A detenção noticiada de Nicolas Maduro, na madrugada de 3 de janeiro de 2026, marca um ponto de rutura que vai muito para além da Venezuela. O episódio, atribuído a uma operação liderada pelos Estados Unidos, expõe a tensão latente entre a ordem liberal-capitalista e regimes que, como o chavismo, se mantiveram impermeáveis ao modelo económico dominante.
Donald Trump nunca escondeu o desejo de pôr termo ao regime chavista. Não apenas por razões ideológicas, mas porque a Venezuela representa uma anomalia estratégica num continente onde, na perspetiva do presidente americano, o capitalismo de mercado deve ser a norma. O controlo estatal do petróleo, a hostilidade ao investimento privado internacional e a proximidade a potências rivais tornaram Caracas um símbolo de resistência à ordem económica americana.
As acusações de narcotráfico que enquadram a operação são graves e plausíveis. Ainda assim, num mundo que pretende reger-se por regras, essas razões exigem sempre o respeito pelo direito internacional e pelo enquadramento do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Quando a ação parece ocorrer à revelia desses mecanismos, instala-se uma ambiguidade perigosa. Na prática, combate-se o crime, mas fragiliza-se a arquitetura legal global.
Se, como vários analistas admitem, a operação teve contornos de invasão encoberta, então estamos perante um precedente com custos sistémicos. Não apenas para a soberania dos Estados, mas para a credibilidade do próprio Ocidente enquanto defensor da legalidade internacional.
Paradoxalmente, ao tentar eliminar um regime hostil ao capitalismo, Washington pode estar a acelerar o seu oposto. Pode estar a contribuir para a consolidação de um bloco económico e político alternativo. As fricções acumuladas com Rússia, China e o bloco BRICS (agora munido de uma moeda própria, a Unit) mostram que a hegemonia americana já não é um dado adquirido.
Trump enfrenta uma encruzilhada histórica. A força pode resolver um problema imediato, mas pode também acelerar o declínio de uma ordem que os Estados Unidos lideraram durante décadas.