E uma quarta pessoa, viúva, junta-se às outras três para fazer algo muito raro na história da humanidade. E começam a fazê-lo pelas 23:24 desta quarta-feira
10, 9, 8, 7... Depois de semanas de atrasos, a NASA está em contagem decrescente para o lançamento da Artemis II, a primeira missão tripulada a orbitar a Lua em mais de 50 anos. O lançamento está marcado para as 18:24 ET (23:24, hora de Portugal Continental) desta quarta-feira. Apenas 24 astronautas já sobrevoaram a Lua. No final desta missão serão mais quatro
Reid Wiseman, comandante
Antes de ser astronauta, Reid Wiseman, nascido em Baltimore, Maryland, foi piloto de testes da Marinha dos EUA. Há 16 anos começou a sua aventura espacial. Passou seis meses na Estação Espacial Internacional em 2014 como engenheiro de voo na Expedição 40. Agora, aos 50 anos, vai ser o comandante da Artemis II naquele que é o segundo voo da nave espacial Orion e o primeiro a transportar pessoas à volta da Lua em mais de 50 anos.
Wiseman ficou viúvo em 2020 e criou sozinho as duas filhas então adolescentes. Esse foi o "maior desafio e a fase mais gratificante" da sua vida. Pelo menos até agora.
Como objeto pessoal que a NASA permite que os astronautas levem consigo, Wiseman planeia levar um pequeno bloco de notas para poder anotar os seus pensamentos durante a missão.
Christina Koch, especialista
Christina Koch, de 47 anos, é uma engenheira e física que se tornou astronauta em 2013 e estabeleceu o recorde do voo espacial mais longo efetuado por uma mulher, passando 328 dias a bordo da Estação Espacial Internacional em 2019. Durante essa missão participou também no primeiro passeio espacial só de mulheres. Nascida em Grand Rapids, Michigan, e criada na Carolina do Norte, vai tornar-se a primeira mulher a sobrevoar a Lua.
Para o seu objeto pessoal, a especialista Koch esteve a recolher notas manuscritas de pessoas que lhe são próximas para poder ter uma "ligação tátil" com as pessoas que ficam na Terra.
Jeremy Hansen, especialista
Antigo piloto de caça da Força Aérea Real Canadiana e físico, Jeremy Hansen entrou para a Agência Espacial Canadiana em 2009. Embora nunca tenha voado no espaço, desempenhou um papel fundamental na formação de novos astronautas no Centro Espacial Johnson da Nasa.
O especialista Hansen, de 50 anos, será o primeiro não-americano a sobrevoar a Lua. "As missões Artemis estabeleceram um objetivo tão ambicioso para a humanidade que as nações de todo o mundo estão a unir-se", comenta.
Na sua bagagem levará quatro pingentes em forma de lua - representando a mulher e os três filhos - gravados com a frase "Moon and back" e cravejados com as suas pedras de nascimento. O canadiano também levará xarope de ácer e biscoitos de ácer na sua viagem lunar.
Victor J. Glover, piloto
Antigo piloto de caça e de testes da Marinha dos EUA, Victor J. Glover foi selecionado como astronauta da NASA em 2013. Foi piloto da missão Crew 1 da SpaceX da Nasa e passou quase seis meses na Estação Espacial Internacional como parte da Expedição 64.
Nascido em Pomona, na Califórnia, Glover, de 49 anos, vai ser o primeiro negro a viajar ate à Lua. O seu nome de código, "IKE", é a abreviatura de "I Know Everything" (Eu sei tudo), uma alusão aos seus três mestrados em engenharia de ensaios de voo, engenharia de sistemas e arte e ciência operacional militar.
"O facto de nos esforçarmos por explorar é fundamental para quem somos", afirma o piloto desta missão. "Faz parte do ser humano. Saímos para explorar, para perceber onde estamos, porque estamos, para compreender as grandes questões sobre o nosso lugar no universo."
Glover disse que levará consigo uma Bíblia, as suas alianças de casamento e heranças de família, bem como uma coleção de citações inspiradoras compiladas pelo astronauta da Apollo 9, Rusty Schweickart.
Num vídeo da NASA, cada um dos astronautas resume a missão numa única frase. "Estamos prontos", diz Koch; "Estamos a ir", acrescenta Hansen; "Para a Lua", diz Glover. Wiseman completa a frase: "Por toda a humanidade!"
Tudo a postos para o lançamento
Um possível lançamento da Artemis II em fevereiro foi cancelado depois de um teste geral dos sistemas ter sido interrompido devido a uma fuga de hidrogénio, que serve como combustível do foguetão Space Launch System, de 98 metros. Um lançamento em março também foi suspenso após a descoberta de uma fuga de hélio. Depois de resolvidos os problemas técnicos, houve que esperar até que a Lua estivesse na posição correta da sua órbita, o que acontece aproximadamente durante uma semana no início de cada mês. Isto significa que se houver algum contratempo, o lançamento poderá ser adiado para um outro dia desta semana.
Os astronautas passarão 10 dias confinados numa nave espacial do tamanho de um mini-autocarro. Para se habituarem a viver num espaço tão confinado, a tripulação tem passado o máximo de tempo possível na companhia uns dos outros. Houve até algumas pernoitas na nave Artemis. Na cápsula existe um sistema de treino físico - com um cabo que os astronautas deverão puxar durante 30 minutos todo os dias para fazerem treino cardiovascular e de resistência. A minúscula casa de banho fica sob o piso.
A nave Orion CM-003, batizada como Integrity pela tripulação, será lançada a bordo do foguetão Space Launch System (SLS). No primeiro dia da missão, os astronautas vão orbitar a Terra a grande altitude. Nesse período, vão habituar-se à ausência de gravidade e verificar os sistemas de suporte de vida da nave espacial.
Cerca de três horas após o lançamento, a parte superior do foguetão – denominada Estágio de Propulsão Criogénica Interina (ICPS) – irá separar-se da sonda Orion. A tripulação pilotará então a Orion manualmente, aproximando-se e afastando-se do ICPS, para observar o comportamento da Orion. É uma oportunidade para praticar a acoplagem em futuras missões.
Se algum problema for detetado, este é o momento para regressar à Terra. Senão, a Orion aciona o motor principal para escapar à gravidade da Terra e traçar a trajetória em direção à Lua.
Se não vão pisar a Lua, o que vão os astronautas fazer?
A missão Artemis II serve para testar vários sistemas, como os suportes de vida dos astronautas, tanto em órbita da Terra como da Lua.
Durante a viagem, os astronautas serão avaliados e monitorizados. É uma oportunidade para usar a tripulação como cobaias – as experiências a bordo revelarão como os seus corpos são afetados tão longe no espaço. Por exemplo, terão um dosímetro para medir a quantidade de radiação solar a que estão expostos. Também vão treinar o uso do abrigo contra radiação, que fica sob o piso da nave espacial e deve ser usado caso seja detetada uma tempestade solar.
Os astronautas vão treinar como vestir rapidamente os seus fatos espaciais - chamados Sistema de Sobrevivência da Tripulação Orion (OCSS). Estes fatos são utilizados para proteger a tripulação em caso de emergência, durante o lançamento e a reentrada na atmosfera e também atuam como proteção vital caso haja algum problema com a cápsula. O fato é como uma mininave espacial vestível, pressurizada e com sistemas de suporte de vida integrados. São concebidos para mantê-los vivos até seis dias.
A tripulação participará ainda em testes para estudar o seu equilíbrio e desempenho muscular, alterações no seu microbioma, bem como a saúde dos olhos e do cérebro. Serão também obtidas amostras de saliva antes, durante e depois da missão para analisar os seus sistemas imunitários, que podem ficar enfraquecidos no espaço.
Action. Wonder. Adventure. Artemis II has got it all. Don't miss the moment. Our crewed Moon mission will launch as early as April 1.
— NASA (@NASA) March 30, 2026
Learn how to watch: https://t.co/fAg0bGAqEc pic.twitter.com/2uhg8EhwTv
Ao quinto dia, finalmente estarão perto da Lua. A Orion vai percorrer 965 mil quilómetros à volta do planeta, sobrevoando o lado oculto da Lua - o lado que não conseguimos ver da Terra - a uma distância entre 6.500 e 9.500 km da superfície lunar. A tripulação terá três horas dedicadas à observação lunar: para observar, tirar fotografias e saber mais sobre a sua geologia, o que ajudará no planeamento e preparação de uma futura aterragem.
Enquanto os astronautas sobrevoam a Lua, perderão a comunicação com a Terra por um período entre 30 e 50 minutos.
Ao contrário das missões Apollo da NASA das décadas de 1960 e 1970, a Artemis II não entrará em órbita em torno da Lua; em vez disso, realizará um sobrevoo que fará com que a sonda viaje mais longe do que a órbita lunar. No seu ponto mais distante da Terra, ou apogeu, a Integrity estará a aproximadamente 7.600 km da Terra e a tripulação estabelecerá o recorde da maior distância alguma vez percorrida por humanos em relação ao nosso planeta (para se ter um termo de comparação, a Estação Espacial Internacional fica a 400 quilómetros da Terra).
Depois da Artemis II, seguem-se a III, a IV e a V
O regresso demorará mais quatro dias. Para esta manobra final, o módulo da tripulação irá separar-se do resto da nave espacial e a cápsula irá rodar para que o seu escudo térmico suporte o impacto das altas temperaturas geradas na reentrada e mantenha os astronautas em segurança. A nave espacial atravessará a atmosfera terrestre a 40.000 km/h.
Assim que a nave espacial atravessar a atmosfera em segurança, serão acionados vários paraquedas para abrandá-la. Os astronautas farão uma aterragem suave no Oceano Pacífico, na costa da Califórnia, onde uma equipa de resgate estará à sua espera.
Mas este é apenas o início das missões Artemis. Em meados de 2027, a Artemis III vai testar as manobras de acoplamento em órbita baixa da Terra com os veículos da SpaceX e da Blue Origin, assim como o novo fato espacial para saídas da nave espacial. A quarta missão Artemis, programada para o início de 2028, será o regresso da Humanidade à superfície lunar desde dezembro de 1972. A missão seguinte, Artemis V, está planeada para o fim de 2028 e deverá servir para começar a construção da base lunar da NASA.