Um dos efeitos secundários da exposição prolongada da sociedade a fenómenos extremistas é o da normalização. Ao fim de algum tempo, já nada nos choca, tudo é relativo e há sempre uma boa explicação, um contexto, um qualquer acontecimento na história que ajuda a enquadrar o que se passa na atualidade. Como se o mundo, afinal, não pulasse nem avançasse, mas estivesse condenado a uma espécie de pena perpétua que é a da miséria moral
Quando se candidatou à Câmara de Loures, em 2017, André Ventura apontou, pela primeira vez, à comunidade cigana. Lembro-me bem do clamor nacional que essas declarações provocaram, e era exatamente isso que ele queria. Chocar. Agitar as águas, colocar-se no topo da agenda mediática. André Ventura precisava que olhassem para ele, que soubessem o seu nome, e a única forma que encontrou para o fazer foi desviando-se do politicamente correto.
Era só seguir a cartilha que Giuliano da Empoli, na obra “Os engenheiros do caos”, descreve com minúcia. Testam-se umas quantas mensagens, analisam-se as reações, e as que provocaram mais indignação, mais controvérsia junto do eleitorado, transformam-se automaticamente num programa político.
Durante muito tempo, houve quem achasse que André Ventura era “cão que ladra, mas não morde”. Uma cópia barata do melhor populismo que, por essa altura, já começava a vingar noutros países europeus. Em Portugal, não. Por aqui, esta forma de fazer política não vingaria. Num país de brandos costumes, onde PSD e PS eram partidos hegemónicos, não era um militante de base que ia agora colocar em causa o que muitos davam por adquirido.
Nove anos depois, André Ventura está à frente de um partido com 1 milhão e 400 mil votos, tem a segunda maior bancada na Assembleia da República e chegou à segunda volta de umas eleições presidenciais. Nove anos depois, já toda a gente dá como muito provável que André Ventura possa um dia chegar a primeiro-ministro. Parte, aliás, desta campanha presidencial foi sobre isso: dar ou não dar posse a um Governo do Chega. Eis a questão.
Curiosamente, muitos dos que, em 2017, desvalorizaram o potencial político de André Ventura são os mesmos que, agora, desvalorizam a ameaça que ele pode representar para o Estado de direito. Falhada que foi a previsão de que Ventura nunca iria longe, criou-se uma nova narrativa: é um exagero — dizem e escrevem muitos — dizer que a democracia está ameaçada. Lá porque André Ventura quer uma quarta República, isso não quer dizer que venha aí uma ditadura. Pode ser uma quarta República em democracia. O povo e as instituições democráticas não permitirão o fim da democracia.
O que me parece que falha nesta análise é o seguinte: as fracas lideranças políticas e a ausência de respostas aos problemas do país estão a empurrar fatias cada vez maiores do eleitorado para a trincheira de André Ventura. E, quando ele estiver legitimado pelo povo, as instituições serão muito mais fáceis de controlar. Quem quiser um exemplo em tempo real, basta olhar para a Hungria de Orbán ou para os Estados Unidos de Donald Trump. Ambos venceram eleições democraticamente. Ambos foram legitimados pelo povo. E ambos têm em curso um processo de controlo absoluto sobre as instituições. Tribunais incluídos.
A detenção de elementos do grupo 1143 na última semana trouxe-me à memória um episódio recente da história dos Estados Unidos, quando, a 6 de janeiro de 2021, um grupo de apoiantes de Donald Trump — militantes da extrema‑direita, supremacistas brancos e grupos conspiracionistas — fez uma tentativa de assalto ao Capitólio para tentar impor pela força um resultado eleitoral que não tinha sido conquistado nas urnas.
A investigação — operação “Irmandade” —que, por cá, a Polícia Judiciária levou a cabo é, simultaneamente, assustadora e elucidativa. Os 37 detidos são suspeitos de terem formado uma organização criminosa hierarquizada, com ideologia nazi, xenófoba e racista, que difundia conteúdos nas redes sociais para incitar à violência contra minorias étnicas, designadamente imigrantes, sobretudo de países islâmicos.
E o que estariam, segundo as suspeitas, estes “portugueses de bem” a preparar? Todo um plano que, alegadamente, passava por um conjunto de ações provocatórias contra a comunidade muçulmana, com o objetivo de criar o caos social, para que o grupo 1143 pudesse, depois, posicionar-se como milícia popular contra os imigrantes islâmicos. Uma guerra racial, para a qual estes senhores e senhoras, agora detidos, estariam a ter preparação paramilitar. Sequestros, agressões e até planos para raptar jornalistas críticos.
O facto de, entre os detidos, estarem, militantes, simpatizantes e candidatos do Chega não é irrelevante, mas não é o mais grave. Grave é percebermos que o discurso de André Ventura, anti-imigração, contra as minorias e até contra os jornalistas, validou politicamente o ódio e a violência e legitimou a criação de uma espécie de exército clandestino. Mais grave ainda é vermos este líder político a assobiar para o lado e a desviar o assunto. Porque assobia André Ventura para o lado?
Há quem prefira continuar a desvalorizar os sinais evidentes de degradação do nosso regime. Uns, legitimamente; outros, oportunisticamente. E, numa coisa, parece-me que estaremos todos de acordo: responsabilizar os eleitores não só não é justo, como não resolve nada. Em menos de uma década, já normalizámos o discurso de ódio e já deixámos cair as linhas vermelhas contra quem os profere. O próximo passo será a normalização da violência? Ou, quando ela é levada a cabo pelos “portugueses de bem”, não se pode dizer que é violência?