Vestígios mais antigos de peste revelam impacto mortal da doença há 5.500 anos

CNN , Ashley Strickland
11 jul, 17:00
ADN da peste foi recuperado de um jovem e de uma rapariga encontrados na mesma sepultura na Sibéria. (Vladimiri Bazaliiskii)
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A peste é causada pela bactéria Yersinia pestis e esteve na origem de alguns dos surtos mais devastadores da história humana, incluindo a Peste Negra no século XIV

O ADN antigo recuperado de cemitérios no sudeste da Sibéria revelou estirpes de peste anteriormente desconhecidas que tiveram um impacto mortal num grupo inesperado de pessoas há 5.500 anos. As primeiras estirpes da doença, detalhadas num novo estudo publicado na revista Nature, podem ser a prova mais antiga conhecida da peste em seres humanos.

A peste é causada pela bactéria Yersinia pestis e esteve na origem de alguns dos surtos mais devastadores da história humana, incluindo a Peste Negra no século XIV, que matou cerca de 25 milhões de pessoas ao longo de cinco anos. Antes da descoberta desta nova estirpe, algumas das variantes mais antigas conhecidas da bactéria associadas à peste bubónica tinham sido datadas de há cerca de 3.800 anos.

Anteriormente, as estirpes mais velhas pareciam não ter as características genéticas que lhes permitiam espalhar-se, o que levava os cientistas a pensar que as primeiras formas de peste dificilmente causariam surtos. Com poucas provas de outros precursores letais da doença, os investigadores questionavam quando e onde a bactéria teria tido origem antes de passar de animais de pecuária primitivos, como as ovelhas, e de pulgas infetadas para os humanos.

A estirpe recém-descoberta pareceu mudar o rumo da história quase de imediato. Os investigadores depararam-se com ela enquanto tentavam resolver outro enigma nos restos mortais de caçadores-retores sepultados em cemitérios na região do Lago Baikal. Dois dos maiores cemitérios continham um número invulgarmente elevado de crianças e jovens cujos esqueletos não apresentavam traumas ou causas aparentes de morte.

A análise do ADN antigo revelou a presença inesperada da bactéria da peste em 18 de 46 indivíduos destas pequenas comunidades nómadas, bem como um fator genético que poderá ter aumentado a gravidade da infeção. As descobertas reforçam os indícios sobre o provável local de origem da peste e desafiam as ideias estabelecidas sobre a forma como a doença se propagava.

"Os caçadores-retores deslocavam-se constantemente pelo território", referiu o autor principal do estudo, Ruairidh Macleod, investigador na Universidade de Oxford, no Reino Unido, durante uma conferência de imprensa sobre os resultados. "A teoria corrente indica que as doenças infeciosas não se conseguem fixar e devastar comunidades inteiras desta forma. Normalmente, se alguém adoece, muda-se para outro local. O facto de encontrarmos isto a acontecer num grupo isolado de caçadores-retores pré-históricos desafia essa teoria epidemiológica."

A ilustração de um artista mostra os caçadores-recolectores do Lago Baikal a enterrar as vítimas da peste há 5.500 anos. (Kelvin Wilson)

Um surto inesperado

Os arqueólogos escavam os quatro antigos cemitérios em redor do Lago Baikal há décadas. A região era rica em recursos, incluindo águas para a pesca, e os cemitérios mostram que os caçadores-retores enterraram ali os seus mortos durante gerações, talvez para reivindicar o território, explicou Macleod.

Os autores do estudo combinaram a sequenciação avançada de ADN, investigação arqueológica aprofundada e datação por radiocarbono para traçar o cenário completo do que aconteceu na região há milhares de anos. "Havia provas muito claras de radiocarbono de que este evento de mortalidade em massa ocorreu num período de tempo muito, muito curto", apontou Macleod, "pelo que todas estas mortes aconteceram em simultâneo".

A investigação genética esclareceu o parentesco entre as crianças e os adultos sepultados. Em alguns casos, irmãos, pais e filhos foram enterrados juntos, o que sugere que a doença passou de um membro da família para outro enquanto cuidavam uns dos outros — e revela uma falta de compreensão sobre a forma como a infeção se propagava, afirmou o coautor do estudo Eske Willerslev, geneticista evolutivo e professor na Universidade de Copenhaga, na Dinamarca, e na Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Outros túmulos mostravam familiares sepultados separadamente, presume-se que por terem morrido durante diferentes vagas da doença. O estudo aponta para a ocorrência de dois surtos na região com uma diferença de algumas centenas de anos.

"Os autores conseguiram detetar infeções por Y. pestis numa taxa provável de 39% nos cemitérios investigados. Isto é incrivelmente elevado e tem certamente o potencial para reescrever a nossa compreensão sobre as primeiras infeções do patógeno", afirmou Ian Light-Maka, investigador de pós-doutoramento no Instituto Max Planck de Biologia de Infeções, em Berlim.

"A investigação anterior apenas tinha encontrado o que pareciam ser infeções esporádicas e relativamente isoladas das versões mais antigas da Y. pestis, sem provas convincentes de cadeias de transmissão entre humanos, mas os dados disponíveis podiam ser simplesmente demasiado incompletos para avaliar essa possibilidade. Este estudo muda isso."

Light-Maka, que não esteve envolvido no estudo, também alertou que, embora a transmissão entre humanos fosse provável, são necessárias mais investigações em diferentes locais do mesmo período para o confirmar.

ADN antigo extraído do molar de uma mulher adulta revelou vestígios de peste. (Angela Lieverse)

O superantigénio

Os investigadores conseguiram extrair genomas bacterianos antigos a partir de dentes, os quais sugerem que esta estirpe única de peste teve origem há 5.700 anos. É diferente de todas as outras estirpes conhecidas, tanto antigas como modernas, indicaram os especialistas.

Os genomas também revelaram um superantigénio exclusivo — uma toxina microbiana que pode aumentar a gravidade de uma infeção e ativar respostas imunitárias extremas —, que parece ter afetado predominantemente crianças entre os sete anos e meio e os 11 anos.

"Um exemplo realmente pungente é o deste túmulo onde vemos três raparigas muito jovens que terão morrido ao mesmo tempo", relatou Macleod. "Isto teve claramente um impacto muito trágico nas crianças, em particular, nestas comunidades." As raparigas eram primas e duas eram irmãs, sendo que a mais nova teria quatro ou cinco anos e a mais velha cerca de nove anos.

"Esta descoberta altera a nossa compreensão dos primeiros surtos de peste: mesmo antes de a bactéria desenvolver uma transmissão eficiente através das pulgas, estas estirpes antigas parecem ter carregado uma combinação potente de fatores de virulência que podiam tornar a infeção altamente letal", afirmou o autor sénior do estudo, Martin Sikora, geneticista de populações e professor associado na Universidade de Copenhaga.

O superantigénio também está presente na moderna Yersinia pseudotuberculosis, uma infeção que ocorre naturalmente em animais. Os seres humanos podem contraí-la ao consumir alimentos contaminados crus ou mal cozinhados, ou água não tratada, uma ligação que também pode oferecer pistas sobre a primeira forma de transmissão da peste.

Rastrear a propagação da peste

Como é que os caçadores-retores foram infetados originalmente? Terá sido através de grandes roedores chamados marmotas, determinaram os autores do estudo, que têm um longo historial evolutivo como portadores da bactéria que causa a peste. As marmotas continuam a ser uma espécie abundante na região e ainda hoje podem causar casos da doença.

As vítimas da peste provavelmente caçavam, esfolavam e cortavam as marmotas para obter carne e pele, o que teria exposto os membros da comunidade à bactéria, explicou Macleod. Nos túmulos também foram encontrados pingentes feitos com dentes de marmota.

"Acreditamos que as marmotas são a espécie reservatório mais antiga da peste", afirmou Macleod. "Isto é consistente com a hipótese de que a peste teve origem nesta parte do mundo."

Alguns investigadores defendem que a doença surgiu na Ásia Central ou no Nordeste da Ásia antes de se espalhar pela Eurásia — muito antes do aparecimento da agricultura, de populações densas ou de cidades sobrelotadas associadas a surtos posteriores, referiram os autores do estudo.

Uma das sepulturas partilhadas incluía duas meias-irmãs jovens e um rapaz adolescente. (Vladimiri Bazaliiskii)

"Esta investigação ilustra a enorme complexidade da ecologia da peste antiga, mostrando em detalhe como as doenças zoonóticas devastaram mais do que as culturas agrícolas", afirmou Taylor Hermes, professor assistente no departamento de antropologia da Universidade do Arkansas. Hermes já investigou a transmissão da peste antiga na Ásia Central, mas não esteve envolvido neste estudo.

"Isto reflete a forma como outros modos de vida, sejam caçadores-retores ou pastores nómadas, desempenharam papéis importantes na evolução das doenças através das suas relações vitais, mas por vezes mortais, com os animais", escreveu Hermes numa mensagem de correio eletrónico.

No entanto, persistem muitos mistérios sobre a peste, incluindo a forma como se espalhou tão rapidamente pelo norte da Eurásia.

"Após o surto nos caçadores-retores do Baikal, que estavam cultural e geneticamente isolados de populações não caçadoras-retoras, a doença surge no norte da Europa apenas 200 a 300 anos mais tarde", escreveu Macleod. "Terá isto acontecido por uma transmissão muito rápida através de animais selvagens, a partir de infeções que passaram para os humanos em ambas as extremidades? Até que ponto esteve envolvida a transmissão entre humanos?"

Rastrear o caminho antigo da peste é crucial para compreender como os patógenos evoluem ao longo do tempo — especialmente sabendo que ainda ocorrem casos de peste todos os anos, concluiu Willerslev.

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