Como se destruiu a riqueza de um país que tem petróleo suficiente para 3.900 anos em Portugal

5 jan, 16:19
Refinaria de El Palito, Venezuela (Matias Delacroix/AP)

Quase um quinto do petróleo mundial está como que estagnado sem que se saiba o que lhe vai acontecer. Donald Trump quer pôr as máquinas a mexer e o dinheiro a circular, mas anos e anos de atraso podem tornar isso mais difícil do que se pensava

"Drill, baby drill". Uma das frases da campanha de Donald Trump já deixava a adivinhar qual seria um dos grandes focos do homem que em janeiro assumiu a presidência dos Estados Unidos, mas esse objetivo fica bem mais fácil quando, de repente, se pode ter acesso às maiores reservas de petróleo do mundo.

É assim mesmo: com um nível de pobreza difícil de explicar nas ruas, a Venezuela é o país que tem as maiores reservas do chamado ouro negro. De acordo com os dados mais recentes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), o país sul-americano tem 303 mil milhões de barris em reservas, um número quase inexplicável em zeros, mas que significa cerca de 10 vezes mais do que aquilo que os Estados Unidos têm.

Ora, de acordo com a EPCOL – Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes, isso significa que as reservas da Venezuela são suficientes para alimentar o consumo de petróleo em Portugal por… 3.900 de anos, já que o nosso país utiliza sensivelmente 213 mil barris por dia, de acordo com os últimos dados da Direção-Geral de Energia e Geologia, que se referem a 2024.

O que é que explica, então, que o país que, sozinho, tem 17% de todas as reservas mundiais de petróleo, não consiga lucrar com isso?

Numa resposta rápida, há três razões principais para a Venezuela estar brutalmente abaixo daquilo que conseguiria fazer: décadas de má gestão, falta de investimento e sanções.

Com a maior parte do petróleo a girar em torno da bacia do Orinoco, um dos mais importantes rios da América do Sul, o petróleo venezuelano envolve uma técnica relativamente simples, mas é difícil de produzir, de acordo com os dados do Departamento de Energia dos Estados Unidos, que há muito tem este mercado na mira, até porque já lucrou, e muito, com ele.

Este cartaz de 2015 em Orinoco onde aparece Hugo Chávez aponta para os vários poços de petróleo (Fernando Llano/AP)
Este cartaz de 2015 em Orinoco onde aparece Hugo Chávez aponta para os vários poços de petróleo (Fernando Llano/AP)

Para já, continua sem se perceber totalmente porque é que a Venezuela não usufruiu desta riqueza natural, até porque tem, aparentemente, a capacidade mineradora para isso. Basta ver que em 2019, o então presidente Nicolás Maduro e a agora presidente Delcy Rodríguez anunciaram um plano quinquenal para aumentar a extração de minérios. E tudo como alternativa à… produção de petróleo.

Carvão, ouro, ferro, cobre, níquel, prata, zinco ou titânio. Tudo minerais importantes e que, de acordo com o mapa de minerais partilhado pelo governo venezuelano em 2021, abundavam no país, ainda que não tenham sido fornecidos dados concretos para a maioria deles.

Dessa lista faltava, pois, o petróleo, que aí sim, há a certeza que a Venezuela lidera em reservas.

Do 80 para o 8

E se dúvidas existem de que é possível a Venezuela lucrar com o petróleo, os dados históricos não mentem. O país sul-americano é um dos membros fundadores da OPEP, juntando-se a Irão, Iraque, Kuwait e Arábia Saudita, mas não está nem perto da produção dos seus parceiros, apesar de ter as condições naturais para fazer melhor que todos eles.

De acordo com os dados oficiais, a Venezuela produzia nos anos 70 cerca de 3,5 milhões de barris por dia, o que representava 7% da produção diária global. Esse número caiu para dois milhões na década passada e, de acordo com os dados do ano passado, não superou os 1,1 milhões de barris por dia, menos de um terço do que já foi capaz de produzir.

Neste ponto, o secretário-geral da EPCOL aponta, em declarações à CNN Portugal, que a nacionalização do setor foi o grande problema, já que retirou da exploração de petróleo quem tinha o conhecimento e a capacidade de investimento, deixando a indústria à deriva.

“A maioria da exploração do petróleo venezuelano era feita pelos Estados Unidos e pela Europa - a BP também lá estava, por exemplo”, recorda António Comprido, que olha para uma indústria sem capacidade para se reerguer depois de toda a degradação e dos boicotes que foi enfrentando.

Isso mesmo explica que grande parte dos poços de petróleo estejam hoje fechados, o que vai exigir um esforço bilionário para retomar a produção. “Não é da noite para o dia” que os Estados Unidos vão conseguir pôr o setor a render, sublinha António Comprido, apontando as condições “relativamente precárias” da maior parte das infraestruturas.

A isso, acrescenta António Comprido, junta-se a complexidade específica do petróleo da Venezuela, que “não nasce da areia como na Arábia Saudita”. “É um petróleo mais pesado, mais denso, daí exigir outra tecnologia”, ressalva o secretário-geral da EPCOL, antevendo dificuldades que talvez o discurso de Donald Trump tenha ignorado.

“Vamos ter as maiores empresas de petróleo dos Estados Unidos, as maiores de todo o mundo, a irem para lá, a gastarem milhares de milhões de dólares, a repararem a infraestrutura quebrada, a infraestrutura de petróleo, e a começarem a fazer dinheiro para o país”, afirmou Donald Trump na conferência de imprensa de quase uma hora em que tentou explicar tudo o que estava a acontecer.

Para a frente e para trás

Voltando aos anos 70, o início da década trazia o ano de maior produção de sempre na Venezuela. Eram 3,71 milhões de barris por dia, os tais 7% da produção diária mundial, que entrou num percurso inversamente proporcional ao de Caracas.

É que um só cresceu e cresceu, enquanto o outro só desceu e desceu. Se olharmos os dados mais recentes da Agência Internacional de Energia, e de acordo com uma estimativa, o ano de 2025 voltou a ser de recordes, com 104,9 milhões de barris produzidos por dia em todo o mundo. É qualquer coisa como 38 mil milhões de barris por ano, ainda assim um décimo de toda a reserva venezuelana.

Quer isto dizer duas coisas: que só a Venezuela sozinha tem petróleo que chegue para todo o mundo por 10 anos; que a Venezuela, que em 1970 produzia 7% do petróleo global, hoje tem um peso que não ultrapassa o 1%.

O momento chave, como António Comprido já deu a entender, foi a criação da Petroleos de Venezuela S.A. (PDVSA), com o país a nacionalizar a indústria ainda naquela década de 70, com resultados quase automáticos, já que a produção caiu de 3,71 milhões de barris por dia em 1970 para 2,17 milhões em 1978.

Com um setor já meio depauperado, a Venezuela tentou voltar a abrir ao investimento estrangeiro na década de 90. Ainda deu resultado e durou uns anos - a produção ainda chegou a passar novamente os três mil milhões de barris diários -, mas a chegada de Hugo Chávez ao poder mudou tudo novamente.

A Revolução Bolivariana voltou a dar à PDVSA o controlo total dos projetos de petróleo da Venezuela, o que resultou na expropriação e nacionalização dos bens de empresas estrangeiras, nomeadamente das norte-americanas Exxon e Conoco, gigantes do petróleo que ficaram sem nada depois de 2007, num episódio que agora serve para a alegação de Donald Trump de que os Estados Unidos merecem uma reparação.

Essas mesmas empresas ainda tentaram ganhar alguma coisa nos tribunais internacionais, que até ordenaram a Venezuela a pagar mais de 10 milhões de dólares à Conoco e mais de um milhão de dólares à Exxon, mas o regime de Caracas só pagou uma parte dessas quantias.

O governo venezuelano ainda tentou voltar a aumentar a produção com parcerias com a norte-americana Chevron - que ainda continua na Venezuela e até produz perto de 25% do seu petróleo -, a italiana ENI, a francesa Total ou a russa Rosneft, mas o setor nunca mais recuperou, caindo de ano para ano.

Um país sancionado

A recuperação de um setor gigante como o petróleo venezuelano passa por várias etapas, mas há uma que depende quase exclusivamente dos Estados Unidos e dos seus parceiros.

O levantamento de sanções será uma das primeiras medidas a tomar, abrindo novamente o país ao mercado global, do qual ficou privado depois de várias decisões do Ocidente.

Tanto assim é que os Estados Unidos deixaram de ser o maior comprador de petróleo da Venezuela, num lugar que perderam para a China, a quem Nicolás Maduro dava crude como forma de ir pagando a brutal dívida que tem para com Pequim, e que ainda vai em cerca de 8,5 mil milhões de euros, de acordo com a agência Reuters.

O mesmo tipo de negócio foi feito com a Rússia, sem se saberem exatamente os dados ou valores envolvidos.

Hoje em dia, e de acordo com os dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, a China compra cerca de 68% do petróleo da Venezuela, enquanto os Estados Unidos têm uma fatia de apenas 23%.

E mesmo apesar de conseguir fazer fluir o seu petróleo para mercados mais "amigos", a Venezuela está longe de conseguir lucrar com isso. De acordo com os dados mais recentes, exportou pouco mais de quatro mil milhões de dólares em 2025. Um número brutalmente atrás dos 181 mil milhões de dólares da Arábia Saudita, que foi quem mais lucrou com esta indústria no ano passado, seguindo-se Estados Unidos e Rússia, com 125 e 122 mil milhões de dólares em exportações, respetivamente.

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