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Comentador da CNN Portugal

Poder sem legitimidade é tirania, legitimidade sem poder é fraqueza

8 jan, 10:54

Os arquitetos da ordem liberal não se limitariam a assistir enquanto um grupo de promotores imobiliários manipula a hegemonia americana para consumo interno e interesses pessoais

O mundo entrou em 2026 com um gesto com precedentes, mas que parecia hoje impossível. Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, foi capturado por forças especiais dos Estados Unidos. Não se tratou apenas de uma operação militar ilegal, mas de um ato de propaganda cuidadosamente coreografado, concebido para impressionar aliados e intimidar rivais. Trump proclamou o combate ao autoritarismo e à ameaça do fentanil, mas a realidade desmente a retórica: a Venezuela não é fornecedora estratégica de petróleo nem uma exportadora relevante de drogas para os EUA. O gesto ecoa como um aviso: a ordem internacional construída ao longo de décadas está à mercê dos interesses pessoais do Presidente dos EUA e da sua entourage.

A captura de Maduro resultou de um planeamento meticuloso, desenvolvido longe das câmaras que depois lhe dariam visibilidade. Há quem acredite que Washington terá aceitado reduzir o seu envolvimento na Ucrânia em troca da aquiescência russa na América Latina, mas o que parece certo é que estamos a assistir à consolidação das esferas de influência em direto, do Atlântico Norte às Caraíbas. A exclusão da China desta equação – será um objetivo não declarado de Trump afastar Putin de Xi Jinping – teria sido o preço a pagar pela reaproximação entre Rússia e Estados Unidos, juntamente com o sacrifício do que resta do “Ocidente”.

É surpreendente que Maduro, sucessor de Chávez desde 2013, tenha sido capturado pelos EUA, enquanto outras figuras do seu regime aparentemente escaparam ilesas. O ditador venezuelano tornou-se símbolo de uma crise profunda: hiperinflação, manifestações, repressão violenta e concentração de poder, com cerca de oito milhões de venezuelanos no exílio. A oposição conquistou o Congresso em 2015 apenas para ver os resultados anulados. Trump, hesitante no primeiro mandato, adotou no segundo uma postura agressiva, impulsionada por Marco Rubio e Stephen Miller, conciliando política interna com interesses geopolíticos. A comunidade cubano-venezuelana na Flórida tornou-se instrumento de pressão eleitoral, enquanto a América Latina se transformou num tabuleiro geopolítico.

Neste contexto, o intervencionismo seletivo ganha forma. A Venezuela não surge isolada, mas integrada numa lógica mais ampla que aponta Cuba como próximo alvo. A política externa deixou de obedecer a interesses dignos desse nome e passou a funcionar como extensão da política interna, moldada eleitoralmente – convém lembrar que a especialidade de Miller, um dos principais ideólogos de Trump e hoje vice-chefe de gabinete, é a política interna, não a externa. A obsessão americana com migrações e a atenção a recursos estratégicos, como o petróleo, baralham ainda mais a realidade, mesmo que a Venezuela produza apenas cerca de 1% do petróleo mundial e a eventual recuperação da sua infraestrutura exija investimentos colossais.

Bombardeamentos simbólicos de barcos de droga e a aplicação do Alien Enemies Act a imigrantes venezuelanos transformaram uma crise humanitária em espetáculo legislativo. Delcy Rodríguez, elevada a presidente, aparenta estabilidade, mas não legitimidade democrática. A escolha obedeceu a um critério simples: controlo das forças armadas. Maduro tornara-se imprevisível e disfuncional. Delcy oferece continuidade, disciplina e previsibilidade operacional – sobretudo, não colocará os interesses dos EUA em causa. O plano de governação pós-Maduro – com três fases – afasta eleições no horizonte próximo. Comparações com Noriega e com o Iraque ilustram a tradição americana de ação rápida, mas sem uma construção institucional digna desse nome.

A divergência internacional é evidente: a União Europeia apoia interlocutores democraticamente eleitos, como Edmundo González e María Corina Machado, enquanto Trump prefere Delcy Rodríguez, priorizando interesses estratégicos e económicos imediatos. A oposição enfrenta dilemas de sobrevivência e legitimidade. Corina Machado, exilada, aguarda o momento certo para regressar, algo que pode nunca acontecer.

Marco Rubio, para quem a Venezuela e Cuba são mais do que cenários geopolíticos, sublinha que o governo de Rodríguez será temporário, sugerindo uma transição democrática gradual pouco credível. Surpreendente – ou talvez não, dado o historial – há em Portugal quem acredite genuinamente na benevolência da Administração Trump e no seu projeto para a América Latina. Talvez acreditem no mesmo relativamente ao Médio Oriente, onde Gaza ilustra a coerência e robustez dos planos de paz de Donald Trump, enquanto protestos massivos contra o regime iraniano testam a autoridade do Presidente Pezeshkian e a coesão do regime teocrático. A ameaça de intervenção americana parece improvável – mas quem se arrisca a prever depois de Caracas? – tendo em conta o risco de um enorme vazio de poder na região.

Na Ucrânia, o destino do conflito definirá a credibilidade da aliança ocidental – e o seu próprio futuro. Trump pressiona Kiev, enquanto em reuniões em Paris com líderes europeus, Zelensky, Witkoff e Kushner articularam um cessar-fogo, apoio militar, uma força multinacional pós-guerra e compromissos de defesa a longo prazo. Mas o acordo apresentado pelas capitais europeias assumiu a forma de uma declaração de intenções mais simbólica do que operacional. Prevê o eventual envio de tropas após um cessar-fogo, afastadas da linha da frente, acompanhadas de garantias políticas vagas. O texto foi progressivamente esvaziado, eliminando referências a apoio logístico, intelligence e compromissos militares prolongados. Sem assinatura americana e sem aceitação russa, torna-se apenas um instrumento negocial, não uma garantia de segurança.

Podemos perguntar-nos o que teriam os Wise Men aconselhado nesta nova ordem emergente. Os arquitetos da NATO, do Plano Marshall e das instituições destinadas a conter a União Soviética certamente não se limitariam a assistir enquanto um grupo de promotores imobiliários utiliza a hegemonia americana como instrumento de espetáculo e interesses pessoais, e não como garante da estabilidade global ou dos interesses (reais) do seu país.

O intervencionismo errático de Trump, as guerras de conquista em pleno século XXI, a inoperância europeia e a fragmentação do Ocidente evidenciam uma ordem liberal em estado terminal, por muito que nos custe aceitar. A Gronelândia cristaliza esta deriva. A sua transformação em prioridade declarada de segurança nacional, acompanhada da admissão pública do uso de força, expôs a fragilidade do princípio de soberania num sistema sem regras claras. As reações europeias revelaram mais desconforto do que capacidade de contenção. Já o novo protetorado norte-americano na América Latina simboliza o dilema dos democratas: condenar os EUA ou abraçar o “pragmatismo”, como tanto se gosta de dizer hoje em dia.

A captura de Maduro não é apenas um episódio latino-americano. Sintetiza um mundo à beira do colapso: crises regionais, impasses globais, economia instável, tensão militar e política externa errática. Trump exerce um poder quase absoluto, sem praticamente contrapoderes e sem visão. Espetáculo sem estratégia, propaganda sem propósito. O mundo de 2026 revela a fragilidade estrutural da Europa, mas sobretudo a inoperância dos seus líderes.

Talvez os próprios Wise Men chegassem à conclusão de que, com esta União Europeia e com estes líderes, não chegaríamos lá. Teriam Dean Acheson ou George Kennan sido ouvidos, em 2008 ou 2014, sobre a importância de reconstruir a Europa ou conter a ameaça russa? Robert A. Lovett ou John J. McCloy sobre a necessidade de uma estratégia militar como instrumento eficaz da política externa ou de uma arquitetura de segurança pragmática?

Hoje, suspiramos por uma Europa possível, capaz de transformar caos em alavanca, fragilidade em poder tangível. Não bastam intenções nem declarações: é preciso traçar eixos claros, articular dissuasão, economia e diplomacia numa única visão estratégica. Grupos de batalha nos Bálticos e nas fronteiras com a Ucrânia, patrulhas conjuntas no Indo-Pacífico, vigilância estratégica no Ártico – cada movimento não é apenas militar, mas sinal de equilíbrio, prova de que a Europa compreende o tabuleiro em que atua. A força torna-se presença, a presença torna-se credibilidade, e a credibilidade constrói espaço de manobra.

Será fundamental construir uma fortaleza geoeconómica capaz de resistir a chantagens externas e transformar vulnerabilidades em vantagens estruturais. Investir numa produção centralizada de semicondutores, numa indústria de defesa autónoma, inspirada na resposta à pandemia, em reservas estratégicas de energia e minerais e no comércio diversificado com o Sul Global – cada decisão reforçando a autonomia europeia face às potências mundiais. Com os Estados Unidos, alinhamentos condicionais transformariam o unilateralismo em negociações entre iguais. Com a China, a combinação de restrições e cooperação preservaria a relevância europeia. Com a Rússia, uma pressão firme e a independência energética convidariam Vladimir Putin a reavaliar os seus objetivos imperialistas e Orbán a escolher entre Moscovo e Bruxelas. Finalmente, uma força operacional híbrida e convencional daria corpo a esta tríade estratégica, convertendo a multiplicidade caótica de crises em alavanca de poder e demonstrando que ainda não perdemos.

Quero acreditar que os Wise Men – Dean Acheson, Charles Bohlen, Averell Harriman, George Kennan, Robert Lovett e John McCloy – teriam apresentado soluções que ainda nos escapam, mas que acabaremos por descobrir. Que existem maneiras de conter a desconstrução metódica da ordem liberal, restabelecer a ponte entre poder e responsabilidade e recuperar um mundo em que as instituições pesem mais do que as imagens e a coerência vale mais do que a teatralidade. Um mundo onde a sociedade americana será capaz de compreender a lógica doméstica que orienta a política externa do seu Presidente, votando em consciência nas eleições intercalares.

O futuro chega um dia de cada vez, como diria Dean Acheson. Mas nos primeiros oito dias de 2026 já ficou evidente que o mundo não aguardará que a Europa escolha quem quer ser. Uma União de Defesa já não é uma utopia, é um imperativo. Se os Wise Men moldaram o mundo que veio depois da barbárie, esta década exige quem o reconstrua depois da desordem.

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