Seis meses depois de publicar “A Origem das Espécies”, Charles Darwin escreveu uma carta ao seu amigo Asa Gray. Estava perturbado com uma família de vespas parasitas, as ichneumonidae, que põem os seus ovos no corpo de outro inseto, como uma lagarta; quando nascem, devoram o hospedeiro. “Não consigo convencer-me de que um Deus benévolo e omnipotente teria criado deliberadamente as Ichneumonidae”, escreveu. A criatura é citada como um dos fatores que o levaram a questionar a criação divina.
O ódio às vespas remonta a milhares de anos - Aristóteles denegriu-as como “desprovidas das características extraordinárias” que as abelhas possuem. Mas Seirian Sumner, professora de ecologia comportamental no University College London (UCL), quer mostrar que há mais nas vespas do que aparentam. Dedicou a sua carreira como zoóloga ao estudo destes insetos; escreveu um livro sobre eles, e até o seu nome no Instagram é “waspprof” (professora das vespas em português).
Seirian participou na recentemente inaugurada exposição Mundo das Vespas, no Museu de Zoologia Grant do UCL, em Londres, que espera “revelar as vidas ocultas das vespas”. Em entrevista à CNN, revelou as cinco principais razões pelas quais todos devemos amar as vespas tanto quanto ela.
Controlo de pragas
“As vespas são os controladores naturais de pragas. Um mundo sem vespas significaria que estaríamos mais inclinados a usar químicos para controlar as populações de outros insetos e bichos que não gostamos: lagartas, afídeos, aranhas, escaravelhos - diga qualquer nome - há uma vespa que o caça. Por isso, as vespas são predadores de topo realmente importantes na regulação dessas populações de insetos no ecossistema", explica a professora.
Polinização
“As abelhas picam e, mesmo assim, toleramos isso porque sabemos o que fazem. Percebemos que são importantes nos ecossistemas como polinizadoras. As vespas são igualmente importantes", afirma.
“Tal como as abelhas, visitam flores para obter néctar. Apesar de caçarem, as presas são para as suas crias, não para os adultos. Estes precisam de obter nutrientes de algum lado, e obtêm-no das flores através do néctar, tal como as abelhas", acrescenta.
Medicamentos
“Algum veneno (de vespa) pode potencialmente ser uma cura para o cancro. (De facto, um estudo mostrou que uma vespa brasileira pode matar células cancerígenas sem danificar células saudáveis ao redor.)
As vespas também têm muitos antibióticos no seu veneno e nos seus corpos que usam para manter as suas presas livres de doenças. Devíamos começar a explorar as defesas microbianas que as vespas possuem", considera.
Alimentação
“As vespas são uma fonte nutricional popular para os humanos em todo o mundo. Especialmente na Ásia, as pessoas adoram comer vespas. Cozem as larvas ou liofilizam as pupas, misturam com um pouco de malagueta – nada melhor. Têm um teor elevado de proteína, baixo teor de gordura e há até pessoas em certas partes do mundo que criam vespas de forma ativa para produzir quantidade suficiente destas suculentas e incríveis larvas para comer, porque são uma fonte de alimento muito importante", explica.
Fabricantes de papel
“São exímias fabricantes de papel, e há a ideia de que aprendemos a fazer papel observando as vespas.
A maioria das pessoas já viu uma vespa a recolher um bocadinho de casca de árvore ou de um poste de madeira. Misturam com a saliva e alisam até obter um papel fino e bonito, que depois usam para construir essas enormes sociedades em forma de bola de futebol onde vivem.
O papel dentro destes ninhos é verdadeiramente notável. Existem três tipos diferentes. No exterior, existe o invólucro, rápido e simples de construir. No interior, estão os favos, fortes mas leves, como os andares de um prédio. Estes favos são depois ligados por um terceiro tipo de papel, que é muito resistente e maleável. Se tentar rasgá-lo com as mãos, simplesmente não consegue. Tudo isto dentro de um único ninho de vespas", afirma.
Ponto bónus: Uma sociedade modelo
“A vespa de papel polistes é como a versão inseto de um suricata. Ao contrário das vespas de casaco amarelo e das abelhas melíferas, onde os indivíduos estão comprometidos, durante o desenvolvimento, a tornar-se rainhas ou operárias, estas, quando nascem adultas, têm o mundo inteiro à sua disposição.
Podem ser rainhas, podem ser operárias, podem começar como operárias e mudar para rainhas. É exatamente como a sociedade dos suricatas, onde há reprodutores e não-reprodutores que vigiam os predadores ou vão forragear. Todos ajudam uns aos outros, e é exatamente isso que estas (vespas) fazem.
Ajudam-nos a entender a evolução do altruísmo, porque é que um indivíduo abdicaria da sua oportunidade de se reproduzir para ajudar outro a fazê-lo. Estas vespas foram realmente importantes para compreender porque é que os animais se juntam em grupos.”
A exposição Mundo das Vespas no Museu de Zoologia Grant do UCL, em Londres, decorre até 24 de janeiro de 2026.
