O petróleo da Venezuela é a chave do plano de Trump para a Rússia, mas há um obstáculo

CNN , David Goldman
3 fev, 18:00
Veículos passam pela refinaria El Palito em Puerto Cabello, Venezuela (AP)

O presidente Donald Trump estabeleceu esta semana um acordo com a Índia que introduz um cálculo simples: os Estados Unidos reduzem drasticamente as tarifas sobre os produtos indianos e, em troca, Deli interrompe a compra de petróleo russo, optando pelo crude venezuelano e norte-americano. Desta forma, a Rússia ver-se-ia privada de um cliente fundamental e de uma fonte de financiamento crucial para a guerra na Ucrânia.

A realidade, contudo, não é assim tão linear. A operação petrolífera da Venezuela ainda não está à altura das necessidades e a Índia não pode, facilmente, virar as costas a Moscovo.

Ainda assim, é um começo. Trump pode utilizar a indústria petrolífera venezuelana — recentemente aberta ao mercado — para combater a Rússia no plano económico e limitar a sua capacidade de prolongar o devastador conflito na Ucrânia.

O que a Venezuela oferece

A Índia e a China representam a grande maioria das vendas de petróleo da Rússia. Uma vez que os países ocidentais aplicaram sanções ao crude russo desde o início da guerra, estas compras indianas e chinesas são vitais para manter a economia russa à tona.

O petróleo da Venezuela surge como uma alternativa atraente.

O seu crude pesado e ácido é extraordinariamente semelhante ao da Rússia — uma matéria densa e viscosa, ideal para a produção de fuelóleo, gasóleo, asfalto e outros derivados de que a florescente economia indiana necessita. Em contrapartida, o crude leve e "doce" dos Estados Unidos é excelente para produzir gasolina, mas pouco mais. Além disso, as refinarias da Índia estão bem equipadas para processar o tipo de petróleo venezuelano.

Após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, a 3 de janeiro, Trump abriu as portas às petrolíferas norte-americanas para iniciarem perfurações. O país sul-americano aprovou reformas legais na semana passada que podem ajudar a atrair novamente empresas estrangeiras para revitalizar as degradadas infraestruturas petrolíferas da Venezuela.

Homayoun Falakshahi, analista principal de crude na Kpler, referiu que estas reformas são "definitivamente um passo na direção certa e vão ajudar a preparar o caminho para um maior investimento no país".

Mas as boas notícias ficam-se, para já, por aqui.

A Venezuela não está preparada para a ribalta

A Venezuela tem produzido pouco mais de um milhão de barris de petróleo por dia, sendo que a grande maioria é enviada para o seu maior cliente: a China.

Mesmo que a Venezuela enviasse a totalidade do seu petróleo para a Índia, tal não compensaria os 1,5 milhões de barris que Deli importa diariamente da Rússia.

O potencial existe: a Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo do mundo. Antes de o governo socialista de Hugo Chávez chegar ao poder, em 1999, o país produzia mais de três milhões de barris por dia.

No entanto, as infraestruturas colapsaram há muito. Especialistas do setor concordam que seriam necessários dezenas de mil milhões de dólares anuais, durante uma década, para recuperar esse nível de produção. Tal exigiria investimento estrangeiro e a cooperação das grandes petrolíferas ocidentais que, até agora, se têm mostrado hesitantes em dedicar os recursos necessários ao renascimento venezuelano.

Logo após o afastamento de Maduro, a indústria energética norte-americana afirmou que, para convencer as grandes empresas a regressar, a Venezuela precisaria de estabelecer o Estado de Direito, garantir estabilidade política a longo prazo, revogar as leis nacionalistas do setor e pagar dívidas de milhares de milhões de dólares. Os Estados Unidos teriam também de revogar as sanções e oferecer garantias financeiras.

Até ao momento, apenas duas destas condições se concretizaram: a administração Trump eliminou as sanções e a Venezuela reviu a sua legislação petrolífera.

Trump afirmou que o pagamento de dívidas, a segurança e as garantias financeiras não fariam parte do acordo com as empresas que optassem por regressar à Venezuela. E, apesar de a presidente interina Delcy Rodríguez estar, para já, a colaborar com Trump, não há garantias de que o atual governo honre qualquer acordo com as petrolíferas ocidentais a longo prazo.

Além disso, as empresas dos EUA terão ainda de pagar direitos de exploração elevados ao país sobre a sua produção. Isto levanta dúvidas sobre se as grandes petrolíferas conseguirão obter o mesmo retorno do investimento que teriam noutros países — particularmente com os preços do petróleo tão baixos — observou Rob Thummel, gestor de carteira na Tortoise Capital.

Índia não pode abandonar a Rússia de imediato

Embora Trump tenha afirmado que o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, prometeu cessar a compra de petróleo russo, isso não acontecerá da noite para o dia. Rob Haworth, diretor de estratégia de investimento no US Bank Asset Management, notou que a Índia precisaria de realizar grandes modernizações nas infraestruturas.

"O ajuste da cadeia de distribuição global levará tempo, especialmente tendo em conta as diferenças no tempo de trânsito para a Índia entre as importações russas e as venezuelanas", explicou o responsável.

A Índia teria também de pagar um prémio considerável em relação ao petróleo russo dos Urais que compra atualmente. O crude da Rússia é negociado com um desconto significativo — cerca de 16 dólares por barril — face ao da OPEP ou dos EUA, o que torna a rutura difícil para a Índia. (A queda global dos preços do petróleo tornou este cálculo um pouco mais fácil de aceitar para Deli).

Recentemente, a Índia tem reduzido as importações de petróleo russo, possivelmente como moeda de troca para um acordo comercial com os Estados Unidos, segundo Falakshahi. "Parece que funcionou", acrescentou o analista.

Contudo, a Índia tem contornado as sanções ocidentais ao comprar crude russo através de navios da "frota fantasma" há anos — e não há sinais de que vá parar, mesmo após o acordo com Trump.

"Pelo contrário, esperamos que a Índia aumente as suas compras de crude russo", anteviu Falakshahi. "A Rússia tem contornado as mais recentes sanções dos EUA à Rosneft e à Lukoil e está agora a fornecer a maior parte do seu crude através de novos intermediários."

Atingir a Rússia onde mais dói

O petróleo venezuelano introduz um fator de incerteza bem-vindo na equação russa que poderá, um dia, alterar o status quo, pelo menos em parte.

A Rússia já foi prejudicada pela queda dos preços do petróleo e a sua economia enfrenta dificuldades devido às sanções globais. A inflação elevada e a dívida crescente tornaram a vida ainda mais difícil para os russos.

No entanto, a economia do presidente Vladimir Putin não está propriamente à beira do colapso. A Rússia conseguiu expandir-se através de uma combinação de aumento da produção industrial, frotas de petróleo clandestinas e impostos mais altos. É pouco provável que a perda da Índia como cliente represente um golpe fatal.

Ainda assim, o enfraquecimento das vendas de petróleo russo pode fazer a diferença, mesmo que a Índia reduza apenas gradualmente a sua dependência do crude de Moscovo.

"Com o tempo, isto poderá criar desafios adicionais para a economia russa", afirmou Haworth. Tal tornaria o financiamento da guerra na Ucrânia mais difícil para a Rússia.

E, num conflito que já causou a morte a quase dois milhões de pessoas, qualquer esforço é preferível à inação.

E.U.A.

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