A canção ecoava em 2001 com a interpretação de Manu Chao. Numa referência poética aos perigos nas ruas da miséria e da revolta na América-latina, o músico soltava o grito: “Cuidado no bairro, na calçada, em todo o lado estão à tua procura”. Numa versão ao vivo, Manu Chao prolongaria a letra com um foco: “Que pasa por la calle? No pasa nada! Venezuela!”.
Ao longo dos anos em que se manteve no poder efetivo, a pobreza recuaria para os 28%. Chávez chegou a ser o rosto de uma romântica visão revolucionária pós-neoliberal para a América-latina, sob inspiração de Simon Bolivar. As reações eram expectáveis, sobretudo da parte de quem perdera o acesso às torneiras do petróleo e do gás natural, a riqueza e a desgraça da Venezuela, cobiçados por ganâncias imperiais.
Quatro anos depois, um golpe de estado tentou afastar Chávez. Valeu-lhe a intervenção de fileiras militares fiéis e das organizações populares, mas o acontecimento chocou o presidente e reforçou a linha dura do regime. O próprio confessaria o impacto pessoal daquele golpe fracassado, que ainda o depôs durante 48 horas.
O trauma motivaria mais tarde a célebre picardia com o rei de Espanha. Numa cimeira ibero-americana, Chávez interrompeu um discurso para acusar o ex-presidente do governo espanhol, Jose Maria Aznar, de, juntamente com os Estados Unidos, ter sido um dos patrocinadores do falhado golpe de estado em 2002. Juan Carlos perdeu a paciência: “por qué no te callas?”
No início de 2003, meses após a tentativa de golpe de estado e reforçado por um referendo, o presidente venezuelano revelava uma atitude mais musculada, fazendo aprovar leis que lhe davam mais poderes e reduziam o espaço de ação dos opositores. Testemunhei na grande Caracas que a sociedade venezuelana vivia então numa quase guerra civil. Foram semanas de greves gerais contra o regime, com a paralisação da PDVSA, petrolífera nacionalizada, e dificuldades de abastecimento. Eram quase diárias as manifestações anti e pró-Chávez, com milhões nas ruas, confrontos, tiroteios, gás lacrimogéneo, intervenções militares e policiais. Com o apoio de interesses externos, as oposições esticavam a corda até onde podiam. Chávez interrompia emissões televisivas para falar diariamente ao país, durante horas, num cenário com uma bíblia e a imagem de Bolivar. Havia zonas controladas por milícias, de parte a parte. A autoridade civil estava dividida entre a polícia metropolitana, apoiante de um lado, e a federal, que apoiava o outro. Altas patentes militares da oposição, escudadas por apoiantes civis, concentravam-se na emblemática praça Altamira, no bairro rico de Chacao, para pedir a demissão de Chávez.
Cercado por embargos internacionais, por uma ruidosa contestação interna, o regime começaria a ser redesenhado pelos ideólogos radicais do partido fundado por Chávez, o Movimento 5ª República. "O presidente vai garantir os direitos humanos para os militares concentrados em Altamira?", perguntei à líder parlamentar do 5ª República, que, dias antes, vira no topo de um camião a lançar pedras sobre manifestantes opositores. "Para esses não há direitos humanos", respondeu. Percebia-se que começara a deriva dos ideais nascentes do chavismo.
A luta da oposição perdeu força até à morte do carismático Hugo Chávez, em 2013, vítima de doença prolongada. No dealbar de um tempo de polarizações, Nicolás Maduro chegou ao poder, apertou-se o embargo e agudizou-se a prática de repressão interna.
Antigo motorista e sindicalista, Maduro assumiu a pasta das relações exteriores em 2006, tendo sido nomeado vice-presidente da Venezuela em 2012, já Chávez tinha uma saúde frágil. Natural sucessor interino e depois eleito, registou o estilo quando, numa tentativa de reforçar a legitimidade da sucessão, disse, numa manifestação, que Chávez lhe aparecera para o abençoar na forma de um pássaro cantante.
À semelhança de outras nações latino-americanas, a Venezuela transformara-se num laboratório para avaliar a resiliência de ideologias perante a força dos mega-interesses financeiros, do petróleo, do narcotráfico, dos estrategas do domínio global.
Nicolás Maduro converteu definitivamente o chavismo num polvo controlador, dos bairros às instituições, as oposições regressaram às ruas e os resultados das eleições de recondução não foram reconhecidos por grande parte da comunidade internacional.
Com aparentes ligações e concessões perigosas, Maduro apenas conseguiu ampliar o isolamento do país, o declínio social, a escassez, o regresso dos elevados níveis de pobreza extrema e a segregação dos adversários com a atrocidade das ditaduras.