MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026

Venezuela foi afetada por um "doublet" que "não é nada normal". E é por isso que o segundo sismo foi mais forte que o primeiro

25 jun, 16:27
Imagens do sismo na Venezuela (AP)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

A sequência de dois grandes sismos num espaço de segundos levou alguns meios de comunicação internacionais a recorrer à expressão "duplo sísmico"

Menos de 40 segundos separaram, quase de forma inédita, dois sismos devastadores num país permanentemente em crise: a Venezuela. O fenómeno, pouco habitual segundo especialistas ouvidos pela CNN Portugal, causou pelo menos 164 mortos, quase mil feridos - números que podem aumentar em muito - e provocou o colapso de vários edifícios, além de danos em várias infraestruturas.

“Hoje, os registos sísmicos têm um nível de precisão muito elevado. Este sismo da Venezuela foi registado em todo o planeta, desde o Japão até à Nova Zelândia”, começa por explicar o sismógrafo João Fonseca.

Os dois fortes abalos, de 7,5 e 7,2, aconteceram numa fase particularmente sensível para a Venezuela, que continua a lidar com uma profunda crise política e económica. Além da destruição e do elevado número de vítimas, o fenómeno levantou várias dúvidas entre especialistas e população, sobretudo pelo facto de o segundo sismo ter sido mais intenso do que o primeiro — um cenário pouco habitual, mas que tem explicação científica.

“Não é nada normal. É um caso raro, mas não é isolado”, afirma o sismólogo João Fonseca. Habitualmente, explica, ocorre primeiro o sismo principal — aquele que liberta a maior quantidade de energia — seguido de réplicas progressivamente menos intensas.

Neste caso, porém, o primeiro abalo de magnitude 7,2 funcionou como um sismo precursor, enquanto o segundo, de magnitude 7,5, foi o verdadeiro sismo principal.

“Quando a magnitude aumenta do primeiro para o segundo sismo, nós dizemos que houve um precursor e depois o sismo principal”, esclarece.

Embora rara, esta situação não é inédita. João Fonseca refere que a distribuição das tensões acumuladas ao longo da falha geológica pode fazer com que uma primeira ruptura liberte apenas parte da energia armazenada, deixando outras zonas da mesma estrutura instáveis e prontas para romper pouco depois.

Filipe Rosas, geólogo e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, sublinha que o fenómeno não corresponde ao padrão habitual, mas também não é algo sem precedentes.

“O que acontece tipicamente é termos o sismo principal e depois réplicas de menor magnitude. Aqui tivemos dois sismos de magnitude muito próxima que sucedem um ao outro em menos de um minuto”, explica o também direito do Instituto Dom Luiz.

“Uma das explicações para a ocorrência de sismos fortes em sequência passa pela existência de mais do que uma falha geológica na mesma região. Quando duas falhas estão próximas, a atividade sísmica numa delas pode influenciar diretamente a outra. Ou seja, a libertação de energia num primeiro sismo pode alterar o estado de tensão numa falha vizinha e aproximá-la do ponto de rutura”, descreve Filipe Rosas.

Um "doublet" 

Equipa de resgate procura sobreviventes dos grandes sismos na Venezuela. AP

A sequência de dois grandes sismos num espaço de segundos levou alguns meios de comunicação internacionais a recorrer à expressão “duplo sísmico”.

João Fonseca explica que o termo tem origem na palavra inglesa "doublet" e resulta, em grande medida, da evolução tecnológica da sismologia.

Há décadas, dois eventos desta natureza poderiam até ser interpretados como um único sismo. Hoje, graças à elevada precisão dos registos sísmicos, é possível distinguir claramente as duas ruturas.

“Se estivéssemos a utilizar os equipamentos disponíveis há 50 anos — e ainda mais há 100 anos, quando a sismologia estava numa fase muito menos desenvolvida — dificilmente seria possível distinguir estes dois eventos. Muito provavelmente, seriam interpretados como um único sismo”, sublinha João Fonseca.

Filipe Rosas lembra que a expressão não corresponde propriamente a uma classificação científica formal, mas pode ser utilizada para descrever dois sismos de grande magnitude que ocorrem praticamente em simultâneo.

O que continua por esclarecer é se ambos os sismos ocorreram exatamente na mesma falha geológica ou em estruturas próximas que interagiram entre si. A resposta só deverá surgir após análises mais detalhadas, segundo o especialista.

O peso da profundidade

Outro fator determinante para compreender a dimensão dos estragos está na localização e profundidade do sismo. À CNN Portugal, João Fonseca explica que a melhor proteção contra um sismo é, muitas vezes, a distância.

“Quando o sismo tem epicentro no oceano, a distância até às zonas habitadas é geralmente maior”, refere.

No caso venezuelano, o problema foi precisamente o contrário. Os dois sismos tiveram focos muito superficiais, um a cerca de dez quilómetros de profundidade e outro a cerca de 20 quilómetros. “Estamos a falar de sismologia muito superficial”, explica o especialista. 

Quando um sismo ocorre tão perto da superfície, as ondas sísmicas têm menos espaço para perder energia antes de atingirem áreas habitadas. O resultado traduz-se em níveis de destruição significativamente superiores.

"Se tivermos em conta que estas ruturas sísmicas costumam ter uma extensão vertical de cerca de 15 quilómetros, um sismo com foco a apenas 10 quilómetros de profundidade significa que a rutura pode chegar praticamente à superfície. Nestas situações, desaparece o efeito de proteção proporcionado pela distância, que normalmente ajuda a atenuar a energia das ondas sísmicas”, acrescenta.

Da Venezuela ao Japão

Sismos na Venezuela deixaram um enorme rasto de destruição. AP

Nas horas que antecederam a tragédia na Venezuela, o Japão também registou um sismo significativo, de magnitude próxima dos 6,9. Mas as consequências foram incomparavelmente menores. A explicação vai muito além da diferença numérica entre as magnitudes.

“O Japão é o país mais preparado para viver com sismos”, aponta João Fonseca. O especialista destaca a qualidade da construção, os regulamentos antissísmicos, a preparação das populações e a própria cultura de prevenção existente no país asiático.

“No caso do Japão, o sismo, junto à ilha de Honshu, teve epicentro no mar. Isso introduz um fator atenuante importante: o epicentro não se encontra tão próximo das zonas habitadas. Ainda assim, é excecional que um sismo de magnitude 6,9 nas proximidades do Japão praticamente não seja notícia. Isso reflete o elevadíssimo nível de preparação que o país tem para lidar com os sismos.”, lembra o sismógrafo, sublinhando ainda que “a construção dos edifícios e das estruturas, de uma maneira geral, é extremamente avançado no país”.

Já Filipe Rosas corrobora a mesma ideia. Além da profundidade dos sismos japoneses ser frequentemente superior, existe uma preparação muito mais avançada para enfrentar estes fenómenos.

“Quer do ponto de vista da legislação que existe na construção, quer do ponto de vista das pessoas saberem o que fazer, estão muitíssimo mais evoluídos”, refere o diretor do Instituto Dom Luiz.

No caso venezuelano, os abalos provocaram danos graves mesmo em Caracas, situada a cerca de 300 quilómetros do epicentro.

O problema em Portugal é outro

Em Portugal, existem registos históricos e instrumentais de eventos sísmicos superiores aos que agora atingiram a Venezuela. O sismo de 1969 teve magnitude 7,9 e o terramoto de 1755 terá atingido valores próximos de 8,8.

A diferença é que os grandes sismos capazes de afetar o território nacional tendem a ocorrer ao largo da costa sudoeste da Península Ibérica, a uma distância superior das zonas mais densamente povoadas, observa Filipe Rosas.

Ainda assim, os especialistas alertam que o risco existe. João Fonseca considera que Portugal possui regulamentação antissísmica avançada e décadas de investigação científica na área. Mas identifica um problema central.

“O principal problema em Portugal é a ausência de fiscalização”, salienta. Segundo o sismólogo, as normas de construção são exigentes e capazes de garantir níveis elevados de segurança. A questão está em assegurar que são efetivamente cumpridas.

“Tudo fica dependente de um compromisso de honra da parte de quem constrói e isso, claro, é uma receita para desastre, pois essas situações geralmente só se descobrem depois do desastre, quando se vai investigar os escombros e se chega à conclusão que afinal o edifício não foi construído de acordo com a regulamentação", alerta. "Essa é que é a principal preocupação. Não se percebe como em Portugal não há uma fiscalização sistemática dos edifícios para verificar que estejam de acordo com o código de construção”, acrescenta à CNN Portugal.

Também Filipe Rosas considera que o país deveria estar melhor preparado. A menor frequência dos grandes sismos faz com que a memória coletiva desapareça rapidamente, reduzindo a perceção do risco.

“Os sismos são menos frequentes, algo que é bom, mas isso faz com que as pessoas se esqueçam”, conclui.

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Mundo

Mais Mundo