“Quem se assustou que tome chá de camomila”, disse o presidente venezuelano Nicolás Maduro antes de mais uma vitória altamente contestada. Desde 2013 no poder, ele tenta, sem sucesso e por decreto, reviver o carisma de seu antecessor, o falecido e popular Hugo Chávez.
Aliados como Cuba, Nicarágua, Rússia e China, longe de serem exemplos em democracia, comemoraram os resultados e felicitaram o sucessor de Chávez, que se mantém no poder há onze anos, não importa se de forma legítima ou não. Posição parecida com a do Partido dos Trabalhadores de Lula da Silva, que reconheceu o resultado. O presidente brasileiro, no entanto, ainda está em silêncio.
Muitos venezuelanos não pareceram gostar tanto assim. A oposição, liderada por Maria Corina Machado, impedida de concorrer, diz ter provas de que o candidato Edmundo González teve 6,2 milhões de votos.
A crise, já existente mas agravada em 2013, continua e fez com que quase 8 milhões de venezuelanos abandonassem o país. De acordo com a HumVenezuela, em março de 22, a maioria dos cidadãos enfrentava dificuldades no acesso a alimentos, com 10,9 milhões de subnutridos ou com fome crónica. Cerca de 4,3 milhões foram privados de alimentos, às vezes passando dias sem comer.
Depois de quase 25 anos de chavismo, a oposição finalmente parecia ter esperança. No entanto, Maduro fez com que as fraudes eleitorais começassem antes mesmo da votação. Além de reprimir opositores do regime, há ainda diversos relatos de ameaças contra apoiantes da oposição, da falta de acompanhamento das atas de votação e de um suposto “ataque hacker” na madrugada eleitoral. Ou seja, falta de transparência.
Na segunda-feira, Caracas amanheceu com protestos. A diferença é que, dessa vez, o mundo está a prestar mais atenção, e a comunidade internacional quer uma explicação. Governos de esquerda progressista pedem acesso às atas. Até Lula que, em 2023 estendia a mão ao presidente venezuelano e que chegou a defender o ‘companheiro’ ao negar acusações do país ser antidemocrático, se encontra em uma situação desconfortável.
Cabe então aos vizinhos contestar e pressionar pelo acesso a um resultado democrático e justo. Esse “front” terá de ser liderado por Lula, líder do maior país da América Latina, reeleito em 2022 através da bandeira da democracia e que sofreu uma tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023. O mundo está cada vez mais polarizado e é necessário um posicionamento contra qualquer forma de autoritarismo, principalmente com um vizinho do Brasil.
Cabe a Lula saber que a história não terá um final feliz. Cortaremos a relação com a Venezuela? Legitimamos um governo que viola os direitos humanos e fraudou eleições? A tentativa de mediação acontece já há anos. Não há mais espaço para ser resiliente com autoritarismo. E, quem se assustou, que tome chá de camomila.