Pode o ChatGPT ser a nossa agência de viagens? Há coisas que não dá para automatizar (mesmo estando quase a fazer turismo na Lua)

1 mar, 19:00
Macau (DR)

A inteligência artificial está a mudar as nossas vidas. Uma das áreas em que pode ter impacto é no turismo. Quando usamos o ChatGPT para fazer, em poucos minutos, o nosso pacote de férias, que papel resta para as agências de viagens? Fomos para o outro lado do mundo, para Macau, à procura de respostas. Aqui, Portugal, quer aproveitar a ligação histórica para aceder ao maior mercado emissor de turistas do mundo

Já pensou para onde vai de férias este ano? Com tanto mundo para descobrir, a inteligência artificial pode dar uma ajuda. Três ou quatro pistas ao ChatGPT. E voilà, uma viagem feita à medida, em minutos. Quando conseguimos tratar de tudo praticamente sozinhos, será a morte das agências de viagens?

“As agências de viagem que não utilizarem, que não integrarem a inteligência artificial nos seus processos operacionais, de uma forma estratégica, em vez de terem medo do futuro, vão cair no presente. Não há outra maneira de reagir”, argumenta Pedro Costa Ferreira, presidente APAVT – Associação Portuguesa de Agências Viagens e Turismo.

“O que vemos agora na Europa, por exemplo no meu país, a Holanda, é as pessoas a pedirem ao ChatGPT para lhes fazer um itinerário personalizado. Depois, vão com o mesmo itinerário a uma agência de viagens, perguntar aos agentes de viagens se aquilo é possível, a pedir conselhos. Por isso, não podemos dizer se a agência de viagens desaparecerá à custa da inteligência artificial”, completa Frank Oostdam, presidente da ECTAA - European Travel Agents’ and Tour Operators’ Associations, a federação europeia que reúne as associações nacionais do setor das viagens e turismo na Europa.

A notícia da morte das agências de viagens parece, por isso, exagerada.

Em Macau passam cerca de 100 mil turistas por dia (DR)

Chegar depressa ao outro lado do mundo (onde a confiança se ganha devagar)

É em Macau que a CNN Portugal conversa com estes dois responsáveis, numa pausa entre sessões de um congresso deste setor. Macau já não é Portugal. A terra rouba lugar ao mar, os edifícios rasgam os céus. Casinos enchem-se de chineses a comprovar o lema “um país, dois sistemas”. Há uma urgência no passo. Há uma urgência na ação.

E Portugal quer transformar a sua história ligação a este território numa porta de entrada naquele que é o maior mercado de turistas do planeta. “Com o mercado chinês, temos de ter um bocadinho uma visão de agricultor. Vamos ter de ter ‘fair play' para o crescimento depois de plantarmos a semente”, acautela Pedro Costa Ferreira.

Mas, mesmo que o aperto de mão ainda feche muito negócio, a verdade é que a tecnologia – e, nomeadamente a inteligência artificial – ajuda a reduzir distâncias – e custos.

É o que garante Sérgio Ferreira, consultor da EY e especialista em inteligência artificial: “a grande vantagem está agora em produzir conteúdos para segmentos específicos, inclusive na língua materna desses segmentos. É possível, com estas ferramentas, produzir um vídeo em língua portuguesa e, depois, distribuí-lo em chinês, à distância de um clique. Isso, antes, era muito caro”.

Em Macau, a cada passo que se dá, nota-se o dinheiro a circular. Nota-se o poder de compra a cada loja aberta a ostentar uma marca de luxo. Nota-se, sobretudo, muita fome de mundo. E nada como o exótico – Portugal pode ser exótico – para tomar decisões.

“Se fosse uma agência de viagens portuguesa, se estivesse a trabalhar com o mercado de Macau – e já há quem esteja a fazer isso -, procuraria cooperar com a restante China. É uma região muito interessante. Há Hong Kong e Guangzhou perto”, aponta Frank Oostdam.

China é o maior mercado emissor de turistas do mundo (DR)

Sobrecarga de informação: o humano como “curador”

Há coisas que não dá para automatizar. Nada substitui aquele toque humano, aquela intuição. No mundo das viagens, acreditam aqueles que lá trabalham, também é assim. A tecnologia ajuda, o cliente decide, o agente de viagens adapta-se.

“O ser humano vai ter de ser mais um curador de informação, um curador de tantas referências que vêm da inteligência artificial, para poder produzir melhor e ser mais eficaz”, aponta André Rabanea, especialista em criatividade, fundador da Torke, a primeira agência de marketing de guerrilha de Portugal.

Sérgio Ferreira acrescenta que os agentes do setor terão de se adaptar à tecnologia “para poderem estar mais próximos daquilo que é a expectativa do cliente, proporcionando, por exemplo, através de realidade aumentada, a possibilidade de visitar um destino antes sequer de lá termos ido”.

No que respeita às viagens, talvez a grande mais-valia esteja, a partir de agora, não em vender destinos, mas em descobri-los. São sonhos à medida, quando a tecnologia parece empurrar-nos todos para o mesmo lado.

Alterações climáticas trazem novos desafios ao turismo. Nesta foto, Veneza, após cheias em 2018 (Luigi Constantini/AP Photo)

“Anjos da guarda” num mundo incerto

Há quanto tempo sente que o mundo não lhe dá uma pausa para respirar? São guerras, tensões políticas, catástrofes naturais, acidentes aparatosos. E tome consciência: eles podem acontecer mesmo quando estamos de férias.

Depois da pandemia de covid-19, a nossa vontade de viajar aumentou exponencialmente, como se quiséssemos recuperar o tempo perdido. Só que o mundo que temos para descobrir é uma certeza constante. Daí outro papel que os agentes de viagens podem assumir: o de “anjos da guarda”.

“Temos de ser honestos, há mais insegurança no mundo. Quem viaja quer sentir esse conforto. Por isso, vemos que os pacotes de viagens estão a ganhar popularidade em toda a Europa. Os clientes querem sentir-se seguros, querem ter alguém a quem recorrer. É como se a agência de viagens fosse um anjo da guarda quando vão viajar”, garante Frank Oostdam.

E uma viagem à Lua nos próximos tempos? (Ritchie B. Tongo/EPA via Lusa)

Conhecer a Terra… fora de Terra: 10 anos de distância?

E se a Terra nos parece ter um ambiente pouco recomendável, muitos começam já a pensar para lá dela. E em fazer turismo fora dela. Não se admire se, daqui a uns anos, alguém efetivar a promessa de levá-lo à Lua.

“As primeiras naves da NASA tinham um custo de 50 mil euros por cada quilo que era transportado para o espaço. Com a Starship [de Elon Musk] estamos a reduzir esse custo para menos de 100 dólares. Isto faz com que tudo mude, com que mude o paradigma: vai fazer com que se torne acessível para todos. Essa é a grande oportunidade. Ao tornarmos acessível, como é óbvio, haverá mais pessoas a poder entrar”, argumenta Sérgio Ferreira.

E acrescenta: “acho que o futuro daquilo que é o turismo espacial vai estar disponível no espaço de uma década. O que provavelmente vai acontecer é que não será só uma coisa de bilionários. O cidadão comum vai poder ir a uma agência de viagens e dizer que quer visitar a Lua. Se calhar em 2035 ou 2040 estaremos em Marte a fazer uma viagem”.

Pedro Costa Ferreira não se compromete com datas. “Não sou engenheiro aeroespacial. Mas, quando isso acontecer, vai também haver turismo. Onde há um humano, onde há turismo, há um negócio que se pode desenvolver”, contrapõe.

Até porque há coisas que, por mais que as tenhamos à distância de um ecrã, tem mesmo de ser vistas com os nossos próprios olhos. “A inteligência artificial nunca vai ter a experiência vivida no local”, remata André Rabanea.

Economia

Mais Economia