"Viana é amor": a verdade sobre os Zés P'reiras, cabeçudos e gigantones, pela voz de uma criança
Romaria d’Agonia com número inédito de gigantones e bombos
O etnógrafo vianense Amadeu Costa foi um príncipe de Viana do Castelo. Morreu há 27 anos, mas ainda hoje é recordado, como por exemplo nas cartas de jogar da Romaria d’Agonia, grande inovação da edição deste ano. A frase de três palavras, avassaladora pela intensidade, é dele:
Viana é amor.
Nos anos 1990, impôs-se como um poderoso slogan, sete mil vezes repetido, dos programas das festas à mensagem de despedida, exibida na ponte Eiffel, no final da “Serenata”, derradeiro número pirotécnico.
O tempo passou, com os seus diferentes ciclos políticos e comunicacionais. O slogan foi substituído por outros, como o mais recente “Quem gosta, vem. Quem ama, fica”.
Quem disse, contudo, que o tempo não anda para trás? Este sábado, a frase de Amadeu Costa ressuscitou na voz de uma criança que não o pode ter conhecido.
— Afonso, o que te faz tocar bombo?
— Amor — respondeu Afonso Ribeiro, com a cara morena do sol de muitas romarias.
— Amor!? — espantou-se o repórter da TVI e da CNN Portugal.
— Não é só uma brincadeira?
— Não! — ripostou o rapaz de 9 anos, firme como um penedo da Serra de Arga.
O bombo, eterno amigo do homem do Minho
Os grupos de Zés P'reiras firmaram-se nas romarias de Entre Douro e Minho ao longo do século XIX, com caixas de rufo, timbalões, bombos, pífaros e gaitas de fole. A concertina só chegou depois. A função era cerimonial e prática: o estrondo dos bombos anunciava o começo da festa, convocava a freguesia inteira e abria caminho às procissões. Alexandre Herculano já lhes registava o estrépito em 1855.
Emigrantes portugueses levaram os Zés P’reiras para o Rio de Janeiro em 1846. A historiografia brasileira tem-nos como precursores do carnaval de rua carioca. No Rio de Janeiro, o carnaval é hoje um fenómeno à escala mundial, que arrasta multidões. Quem vê a euforia de milhares de locais e forasteiros, de pé nas bancadas repletas da Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, não resiste à metáfora. O sambódromo dos bombos fica em Viana do Castelo.
A dança antiga de gigantones e cabeçudos
Os bombos tornaram-se um número autónomo da festa — e o preferido de muitos vianenses — na Praça da República, coração do centro histórico e postal turístico da cidade. Há dezenas de anos que acordam a cidade muito cedo. A “Alvorada” é o primeiro número de cada dia, antes dos grupos de Zés P’reiras se espalharem pelas ruas.
Regressam, ao meio-dia, para uma espécie de campeonato que os locais levam muito a sério. Para cima de uma centena de homens batem em bombos e tambores de todos os tamanhos, até espantarem o Diabo e as tristezas desta vida. O chafariz quinhentista de João Lopes treme a sério.
O número atrai público até não caber mais ninguém na praça. Em tempos, as varandas dos Antigos Paços do Concelho e da Misericórdia, de 1589, enchiam-se de autoridades e de povo. Inexplicavelmente, agora são deixadas vazias por vereadores e mesários insensíveis à festa.
Esse número vibrante do meio-dia, muitas vezes com o sol a pique, chama-se “Revista de gigantones e cabeçudos”. Este ano, pela primeira vez, também aconteceu na noite de sábado, para gáudio da multidão.
Os gigantones entraram na romaria em 1893, trazidos de Santiago de Compostela. Nasceram dentro da igreja, nas procissões do Corpo de Deus. Quando atravessaram o rio Minho, há muito haviam sido excomungados, por uma ordem régia de 1780, que os acusava de “distrair” e “arrefecer” a devoção. Passaram ao lado profano da festa, a aquecer os corações de crianças e adultos. Como dizia Amadeu e recorda agora Afonso:
Viana é amor.
