Christian Bale de "Amesterdão" ao Algarve: "Portugal sempre significou muito para mim"

27 out, 19:08

Para contar a história de um "triângulo de amizade" com uma conspiração política em fundo, porque não uma parada de estrelas de Hollywood? Dito e feito. Pelo meio, há quem insista que não é português e há quem cante Fado; são detalhes de uma comédia dramática que, nesta entrevista à CNN Portugal, põe Christian Bale a pensar nos bons tempos que viveu nos campos algarvios há quase 40 anos.

Christian Bale ainda não chegou ao meio século de vida, mas já tem um lugar cativo na história do Cinema. Foi Steven Spielberg que o lançou, ainda criança, em “Império do Sol” (1987). Com talento e critério, soube crescer e amadurecer como ator numa indústria altamente competitiva e nem sempre generosa e também em muitas produções independentes. Grandes transformações físicas para encarnar "O Maquinista" (2004) ou vestir o fato do Batman (2005 – 2012) deixaram claro que não olha a meios para encontrar a verdade de cada personagem. No filme que acaba de chegar às salas portuguesas, reencontra-se com o realizador David O. Russell, o mesmo que lhe abriu caminho ao único Óscar da carreira com "The Fighter" (2010); e contracena com Margot Robbie, John David Washington, Robert De Niro, Rami Malek, Anya Taylor-Joy, Mike Myers, Zoe Saldana, Chris Rock. A lista parece que não acaba, numa produção multimilionária iluminada pelo multipremiado Emmanuel Lubezki na direção de fotografia.

Depois de fazer de vilão no Universo Marvel, está de volta ao universo do David O. Russell. Gosta mesmo de se ir reinventando como ator em cada papel, não gosta?

Foi um salto muito rápido, entre esses dois filmes. Na verdade, filmámos "Amesterdão" primeiro. Nunca gostei de trabalhar muito, porque ninguém gosta de me ver assim tanto. Gosto de ter algum tempo entre filmes, mas por causa da pandemia, tinha dado a minha palavra. O David e eu começámos a trabalhar nisto há seis anos, essa era a minha grande prioridade. Tínhamos planeado começar a filmar, mas depois tivemos de parar tudo. Entretanto, conheci o Taika Waititi e concordei em fazer parte de "Thor: Love and Thunder". O meu amigo Scott Cooper, e eu também já tínhamos planos para fazer "The Pale Blue Eye" há muito tempo. De repente, recebemos luz verde e todos queriam fazer um filme imediatamente. Por isso, acabei por fazer três num ano, o que é mais do que alguma vez tinha feito. Fui direto do “Amesterdão”, literalmente três dias depois do fim das filmagens, para a Austrália fazer uma quarentena antes de começar a interpretar o Gorr. Foi estupendo fazer filmes tão extraordinariamente diferentes e tão próximos uns dos outros.

“Amesterdão” é claramente um dos filmes que, nos últimos anos, conta com mais estrelas no elenco. Como foi a experiência da rodagem com tantos atores consagrados como Margot Robbie ou John David Washington?

A Margot e o J.D. interpretam personagens principais, tal como eu. O Burt, a Valerie e o Harold são pessoas que fizeram um pacto na dor e sofrimento da Grande Guerra e que farão qualquer coisa uns pelos outros. O David O. Russell e eu quisemos criar um "triângulo de amizade" que gostaríamos de ter nas nossas vidas. Tivemos a sorte de contar com atores e com uma equipa técnica incríveis, mas quando trabalhamos num filme do David, é melhor arregaçarmos as mangas. Talvez filmemos o argumento e normalmente é o que acontece, mas temos de estar preparados para fazer todo o tipo de outras coisas ou trocar as deixas e seguir assim e mudar o que conceito que temos sobre o cinema tradicional. Não é isso que ele faz. Por isso, foi muito satisfatório, alegre e significativo também.

É interessante e, ao mesmo tempo surpreendente perceber como o argumento é inspirado em factos verídicos (conspiração fascista para derrubar o governo dos EUA nos anos 30 do século XX) e sublinha a noção de que a História se repete. Há uma chamada de atenção sobre o mundo em que vivemos de alguma forma?

Deixo isso para o Vítor decidir, mas é um acontecimento na história da América que nos deixa de queixo caído e que dificilmente alguém conhece. Isso foi algo que realmente me espantou a mim e ao David O. Russell. Nos seis anos que levámos a pôr tudo isto de pé, os queixos continuaram a cair ao chão com tudo o que fomos vendo nas notícias da televisão. Infelizmente, o filme tornou-se mais relevante do que alguma vez desejámos.

Em duas ocasiões diferentes, a personagem interpretada pela Zoe Saldana insiste que não é portuguesa. A certa altura, há quem cante um Fado. Há algum significado para essas ligações a Portugal e à cultura portuguesa?

Isso partiu do David O. Russell porque adora Fado e porque se deparou com a vontade de alguns americanos na altura (anos 30 do século XX) quererem ser portugueses naquela era vergonhosa à conta das clínicas de esterilização, etc. Na verdade, estava a pensar agora mesmo que Portugal sempre significou muito para mim porque vivi aí durante um ano quando tinha dez anos. Nem sequer fui à escola nem nada. Adorei! Perguntam-me muitas vezes qual é o meu "Amesterdão". Finalmente percebi que, na verdade, foi viver numa comunidade rural no Algarve quando tinha dez anos, o que simplesmente adorei!

Tem saudades disso?

Sim! Isso para mim chegava para a vida! Eu queria viver lá para sempre. Mas a família decidiu noutro sentido.

Uma das minhas falas favoritas no argumento é sua, quando diz: “o amor não chega, temos de lutar pela bondade”. Até que ponto se identifica com isso, pessoalmente?

Absolutamente! Este filme provoca-me arrepios e faz-me rir do princípio ao fim. O David O. Russell e eu passámos muito tempo só a pensar, só a criar deixas diferentes, coisas que eu sentia que o Burt diria, coisas que o David dizia para eu dizer. Ficou muito de fora, mas claro que temos de ter amor no nosso coração, temos de ter otimismo. Não pode ser de ninguém a luta contra os mestres do universo que estão simplesmente a destruir o nosso mundo. Como podemos ser úteis nisso? Claro que temos de ter amor, todos gostamos disso, mas os Beatles não estavam certos. Não é tudo aquilo de que precisamos. Também temos de lutar. Temos de lutar pela bondade. Por isso, identifico-me. É um personagem incrível, filho de uma inspiração louca. Por mais estranho que pareça, tenho saudades de interpretar o Burt. Gostei mesmo dele. Foi uma grande influência na minha vida. 

Muito obrigado e cumprimentos de Portugal!

"Obrigado" e o Miguel Oliveira está muito bem, como sempre! Não sei se acompanha o campeonato MotoGP, mas ele é extraordinário!

"Amesterdão" é uma das estreias da semana nos cinemas de todo o país.

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