Primeiro o furacão, depois as cheias, agora a Vibrio vulnificus. O que é e como se trata a bactéria que “devora a carne”

CNN , Por Jen Christensen
25 out, 10:00
Vibrio vulnificus, a bactéria que provoca fascite necrosante

Na sequência das inundações provocadas pelo furacão Ian, no condado de Lee, na Flórida, ocorreu aquilo a que o Departamento de Saúde estadual chamou de "aumento anormal" de casos de uma infeção bacteriana rara.

Segundo o Departamento de Saúde, a Flórida registou 64 infeções por Vibrio vulnificus, que resultaram em 13 mortes este ano, até à passada sexta-feira, um aumento em relação aos 34 casos e 10 mortes registados no ano passado. Esta é a primeira vez que o número de casos ultrapassa os 50 desde 2008, quando o estado começou a manter registos da doença.

Furacão Ian provocou estragos e deixou a Florida inundada.

Muitos dos casos estão concentrados no condado de Lee, onde os residentes têm estado a fazer operações de limpezas após a passagem do furacão Ian, de categoria 4, ter atingido a região no final de setembro.

Estas infeções são raras, mas graves. A Vibrio vulnificus costuma causar cerca de 80 mil casos e 100 mortes nos Estados Unidos todos os anos, segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA.

De onde vem a Vibrio?

A Vibrio vulnificus vive naturalmente em água quente, salgada ou salobra. É da mesma família das bactérias que provocam a cólera.

A Vibrio pode ser encontrada nas águas de todo o mundo. Nos EUA, vive no Golfo do México e ao longo de algumas das águas costeiras das costas leste e oeste. A bactéria prolifera nos meses mais quentes, quando as temperaturas do oceano atingem o seu valor máximo.

As infeções podem acontecer quando alguém entra em contacto com água com uma grande quantidade das bactérias ou quando come marisco contaminado.

Qual é o aspeto de uma infeção cutânea?

Um caso ligeiro de vibriose costuma ter como sintomas arrepios, febre, diarreia, dores de estômago e possivelmente vómitos. Normalmente, as pessoas adoecem no primeiro dia de exposição à bactéria.

As feridas cutâneas infetadas com Vibrio vulnificus costumam desenvolver bolhas, abcessos e úlceras.

A Vibrio vulnificus é uma das bactérias que pode causar o que é vulgarmente conhecido como uma infeção que “devora a carne”. A fascite necrosante devora a pele, músculos, nervos, gordura e vasos sanguíneos em redor de uma ferida infetada.

Nos casos mais graves, as pessoas podem desenvolver septicemia. Isto é mais comum nas pessoas com problemas de saúde subjacentes, particularmente doenças hepáticas, cancro, diabetes, VIH ou outras doenças que debilitam o sistema imunitário.

A septicemia ocorre quando a bactéria entra na corrente sanguínea e se propaga. Pode provocar febre, arrepios, tensão arterial baixa ou bolhas na pele.

Isto pode levar a um choque séptico, quando a tensão arterial baixa drasticamente. A bactéria liberta toxinas na corrente sanguínea que podem levar a um extremo abrandamento do fluxo sanguíneo, danificando tecidos e órgãos.

Pode também causar sepses, quando o corpo reage com uma forte resposta imunitária, que para órgãos importantes como o coração ou os rins. Ou pode levar à síndrome da insuficiência respiratória aguda, ou SIRA, uma doença em que o oxigénio dos pulmões não chega ao sangue. Isto pode causar danos cerebrais e lesões pulmonares permanentes.

Se a infeção atingir a corrente sanguínea, as consequências podem ser fatais.

Tipicamente, os estudos mostram que a taxa de mortalidade é de cerca de 25% nos casos de feridas infetadas. Mas é muito mais elevada para as pessoas que são expostas à bactéria através da ingestão de alimentos contaminados.

Vibrio vulnificus provoca fascite necrosante que devora a pele, músculos, nervos, gordura e vasos sanguíneos em redor de uma ferida infetada.

Infeções devido a alimentos contaminados

A maioria das infeções por Vibrio nos EUA não são causadas por uma ferida infetada, mas sim pelo consumo de marisco cru ou mal cozinhado, como as ostras, particularmente nos meses de verão.

A bactéria pode viver na barriga dos peixes, ostras e outros mariscos. As pessoas podem consumir a bactéria ou serem expostas a ela quando preparam marisco cru.

A infeção por Vibrio vulnificus é a principal causa de morte relacionada com o consumo de marisco nos Estados Unidos. A maioria destes casos envolve septicemia primária, ou a presença de bactérias na corrente sanguínea.

Como se trata a infeção por Vibrio?

No caso das infeções de pele, o médico irá primeiro recolher amostras da área infetada, para aferir se é a Vibrio vulnificus que está a causar o problema.

Quaisquer abcessos serão lancetados e procede-se ao tratamento do local infetado, que por vezes passa por cobrir a ferida com um antibiótico tópico e um protetor da pele, além de outros antibióticos. Se houver fascite necrosante, poderá ser necessário recorrer à cirurgia ou até amputar o membro afetado para evitar que a infeção se espalhe.

Os médicos dizem que é importante procurar tratamento rapidamente. Os estudos mostram que as pessoas que procuram cuidados médicos assim que detetam a infeção reagem melhor ao tratamento e as suas infeções são menos suscetíveis de serem fatais.

No entanto, esta bactéria em particular desenvolveu alguma resistência antimicrobiana. Os estudos mostram que cerca de 50% das infeções por Vibrio vulnificus já não reagem a certos antibióticos.

Furacões e a Vibrio vulnificus

Segundo o departamento de saúde, os 28 casos de infeção por Vibrio associados ao furacão Ian no condado de Lee deram-se na sequência da exposição a inundações, cuja água transportou elevadas concentrações desta bactéria para o interior das casas. Algumas pessoas podem ter sido expostas durante a limpeza após a tempestade.

Foram comunicadas seis mortes por infeção por Vibrio no condado de Lee.

Embora estas infeções ainda sejam raras, esta não é a primeira vez que um furacão provocou um pequeno surto de casos. Foi registado um pico após o furacão Katrina em 2005, segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, quando as pessoas também foram expostas à Vibrio vulnificus nas águas das cheias.

Os cientistas receiam que as infeções continuem a aumentar com as alterações climáticas. Os oceanos mais quentes criam um ambiente mais favorável para as bactérias e aumentam a frequência dos furacões e a consequente exposição das pessoas às inundações.

Como prevenir a infeção

A única forma de prevenir a infeção por Vibrio é evitar a exposição.

Se tiver uma ferida na pele, mesmo uma nova tatuagem ou piercing, os médicos sugerem que não tome banhos de mar e evite água salobra, ou pelo menos cubra essa área com ligaduras impermeáveis.

Se for exposto à água salgada, o CCD aconselha a que lave muito bem as mãos e quaisquer cortes com água e sabão depois da exposição.

Se tiver de entrar na água, como acontece no caso das limpezas pós- furacões, use roupas e sapatos que protejam quaisquer cortes ou feridas das águas da inundação.

Também pode reduzir o risco de vibriose, garantindo que cozinha bem o marisco. Evite ostras e outros mariscos crus ou mal cozidos e não se esqueça de lavar as mãos com água e sabão depois de mexer em marisco cru.

No caso dos moluscos cozidos, coma apenas os que abrirem durante a cozedura. Quanto às ostras, o CCD recomenda cozê-las, fritá-las ou grelhá-las durante pelo menos três minutos ou assá-las a 230 ºC durante 10 minutos.

E.U.A.

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