O que acontece ao planeta se Trump deitar a mão a todo o petróleo da Venezuela?

CNN , Laura Paddison
7 jan, 14:25
Na fotografia principal deste artigo, a refinaria El Palito em Puerto Cabello, Venezuela, a 18 de dezembro de 2025. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo. O tipo de petróleo que produz está entre os mais poluentes do planeta (Jesus Vargas/Getty Images)

Na fotografia principal deste artigo, a refinaria El Palito em Puerto Cabello, Venezuela, a 18 de dezembro de 2025. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo. O tipo de petróleo que produz está entre os mais poluentes do planeta

Estima-se que as maiores reservas de petróleo de qualquer país do planeta, mais de 300 mil milhões de barris, estejam sob o solo da Venezuela. O presidente norte-americano Donald Trump reclama agora estes vastos depósitos, após a captura do presidente do país, Nicolás Maduro.

O petróleo venezuelano traz uma perspetiva tentadora para Trump, que venera os combustíveis fósseis - e até já apresentou a sua visão de ter as empresas petrolíferas americanas a investir milhares de milhões para explorar este ouro negro.

No entanto, os especialistas em clima estão a ativar as campainhas de alarme, uma vez que este petróleo está entre os mais poluentes do mundo.

“O petróleo da Venezuela é considerado ‘sujo’ não por causa da ideologia, mas por causa da [componente] física e das infraestruturas”, diz Guy Prince, responsável de investigação de fornecimento de energia do “think tank” independente Carbon Tracker.

O tipo de petróleo que predomina na Venezuela — encontrado sobretudo na Faixa do Orinoco, uma extensão de terra que atravessa a parte oriental do país — é o crude pesado e ácido. É semelhante às areias betuminosas do Canadá. É espesso e viscoso, como o melaço. Tem uma maior concentração de carbono, contribuindo mais para o aquecimento global do que os petróleos mais leves.

A sua consistência faz com que o petróleo pesado seja, geralmente, mais difícil de extrair, exigindo mais energia. “O petróleo não sai do poço como um líquido. Precisa de ser aquecido, geralmente bombeando vapor para o reservatório”, explica Lorne Stockman, codiretor de investigação da organização ambiental sem fins lucrativos Oil Change International. Tal requer grandes quantidades de energia, produzida principalmente a partir do gás natural, um dos principais gases que contribuem para o efeito de estufa.

Os impactos vão para lá da extração. O elevado teor de enxofre do petróleo também torna mais difícil e mais dispendioso refiná-lo em produtos úteis como a gasolina e o gasóleo. É algo que exige equipamentos especializados e processos que consomem mais energia, aumentando ainda mais a poluição climática.

Além disso, “a infraestrutura na Venezuela é antiga e está mal conservada, o que aumenta o risco de fuga de metano, de queimas e derrames”, diz Prince, da Carbon Tracker.

O metano é um grande problema climático porque este gás, que contribui para o aquecimento global, é acima de 80 vezes mais potente do que o dióxido de carbono em curtos períodos de tempo. A intensidade do metano das operações de petróleo e gás na Venezuela é seis vezes superior à média global, segundo a Agência Internacional de Energia. Em parte, deve-se aos elevados níveis de queima de gás natural no país, uma prática que liberta grandes quantidades de metano à medida que o excesso de gás natural é queimado.

Atualmente, a poluição climática libertada por cada barril de petróleo venezuelano produzido é mais do dobro da média global, segundo Patrick King, responsável pela investigação de emissões da consultora Rystad Energy.

 

Uma chama que queima gás natural numa fábrica de tratamento de petróleo pesado operada pela empresa estatal venezuelana PDVSA, na rica região petrolífera do Orinoco, em abril de 2015. A queima de gás contribui para a elevada intensidade de metano nas operações de petróleo e gás na Venezuela (Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

É possível que o impacto climático possa ser reduzido se as grandes petrolíferas americanas intervierem, uma vez que conseguiram diminuir a intensidade das emissões em algumas das suas operações petrolíferas globais, afirma King, da Rystad. No entanto, “há limites” para a redução deste efeito, acrescenta. O petróleo venezuelano exigirá ainda grandes quantidades de energia para ser extraído, bem como significativos programas de redução da queima de gás, que são muito dispendiosos.

O petróleo da Venezuela também acarreta sérias preocupações ambientais. O país sofre com fugas em oleodutos e infraestruturas obsoletas, aumentando o risco de derrames.

É difícil obter dados rigorosos sobre o número de derrames, especialmente porque a companhia petrolífera nacional deixou de os divulgar publicamente em 2016. Há, contudo, outras organizações a publicar estimativas. O Observatório Venezuelano de Direitos Humanos Ambientais publicou um relatório, em 2022, onde contabilizava 199 derrames entre 2016 e 2021 — ainda assim, salientava que o número real é, provavelmente, muito superior.

“Seja no Canadá ou na Venezuela, não devíamos estar a extrair este material”, diz Stockman, da Oil Change International. Não são só os riscos climáticos e ambientais que são elevados. Também a viabilidade económica da exploração do petróleo venezuelano pode pura e simplesmente não ser sustentável.

A produção de petróleo da Venezuela tem caído significativamente desde 2016, quando rondava os dois milhões de barris por dia. Atualmente, o país produz menos de 1 milhão de barris por dia, em parte devido às sanções dos EUA e à redução dos investimentos. Antes da operação militar americana, a perspetiva era de um declínio ainda maior.

Segundo dados da Rystad Energy divulgados na segunda-feira, seriam necessários mais de 53 mil milhões de dólares em investimentos nos próximos 15 anos só para manter o atual ritmo de produção de petróleo. Para aumentar a produção, para os níveis em que Venezuela atingiu o seu auge, com mais de três milhões de barris por dia, seriam necessários uns impressionantes 183 mil milhões de dólares, concluiu a Rystad.

Trata-se de uma perspetiva dispendiosa num mundo inundado de petróleo, onde os preços são baixos – e onde a procura global poderá estar rapidamente a aproximar-se do seu pico. “No mercado energético atual, isto pura e simplesmente não corresponde à realidade”, diz Prince. “Seria uma forma muito cara de produzir petróleo de alto custo e com emissões elevadas, precisamente quando o crescimento da procura global está a abrandar. Não é um cenário credível", acrescenta.

São difíceis de prever as consequências climáticas globais de um aumento drástico da produção petrolífera venezuelana, caso tal se venha a revelar possível. Estas dependeriam muito da forma como o petróleo seria extraído, "mas muito provavelmente as emissões de carbono aumentariam de forma significativa", afirma Diego Rivera Rivota, investigador sénior do Centro de Política Energética Global da Columbia University.

Existem, contudo, outros cenários. O aumento da produção venezuelana pode não significar necessariamente mais petróleo no mercado global, se a produção diminuir noutras regiões, afirma King, da Rystad.

Talvez seja mais importante o impacto nos esforços globais para conter a crise climática, diz Prince: “O impacto climático mais significativo de uma intervenção venezuelana não seria a libertação de grandes quantidades de carbono — seria indireto: desviar a atenção da transição para a energia limpa, reforçar uma mentalidade de conflito por recursos do século XX e criar instabilidade que retarda a ação climática coordenada”.

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