A ordem internacional é uma construção frágil, assente no que se chama – no plano das Relações Internacionais e do Direito Internacional Público (DIP) – de «voluntarismo», ou seja, a adesão dos Estados a princípios superiores, traduzidos em tratados e outros diplomas, que vinculam as partes para efeitos de estabelecimento, precisamente, de uma ordem, que Kant idealizou como baseada para uma paz perpétua que se veicularia por vontade dos Estados na convivência pacífica.
Após a queda do Muro de Berlim e o fim formal da União Soviética, Fukuyama, como muita gente, acreditou que a História começaria a ser a do caminhar para a democratização, o que se traduziria, no plano internacional, numa convivência assente no DIP.
Com o tempo, essa ordem internacional voltou a afirmar-se como frágil e, a partir da invasão da Ucrânia pela Rússia, como verdadeiramente utópica, mesmo com uma Europa a tentar segurar as pontas.
A viragem final foi, todavia, o golpe de decapitação do regime chavista de Nicolás Maduro, levado a cabo pelos Estados Unidos. O ataque ao petróleo e aos recursos minerais venezuelanos, sob o manto, por sinal curto, da democracia e do combate ao narcotráfico, é tanto um precedente jurídico que derroga o DIP quanto a afirmação definitiva do regresso das doutrinas do século XIX e do começo do século XX sobre o império da força e a natureza belicista dos Estados.
Por outras palavras, o corolário Trump materializa, de forma cristalina, a nova ordem internacional, assente num tripé: (i) o mundo divide-se entre três impérios – o americano, o russo e o chinês; (ii) a geopolítica é o resultado das tensões entre eles, pelo que todas as ações são justificadas, desde que esteja em causa as zonas de influência e segurança (os quintais) desses impérios; (iii) o realismo económico impera sobre valores morais. Quando esses três aspetos se conjugam, as placas tectónicas da geopolítica movem-se. E Trump quer ser a voz que comanda os lobos.