Medicina veterinária “é a profissão que tem a maior taxa de suicídio” em Portugal

21 mai 2023, 22:00
Cão no verão (Getty Images)

Palavras são do bastonário da Ordem dos Veterinários e os dados comprovam isso mesmo. Um dos primeiros estudos realizados no país, a que a CNN Portugal teve acesso em primeira mão, revela valores preocupantes

Médicos veterinários, enfermeiros e auxiliares. Stress, burnout, comportamentos e pensamentos suicidas. A CNN Portugal teve acesso, em primeira mão, aos dados preliminares de um dos primeiros estudos realizados no país. Um dos dados mais preocupantes deste trabalho, que ainda será divulgado numa revista da especialidade, está nos valores de comportamentos e pensamentos suicidas. Por isso mesmo, Jorge Cid, bastonário da Ordem dos Veterinários, assume que “é a profissão que tem uma maior taxa de suicídio”.

“A saúde mental nos profissionais de veterinária em Portugal” é um trabalho desenvolvido pelas psicólogas Maria Manuela Peixoto e Olga Cunha, do Centro de Psicologia da Universidade do Porto e Universidade Lusófona do Porto, respetivamente.

“Dos dados que temos haverá, possivelmente, na área médica mais de 10% de burnout”, acrescenta Jorge Cid, sendo que o burnout já é uma situação extrema. As evidências científicas levaram mesmo a Ordem dos Veterinários a agir e a criar um plano de apoio psicológico para os seus membros, totalmente financiado pela instituição. “Vai ser ainda lançado este mês. Faltam só uns pormenores de operacionalização. Este mês ainda devemos mandar para todos os nossos membros dados concretos”, esclarece o bastonário em declarações à CNN Portugal.

Neste estudo, o objetivo era investigar os níveis de stress, comportamentos suicidas, burnout e fadiga por compaixão nas profissões ligadas à área veterinária. E as conclusões apontam para elevados problemas de saúde mental.

Mais de metade dos inquiridos reconheceu a existência de ansiedade, depressão e sintomas de stress, com mais de 25% de cada grupo apresentando sintomatologia grave.

O nível de comportamentos suicidas e pensamentos suicida são motivo de preocupação, admitem as autoras no decorrer da investigação. Mais de 25% relataram automutilação regular e mais de 15% assumem pensamentos suicidas de forma significativa.

Ao nível de fadiga por compaixão e burnout também foram indicados por 5% de cada grupo.

Peixoto, M. & Cruz, O. (2023). Mental Health in Veterinary Professionals in Portugal. Poster apresentado no IV Congresso Internacional do CINEICC. 30 de março de 2023, Coimbra, Portugal.

Estes dados são consistentes com outros estudos realizados em países na Europa e na América do Norte e que sempre indicaram que os problemas de saúde mental são comuns entre os profissionais da veterinária.

Em 2021, o VetsSurvey já concluía que Portugal era o país do mundo com o maior nível de stress registado na área veterinária, atingindo cerca de 87% dos profissionais. 

Já antes, um estudo do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) realizado entre 1979 e 2015 nos Estados Unidos, indicou que a taxa de suicídio era 3,5 vezes mais alta entre médicos veterinários do que entre o resto da população. Este foi um trabalho que durou três décadas e contou com uma amostra de 11.620 profissionais.

"O lidar todos os dias com a morte também é sempre muito doloroso, marca"

E os motivos para números tão avassaladores são vários. "Isto tem várias explicações, cada um dá as suas, mas diria também da minha experiência pessoal... o facto de se ter de lidar frequentemente com a eutanásia é já um fator", afirma à CNN Portugal Jorge Cid. Mas há mais que a eutanásia, a morte também acontece de outras formas e o lado emocional é uma pressão constante: "O lidar todos os dias com a morte também é sempre muito doloroso, marca. Sobretudo aqueles animais a que estamos muito ligados e que conhecemos a vida toda", assume.

Há outro aspeto importante que "é a pressão que os donos fazem sobre os veterinários" e que ultrapassa o aceitável já que existem "várias situações de violência verbal e não só", confessa o bastonário. Os veterinários são alvo da fúria de alguns clientes "nas redes sociais". "Temos casos que acompanhamos que são enviados para tribunal. Casos de difamações" em que as clínicas e os médicos são acusados de "só querem ganhar dinheiro". Mas o pior são as "ameaças à família, aos filhos, a tudo. Coisas bastante graves". Seja por falta de dinheiro para os tratamentos ou por ligações extremas aos animais.

E isto é algo que Jorge Cid já sentiu na pele. "Lembro-me de uma cliente me dizer que se o cão morrer, mato-o. Isto causa uma pressão brutal".

Há também quem não tenha ninguém e aí também é duro quando nada podem fazer: "Temos casos muito graves, pessoas que a única companhia que têm é aquele animal, pessoas que estão numa grande fragilidade psicológica e nós estamos a ver que o animal é o único amparo que têm".

O lado monetário tem um grande peso na reação dos donos dos animais. "A medicina veterinária é muito cara", assume Jorge Cid. "Mas é cara para nós, portanto, todos os medicamentos, todos os equipamentos, é tudo mais caro que a medicina humana e depois ainda pagamos 23% ao Estado". Já houve várias reuniões com o Governo sobre o assunto, mas "a resposta que nos dão é que até concordam connosco", no entanto, "o Governo não tem condições para baixar impostos".

Tal como o excesso de trabalho também pesa e muitos "acham que o médico veterinário não tem que ter família, fins de semana, férias".

A lista poderia continuar, mas há um outro ponto que para o bastonário "não pode ser colocado completamente de lado" nestes dados impressionantes e que é "um acesso mais fácil a drogas que podem matar". 

As autoras do estudo defendem que "as associações ligadas à área devem prestar mais atenção à saúde mental dos profissionais e promoverem medidas concretas, encorajando o recurso à ajuda psicológica para reduzir os níveis de stress".

Alertam ainda que há "algumas limitações que devem ser observadas ao interpretar e generalizar os resultados atuais. Este estudo é baseado numa amostra de conveniência, e a maioria dos participantes trabalha com animais de pequeno porte", por isso consideram que "estudos futuros devem considerar a expansão para incluir a equipes veterinárias a trabalhar noutros contextos".

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