais bem implementada perante o eleitorado. E a própria Le Pen, várias vezes candidata à presidência, conseguiu quase 54% dos votos na sua circunscrição, Hénin-Beaumont, no departamento de Pas-de-Calais. A elevada taxa de abstenção impediu que fosse eleita na primeira volta e terá agora de enfrentar a candidata da NUPES, Marine Tondelier. Para além dos números muito positivos, a União Nacional dos Le Pen consegue cada vez melhores resultados noutros departamentos dos Altos de França (norte) e também Nova Aquitânia (sudoeste). O partido conta atualmente oito deputados eleitos na Assembleia Nacional e tem como objetivo eleger pelo menos 60. Dados os resultados da primeira volta, a cifra parece difícil de alcançar, mas a União Nacional poderá vir a ter grupo próprio na câmara baixa francesa.

5. Para o eleitorado francês, a tradição já não é o que era

Desde que foi implementado o sistema dos mandatos presidenciais de cinco anos, as eleições legislativas confirmaram, de forma consistente, os resultados das presidenciais. E os politólogos franceses dizem que é por isso mesmo que a abstenção tem sido mais elevada nas legislativas do que nas presidenciais. Nestas legislativas, no entanto, a abstenção bateu recordes e os resultados não confirmam, até agora, o sentido de voto das presidenciais. Que o digam o Presidente Macron, apesar de Ensemble! ser a coligação mais votada, e Marine Le Pen, apesar do seu sucesso pessoal. Se, por um lado, a composição da Assembleia Nacional só poderá ser conhecida na segunda volta, por outro, tanto o centro-direita e os gaulistas do partido Os Republicanos, como os Socialistas, antes de esquerda e agora de centro-esquerda, perderam a capacidade de mobilização do eleitorado de até há poucos anos. O eleitorado transformou o sistema de partidos e forçou as diferentes forças a forjar alianças que pareciam quase impossíveis até agora. 

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