Exclusivo. EUA planeiam estabelecer uma base da CIA na Venezuela

CNN , Zachary Cohen, Jennifer Hansler e Kylie Atwood
27 jan, 12:17
Protestos na Venezuela (Juan Barreto/GettyImages)

(Apoiantes do Nicolás Maduro seguram uma bandeira nacional gigante durante uma manifestação em Caracas que pede a libertação do ex-presidente venezuelano e da sua esposa de uma prisão norte-americana, 23 de janeiro. Juan Barreto/AFP/Getty Images)

A CIA está a trabalhar discretamente para estabelecer uma presença permanente dos EUA na Venezuela, liderando os planos da administração Trump para exercer a sua influência recém-adquirida sobre o futuro do país, de acordo com múltiplas fontes próximas do processo.

As discussões de planeamento entre a CIA e o Departamento de Estado têm-se centrado na presença dos EUA dentro da Venezuela, tanto a curto como a longo prazo, após a dramática captura de Nicolás Maduro no início deste mês.

Embora o Departamento de Estado sirva como a principal presença diplomática dos EUA no país a longo prazo, a administração Trump irá provavelmente contar com a CIA para iniciar este processo de reentrada devido à transição política em curso e à instabilidade da situação de segurança na Venezuela pós-Maduro, segundo as mesmas fontes.

“O Estado planta a bandeira, mas a CIA é quem realmente exerce influência”, disse à CNN uma fonte ligada ao processo de planeamento, referindo que os objetivos a curto prazo da agência norte-americana incluem preparar o terreno para os esforços diplomáticos – incluindo o desenvolvimento de relações com os venezuelanos – e garantir a segurança.

A curto prazo, as autoridades norte-americanas podem operar a partir de um anexo da CIA, mesmo antes da abertura de uma embaixada oficial, o que lhes permitirá iniciar contactos informais com membros de diferentes fações do governo venezuelano, bem como com figuras da oposição, e identificar terceiros que possam representar ameaças, acrescentou a mesma fonte, traçando um paralelo com o trabalho da agência na Ucrânia.

“Estabelecer um anexo é a prioridade número um. Antes dos canais diplomáticos, o anexo pode ajudar a estabelecer canais de ligação com os serviços de informação venezuelanos, o que permitirá conversas que os diplomatas não podem ter”, esclareceu um antigo funcionário da administração norte-americana que trabalhou com os venezuelanos.

A CIA recusou comentar.

Os EUA enviam frequentemente diretores da CIA ou altos funcionários dos serviços de informação para reuniões delicadas com líderes mundiais, de modo a discutir assuntos sensíveis com base em informações recolhidas pelos serviços de informação norte-americanos. 

O diretor da CIA, John Ratcliffe, foi o primeiro alto funcionário da administração Trump a visitar a Venezuela após a operação contra Maduro, reunindo-se com a presidente interina, Delcy Rodríguez, e com os líderes militares no início deste mês. Ratcliffe deixou uma mensagem à nova liderança: a Venezuela já não pode ser um refúgio seguro para os adversários dos Estados Unidos.

A CIA será provavelmente responsável por informar as autoridades venezuelanas sobre informações relevantes dos serviços de informação norte-americanos relacionadas com estes adversários, incluindo a China, a Rússia e o Irão, sugere outra fonte ligada às discussões em curso.

“Se for necessário informar a Venezuela sobre as preocupações com a China, a Rússia e o Irão, não será o Departamento de Estado que o fará. O DNI (Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional) terá de decidir o que desclassificar para partilhar, e depois os agentes de inteligência farão o briefing”, acrescentou a mesma fonte.

O papel crucial da CIA na operação de captura de Maduro

Agentes da CIA estiveram em solo venezuelano nos meses que antecederam a operação contra Maduro. Em agosto, a agência instalou secretamente uma pequena equipa no país para monitorizar os padrões, locais e movimentos de Maduro, o que ajudou a avançar com a operação no início deste mês.

Entre os agentes estava uma fonte da CIA infiltrada no governo venezuelano que auxiliou os Estados Unidos no rastreamento da localização e dos movimentos de Maduro antes da sua captura, como já tinha sido noticiado pela CNN.

A decisão da administração Trump de apoiar Delcy Rodríguez em vez da líder da oposição, María Corina Machado, foi também influenciada por uma análise confidencial da CIA sobre o impacto da saída de Maduro da presidência e as implicações a curto prazo da sua possível destituição, como também tinha sido noticiado pela CNN.

Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, ao lado da foto de Nicolás Maduro e da sua esposa, Cilia Flores, após o ataque norte-americano em Caracas que resultou na captura do casal, 15 de janeiro. Leonardo Fernandez Viloria/Reuters

O relatório dos serviços de informação, mantido em sigilo, foi encomendado por altos funcionários da administração, e a CIA deveria continuar a fornecer recomendações semelhantes sobre a situação da liderança na Venezuela, segundo várias fontes que falaram anteriormente à CNN.

Após a captura de Maduro, a CIA concentra agora os seus esforços para exercer discretamente a influência dos EUA dentro das fronteiras da Venezuela e avaliar o desempenho da nova liderança que ajudou a instalar.

No entanto, as autoridades norte-americanas envolvidas nas discussões iniciais de planeamento ainda aguardam que a Casa Branca articule claramente os seus objetivos mais amplos, apesar das declarações do presidente Donald Trump de que a sua administração iria “governar" o país após a captura de Maduro.

"Isso dificulta as coisas", reconheceu outra fonte próxima das discussões, acrescentando que as autoridades norte-americanas planeiam estabelecer uma presença dentro da Venezuela e esperam definir o objetivo concreto mais tarde.

Como resultado, os planos a longo prazo da administração Trump para a Venezuela permanecem em sigilo, incluindo o calendário para a reabertura da embaixada americana em Caracas.

Os EUA retiraram os seus diplomatas e suspenderam as operações na embaixada em Caracas em 2019. A Unidade de Assuntos da Venezuela tem operado com uma equipa de diplomatas norte-americanos na embaixada em Bogotá.

Na semana passada, o Departamento de Estado anunciou a nomeação da diplomata veterana Laura Dogu para liderar a Unidade de Assuntos da Venezuela. O cargo era anteriormente ocupado pelo embaixador interino dos EUA na Colômbia, John McNamara.

Um alto funcionário do Departamento de Estado adiantou que o plano da administração dos EUA para a Venezuela "exige um Encarregado de Negócios a tempo inteiro na Unidade de Assuntos da Venezuela" e que "Laura Dogu está bem posicionada para liderar a equipa durante este período de transição".

Embora o Departamento de Estado tenha identificado alguns diplomatas específicos que planeia enviar de volta para a Venezuela, os funcionários envolvidos nas discussões de planeamento disseram à CNN que não receberam planos ou orientações concretas por parte de altos funcionários da administração ou da Casa Branca.

Os passos que ainda faltam para reabrir a embaixada

O Departamento de Estado iniciou os primeiros passos para a reabertura da embaixada.

No início de janeiro, pouco depois da deposição de Maduro, uma equipa de pessoal diplomático e de segurança da Unidade de Assuntos da Venezuela foi enviada para a embaixada na capital venezuelana “para realizar uma avaliação inicial para uma possível retoma gradual das operações”.

Um alto funcionário do Departamento de Estado adiantou na segunda-feira que “um número limitado de pessoal diplomático e técnico dos EUA está em Caracas a realizar avaliações iniciais para uma possível retoma gradual das operações”.

Entrada da Embaixada dos EUA em Caracas, Venezuela, em outubro de 2025. Stringer/Reuters

Alguns funcionários estavam encarregados de guardar o edifício em Caracas durante a ausência diplomática, mas, segundo uma fonte ligada ao processo, isso não garante que o edifício estará em condições para retomar as operações rapidamente.

Estas visitas demonstram o desejo da administração norte-americana de restabelecer uma presença diplomática na Venezuela, onde Trump disse que os Estados Unidos vão "governar".

Antigos diplomatas avisaram anteriormente que a falta de presença americana no terreno representaria um desafio para a reconstrução e para a garantia de responsabilização na Venezuela. Trump disse que quer ver as empresas petrolíferas norte-americanas retomarem as suas operações no país e ajudarem na sua reconstrução. O presidente norte-americano revelou, na semana passada, que os EUA receberam um “pedido” para reabrir a embaixada, sem adiantar mais detalhes.

A situação de segurança na Venezuela também permanece incerta e poderá ter impacto nos planos da administração Trump. Os diplomatas não são geralmente treinados para se protegerem, o que é uma das razões pelas quais a CIA espera assumir um papel significativo desde o início, enquanto a Venezuela permanece num estado de transição política.

Resta saber como irá reagir o povo venezuelano a uma presença mais ostensiva da CIA no país após a saída de Maduro do poder. Durante anos, Maduro apresentou a CIA como um bode expiatório conveniente, acusando repetidamente a agência – sem provas – de tentar derrubar o seu regime enquanto se agarrava ao poder apesar da oposição dos EUA.

Agora, a CIA ajudou a depor Maduro e está preparada para auxiliar ativamente na gestão das relações da administração Trump com a nova liderança da Venezuela.

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