Amanda viajou dos EUA para ir trabalhar para a China. Uma escala na Europa mudou a sua vida para sempre

CNN , Tamara Hardingham-Gill
22 fev, 15:00
Amanda Meyer Barkley (CNN)

Amanda Meyer Barkley, natural do Louisiana, com o marido, Blake, que conheceu em Praga, e os dois filhos. Cortesia Amanda Barkley

Em 2018, Amanda Meyer Barkley deixou a sua casa no Louisiana para o que seriam umas curtas férias em Praga. Amanda planeava ficar algumas semanas e depois regressar aos Estados Unidos antes de seguir para a China, onde ia trabalhar como professora.

Quase uma década depois, Amanda continua na capital checa – agora com mais de 30 anos, casada e a criar dois filhos pequenos.

Praga, um destino frequentemente chamado de Cidade das Cem Torres, tornou-se a sua casa.

Amanda e o marido passam os verões com os filhos em parques como Letná, Stromovka e Riegrovy Sady, ou no Museu Nacional da Agricultura, situado a poucos passos do seu apartamento. Os muitos dětské koutky da cidade – recantos de recreio infantil escondidos em cafés e espaços públicos – tornam o dia-a-dia com crianças pequenas mais tranquilo, até mesmo fácil.

“É realmente a cidade mais bonita, com tanta história”, descreve Amanda. “Entre a beleza da arquitetura, a cidade em si, todos os parques e espaços ao ar livre, (...). É limpa. É segura. É simplesmente um lugar incrível para se viver. Sinto-me muito sortuda por viver aqui.”

Há oito anos, Amanda jamais imaginaria esta vida. Quando chegou a Praga, em janeiro de 2018, preparava-se para se mudar para a China em trabalho. Tinha-se inscrito num curso presencial de ensino de inglês como língua estrangeira na capital checa, depois de descobrir que precisava de uma certificação para conseguir o emprego na Ásia.

Uma viagem que mudou a vida para sempre

Amanda ficou tão encantada com a cidade que não embarcou no voo de regresso no mês seguinte.

Praga não era novidade para Amanda, que já tinha visitado a cidade pela primeira vez em 2015, durante uma viagem pela Europa, e, apesar de ter admirado os pontos turísticos famosos da cidade – o Castelo de Praga, a Praça da Cidade Velha -, sentiu-se mais atraída por Berlim. "Eu podia viver na Alemanha", pensou, na altura.

Amanda Barkley, nesta fotografia em Praga em 2018, pretendia ficar apenas algumas semanas na cidade, mas decidiu prolongar a estadia. Cortesia Amanda Barkley

De regresso aos Estados Unidos, Amanda trabalhou como professora e continuou a viajar, tendo inclusive viajado durante um ano na Austrália. Quando mais tarde surgiu uma oportunidade de dar aulas na China, Praga pareceu-lhe uma paragem prática – um local para obter a certificação e depois seguir em frente.

Esta escala transformou completamente o rumo da sua vida.

Amanda chegou à cidade apenas com uma mochila às costas e a intenção de se concentrar no seu curso de um mês. Mas as coisas começaram a descambar quando descobriu que, como já tinha um diploma de professora, o emprego na China não exigia mais qualificações.

Inicialmente, Amanda sentiu-se frustrada e chateada por ter gastado dinheiro com a escala em Praga e com o alojamento que pagou para aquela viagem de um mês. No entanto, rapidamente passou a desfrutar da cidade, "convivendo com pessoas simpáticas" da capital checa.

Um ano de mudanças

Amanda e o marido, que também é norte-americano, adoram viver em Praga, mas estão abertos à possibilidade de regressar a casa no futuro. Cortesia Amanda Barkley

“Então, eu meio que mudei de ideias e pensei: ‘O que seria necessário para eu ficar aqui agora?’”, questionou-se.

Poucas semanas depois, Amanda enviou um e-mail a informar que ia desistir do trabalho na China. Depois veio a parte difícil: encontrar um emprego e um lugar para viver numa cidade que ela nunca imaginou que chamaria de lar.

Amanda aceitou vários trabalhos a tempo parcial como professora e bartender antes de conseguir um emprego a tempo inteiro ainda nesse ano. Começar uma nova vida no outro lado do mundo também significava que precisava de comprar roupa nova para “poder usar algo além das seis t-shirts” que tinha levado para a viagem.

As coisas não foram fáceis no início. Como a mudança para Praga não foi planeada, Amanda confessa que não estava preparada para aqueles meses a fazer contas à vida. Tendo em conta que precisava de viajar para os seus vários empregos, mas tinha pouco dinheiro, Amanda tentava gastar o mínimo possível, recorrendo por vezes a uma dieta de ovos e batatas para poupar.

"Esse foi definitivamente o meu período mais difícil, a nível financeiro", confessa.

Mas, socialmente, tudo estava a correr bem. Amanda formou um círculo íntimo de amigos, muitos dos quais conheceu durante o curso de formação de professores. Um deles era Blake, outro americano.

“Fomos apenas amigos durante muito tempo”, começa por contar Amanda. “Mas, cerca de três anos e meio depois, dissemos: ‘Talvez não sejamos apenas amigos’”.

Casaram-se em 2022. Os seus dois filhos - um com um ano e outro com dois - nasceram na República Checa. Hoje, Amanda tem um cartão de funcionário, que é uma autorização de residência de longa duração, válida até dois anos, para cidadãos de países não pertencentes à União Europeia que permaneçam no país por mais de 90 dias em trabalho.

Ao longo dos anos, o casal discutiu a possibilidade de regressar aos Estados Unidos. Para já, optaram por ficar, concluindo que é o melhor para a família.

A família vive num apartamento de dois quartos em Holešovice, um bairro tranquilo a norte do rio. O casal aprecia a facilidade com que pode viajar com os filhos pela Europa. As viagens de carro pela Áustria, Alemanha e Itália tornaram-se parte da vida familiar.

“Estas oportunidades e experiências seriam muito mais difíceis de lhes proporcionar se vivêssemos noutra parte do mundo”, comenta Amanda.

Viver em Praga exigiu adaptação cultural. Amanda, que partilha a sua vida na cidade na sua conta de Instagram, diz que aprendeu rapidamente a deixar de lado o seu “sorriso americano”. Os checos “não fazem isso de todo”, comenta, acrescentando que, para onde quer que olhe, só recebe “olhares vazios”.

“Agora já estou muito habituada, mas sou do sul dos Estados Unidos, onde toda a gente sorri e conversa com toda a gente”, diz, acrescentando que agora tem de se lembrar de sorrir para as pessoas quando visita os Estados Unidos.

“Diria que os checos, em geral, são muito mais reservados do que as pessoas de muitas outras partes do mundo ocidental”, observa Amanda, sublinhando que os considera “genuinamente muito calorosos, gentis e generosos”, mesmo que esse calor demore a revelar-se.

A adaptação cultural

A família de Amanda passeia por Praga num dia de neve. Cortesia de Amanda Barkley

 Apesar de terem feito alguns amigos checos, a maioria dos amigos do casal é estrangeira, uma realidade que Amanda atribui em parte à barreira linguística e em parte ao facto de trabalhar sobretudo em ambientes de língua inglesa. Amanda tem aulas de checo "de vez em quando" e diz que "consegue desenrascar-se", embora as tarefas burocráticas continuem a ser um desafio.

Uma das diferenças mais significativas, segundo a própria, tem sido a forma como o país olha para a vida familiar.

Na República Checa, as mães têm direito a 28 semanas de licença de maternidade remunerada, podendo prolongar essa licença até três anos com o consentimento do empregador. Amanda está de licença de maternidade desde 2023 e planeia regressar ao ensino no final de 2026.

“Tem sido incrível poder ficar em casa com as crianças”, admite. “Ter a opção de ficar em casa com elas durante uns tempos. Quando me mudei para cá, era solteira. Tinha vinte e poucos anos e nem sequer pensava nisso.”

“Portanto, o simples facto de ter vindo parar a este lugar que nos deu a oportunidade de estarmos presentes em grande parte da infância dos nossos filhos é realmente maravilhoso”, confessa.

Amanda nota que o ritmo de vida é diferente em Praga – menos impulsionado pelo que chama de “cultura da correria” americana.

“Tenho a certeza de que há pessoas que se sentem assim. Mas sinto que o foco aqui é mais nas pessoas, nas famílias e em aproveitar a vida.”

Segundo Amanda, tudo parece “um pouco mais minimalista” na República Checa, e isso, diz, “acaba por se refletir em várias áreas da vida”.

A educação dos filhos também parece diferente. Ali, há uma abordagem mais liberal, que promove a independência e a confiança nas crianças - incluindo crianças que viajam sozinhas nos transportes públicos desde pequenas. Como professora, Amanda também reparou que em Praga há mais respeito pelos educadores.

Embora adore viver em Praga, Amanda ainda sente a atração dos Estados Unidos, que se intensifica com o passar do tempo.

“Estar tão longe da família já era difícil, mas é um nível de dificuldade diferente quando se tem filhos”, admite. “E estão a crescer e a mudar tão rápido.”

Após uma recente visita na altura do Natal, Amanda confessa que ver os seus filhos com os avós e primos levantou algumas dúvidas - que suspeita que desaparecerão com o regresso do tempo quente. “Nunca vou sair de Praga, porque este lugar é incrível”, imagina-se a dizer daqui a uns meses.

Por vezes, Amanda ainda se pergunta o que teria acontecido se tivesse embarcado naquele voo para a China.

"É incrível como a vida pode mudar", diz. "E, para ser sincera, acho que não teria durado muito tempo na China. Talvez acabasse por vir parar aqui."

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