“As agências de viagem que não integrarem a inteligência artificial, em vez de terem medo do futuro, vão cair no presente”

1 mar, 19:01
Pedro Costa Ferreira (DR)

ENTREVISTA || Pedro Costa Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Agências de Viagens e Turismo (APAVT) fala sobre o “trabalho de formiguinha” que está a ser feito junto da China, o maior mercado emissor do mundo, aproveitando a ligação histórica de Portugal a Macau. E sobre como a inteligência artificial está a redefinir o papel do agente de viagens, não a acabar com ele.

Quando se fala do futuro das agências de viagens, pareceria que o setor está ameaçado pelo desenvolvimento de tecnologia, nomeadamente pela inteligência artificial. Mas não é bem assim, pois não?

Não, não é. Os números de 2024 mostram que a influência económica da distribuição turística é a maior de sempre, ganhando peso no Valor Acrescentado Bruto nacional. Desse ponto de vista, o setor está a trabalhar bem e preparado.

É certo que a inteligência artificial põe em risco tudo o que pensamos sobre o mundo. Há é uma certeza do ponto de vista da estratégia: as agências de viagem que não utilizarem, que não integrarem a inteligência artificial nos seus processos operacionais, de uma forma estratégica, em vez de terem medo do futuro, vão cair no presente. Não há outra maneira de reagir que não seja abarcá-la nos processos.

Neste contexto, qual é que passa a ser o papel do agente de viagens?

Não é a primeira vez que novos suportes tecnológicos aparecem no mercado. O que aprendemos é que, quanto mais tecnologia há, mais importantes são as pessoas. Essa tem sido a grande abordagem dos agentes de viagens. Creio que esta mistura entre a utilização da tecnologia e os recursos humanos, que têm uma formação superior ao padrão nacional, tem sido a chave da nossa resposta.

A inteligência artificial alimenta-se da informação que está disponível. Quando pedimos uma sugestão de viagem, por exemplo ao ChatGPT, há o risco de nos enviar a todos para o mesmo lado. O papel do agente de viagens passará por desconstruir esses fluxos padronizados, encontrando novos destinos e localizações?

Absolutamente. Mas também há uma outra via, a da personalização: a inteligência artificial pode ajudar-nos a enviar pessoas para sítios diferentes, às vezes no mesmo destino. É um tema que o setor tem debatido muito. Há todo um novo mundo que se abre, estamos agora apenas a ver a ponta do véu. Mas que vai desconstruir o atual negócio, criar novos mundos, criar muitas oportunidades de novos negócios, lá isso vai.

Falou em novos mundos. No último Congresso da APAVT em Macau falou-se em viagens à Lua dentro de 10 anos. É possível ou ainda estamos longe?

Não sou engenheiro espacial, mas há uma coisa que eu sei: vai existir vida dos seres humanos para lá da Terra. E, obviamente, quando isso acontecer, vai também haver turismo. Onde há um humano, há um turismo e um negócio que se pode desenvolver.

O último congresso teve lugar em Macau. O mercado asiático é de grande dimensão, com grande poder de compra. Portugal não está a saber aproveitar este mercado?

Os mercados de longo curso são os mais importantes para o turismo português. São aqueles que permitem combater a sazonalidade, termos mais coesão nacional, uma maior receita por turista, dado que tem uma estada média superior.

O mercado chinês cola perfeitamente neste propósito, que devemos prosseguir. O fluxo é que ainda não atinge aquilo que este mercado pode representar, dado ser o primeiro mercado emissor de turistas do mundo.

Por outro lado, creio que, com o mercado chinês, temos de ter aqui um bocadinho uma visão de agricultor. Vamos ter de ter ‘fair play’ para o crescimento depois de plantarmos a semente.

É um pouco isto que estamos a fazer. O Turismo de Portugal e as agências de viagens portuguesas têm feito um trabalho de formiguinha com o mercado chinês. A confiança é algo muito importante neste mercado. Não se estabelece num ano.

E a TAP, não está a fazer este “trabalho de agricultor” na China?

Neste momento, a TAP precisa de chegar à privatização de boa saúde, para poder crescer. Não pode abordar a China sem crescer, sem novos investimentos, sem novos aviões. Se a TAP se mantiver de boa saúde até ao momento da privatização, fez o que tinha de fazer. A privatização trará novos horizontes à TAP e ao turismo português.

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