Porque é que as noivas usam véu?

CNN , Leah Dolan
23 ago 2025, 11:00
Noivas

É um dos elementos mais antigos que compõe o traje nupcial feminino, usado pelo menos desde a Grécia Antiga. Os véus permaneceram amplamente como um acessório essencial, mesmo para as noivas mais modernas e subversivas.

Quando a cantora Lily Allen se casou com o ator David Harbour numa capela de Las Vegas inspirada em Elvis, em 2020, dispensou um vestido comprido e rendado. Em vez disso, preferiu um vestido curto estilo anos 60 da Dior - mas ainda assim usou um véu tradicional em camadas no penteado. E quando a cantora Gwen Stefani escolheu um vestido de noiva arrojado (também Dior, desenhado por John Galliano para o seu casamento em 2002), tingido de rosa choque; o véu esvoaçante continuava lá.

Lauren Bezos Sanchez tornou-se a mais recente noiva da alta sociedade a completar o seu visual com um véu na cabeça, durante o seu luxuoso e surpreendente casamento em Veneza. O seu vestido personalizado em formato sereia da Dolce & Gabbana ficou completo com um véu em cascata com acabamento em renda que lhe assentou “como uma coroa”, segundo a Vogue.

Uma história antiga

No seu casamento em 1840, a Rainha Vitória trocou o seu manto de veludo por um vestido de seda branco - com um decote largo, quase caído nos ombros, decorado com renda. No dia em que se casou com o Príncipe Alberto, não era a monarca britânica, mas uma noiva apaixonada vestida do mais puro marfim para simbolizar a sua virtude. (O arcebispo perguntou se Sua Majestade gostaria de retirar a palavra “obedecer” dos votos. Ela insistiu que permanecesse.) Mesmo que apenas por algumas horas, estava a desempenhar um papel diferente e a usar um traje diferente: ambos perdurariam por bem mais de um século.

Apenas recentemente alguns dos aspetos tradicionais da indumentária nupcial popularizados por Vitória começaram a ser atualizados para os tempos modernos. As bainhas estão cada vez mais curtas, com os vestidos mini a reinarem na era das cerimónias mais intimistas; enquanto algumas noivas dispensaram o vestido por completo - desfilando pelo altar com fatos de alfaiataria. Um número crescente de noivas, como a cantora e atriz Mandy Moore no seu casamento em 2018, dispensaram o branco (ela escolheu um vestido em tom rosa empoeirado da Rodarte). Ainda assim, apesar destas reformas contemporâneas, um acessório estabelecido há muito tempo demonstrou maior resistência do que os restantes: o véu.

Paris Hilton usou um vestido de noiva Oscar de la Renta no seu casamento em 2021, complementado com um véu em estilo catedral (Todd Williamson/Peacock/NBCUniversal/Getty Images)

Na verdade, os véus parecem ter aumentado de tamanho nos últimos anos - por vezes chamando mais a atenção do que o próprio vestido. Em 2018, a atriz Priyanka Chopra encheu manchetes com o seu vestido de noiva Ralph Lauren e o seu véu de cerca de 23 metros de tule (e cinco pessoas para o segurar). No ano seguinte, Hailey Baldwin (agora Hailey Bieber) casou-se com Justin Bieber com um enorme véu de noiva com as palavras “‘Till Death do us Part” (“Até que a morte nos separe”) bordadas na bainha do tecido.

Desde então, rios grandiosos de tule têm desfilado em casamentos de celebridades como correntes de água rápida: de Sophia Richie a Paris Hilton, Naomi Biden, Nicola Peltz Beckham e Millie Bobby Brown. “O véu tornou-se uma tela que realmente proporciona o drama que talvez não se obtenha com um vestido mais minimalista", considera Kimberly Chrisman-Campbell, autora de The Way We Wed: A Global History of Wedding Fashion, em declarações à CNN.

Um regresso à moda

Anteriormente, véus grandiosos - ou de comprimento notável - estavam reservados aos casamentos reais. Em 1981, a Princesa Diana usou o maior véu da história da monarquia, com uns impressionantes sete metros. Foi bordado à mão com dez mil micro-pérolas pela costureira londrina Peggy Umpleby, que levava o véu para casa em transportes públicos todos os dias para continuar a trabalhar nele pela noite dentro. Meghan, Duquesa de Sussex, seguiu o exemplo em 2018 com um véu de quatro metros em tule de seda, bordado à mão com flores dos países da Commonwealth.

O uso do véu até ultrapassou os altares e chegou às passarelas. Nesta temporada da Paris Fashion Week, Andreas Kronthaler, diretor criativo da Vivienne Westwood, apresentou véus de tule preto e branco na passerelle, contrastando com vestidos às bolas e azul-marinho, respetivamente. Nos desfiles de Londres, o designer turco Bora Aksu foi mais longe, oferecendo véus em rede vermelha e rosa-blush. Mesmo nos Grammys deste ano, a musicista Gracie Abrams usou um véu de chiffon da Chanel na passadeira vermelha da cerimónia.

Nos desfiles outono-inverno da London Fashion Week 2025, o designer turco Bora Aksu apresentou véus coloridos na passerelle. (Stuart C. Wilson/Getty Images)
Nos desfiles de Paris em março, Vivienne Westwood incluiu véus atados e torcidos como toques finais nos visuais da passerelle. (Pascal Le Segretain/Getty Images)

Mas segundo Chrisman-Campbell, os véus estão simplesmente a regressar à moda - e não a serem adotados por ela. Historicamente, os véus na cultura ocidental começaram como “uma moda para os ricos”, explica. As classes altas usavam rendas feitas à mão, que no final do século XVIII valiam mais do que o seu peso em ouro. (Segundo o Smithsonian American Women’s History Museum, um metro de renda levava um ano a ser produzido por um trabalhador especializado no século XVIII.) “Usar renda, fosse num folho, num véu ou numa touca, era um símbolo de status", explica Chrisman-Campbell. No início do século XIX, a industrialização introduziu a renda feita à máquina, tornando o tecido mais acessível às massas. “De repente, mais pessoas podiam pagar por uma peça belíssima de tecido diáfano e decorado. Foi por isso que os véus se tornaram moda.”

Na Grécia Antiga, o véu nupcial, também conhecido como “flammeum”, era visto como uma forma de proteção para as mulheres, protegendo-as de espíritos malignos, nervos de casamento e outros maus presságios. Outras culturas usaram esta peça para ocultar o rosto da noiva nos momentos finais antes de um casamento arranjado. Como os véus existiram ao longo da história em várias culturas, são um emblema mutável - representando limites místicos ou, potencialmente, atitudes misóginas. Um mito urbano defende que os véus foram concebidos para impedir que as mulheres fugissem, enquanto outros especulam que simbolizam uma noiva intocada e nova - um prémio a ser desembrulhado.

"Qualquer coisa menos um véu"

Audrey Hepburn usou um lenço rosa na cabeça, a combinar com o seu vestido curto rosa claro da Givenchy, para casar com o seu segundo marido, o psiquiatra italiano Dr. Andrea Dotti, em janeiro de 1969 (Bettmann Archive/Getty Images)

Embora Chrisman-Campbell não acredite em todas as interpretações do véu, observou a sua associação com pureza e castidade - o que, durante pelo menos um século, significava que divorciadas e viúvas usarem véu no segundo casamento era amplamente considerado um tabu social. “Havia um grande estigma contra usar véu se já se tivesse casado antes", afirma. As segundas noivas também eram desencorajadas de usar branco, levar bouquet ou usar vestido comprido até ao chão. “Mas as mulheres encontraram alternativas realmente engenhosas. Podiam usar um chapéu, um arranjo floral no cabelo, qualquer coisa menos um véu.”

No seu segundo casamento, em 1964, Elizabeth Taylor usou um vestido baby doll em chiffon amarelo-torrado - com o cabelo entrançado e enfeitado com flores. Já em 1962, Audrey Hepburn respeitou as regras vestimentares dos segundos casamentos, dizendo “sim” ao psiquiatra italiano Andrea Dotti com um vestido curto rosa claro da Givenchy e um lenço de seda na cabeça. “Se não se fingisse que era o primeiro casamento, tornava-se mais aceitável,” acrescenta Chrisman-Campbell.

Esboço do vestido de noiva de Angelina Jolie por Donatella Versace, bordado com os desenhos dos seus filhos, agosto de 2014 (ABACA/Shutterstock)

A expetativa de que as noivas pela segunda vez deveriam adotar um visual mais discreto acabou por desaparecer na década de 1980, tornando obsoletas essas regras vestimentárias rígidas. Um dos exemplos mais felizes de uma noiva a casar pela terceira vez que abraçou toda a pompa e circunstância de um grande casamento branco foi Angelina Jolie. Durante o seu casamento com Brad Pitt, em 2014, Jolie usou um clássico vestido de cetim marfim da Versace. O grande destaque, no entanto, foi o véu, bordado com desenhos coloridos feitos pelos seus filhos.

“Ela subverteu completamente a ideia do véu como símbolo de modéstia ou virgindade, ou qualquer tipo de recato", argumenta Chrisman-Campbell, que considerou este nível de personalização um sinal de uma nova era de matrimónios progressistas. “(Hoje em dia) muitas vezes há famílias recompostas envolvidas, por isso as crianças participam, e o casamento torna-se ainda mais significativo porque representa não apenas a união de duas pessoas, mas a união de duas famílias".

Moda

Mais Moda

Na SELFIE