"Pensei que a casa me ia cair em cima": Daniel agarrou-se ao que podia enquanto Caracas tremia. "Tínhamos uma luz no fim do túnel e agora voltamos a isto": Susan viveu de longe mais uma ferida da Venezuela

25 jun, 21:00
As imagens da destruição provocada por um sismo na Venezuela (Ariana Cubillos/AP)
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Uma venezuelana em Aveiro passou a noite a tentar ligar para Caracas, entre chamadas falhadas, nomes por confirmar e o medo que não cabe no telefone - “é muita incerteza, é horrível”. Um lusodescendente, a dez quilómetros da capital venezuelana, sentiu a casa tremer, agarrou-se ao caixilho da porta e viu a rua encher-se de pessoas “assustadas e a rir ao mesmo tempo”. Susan Marques e Daniel Baptista viveram o mesmo terramoto de lugares opostos: ela pelas mensagens que não chegavam, pelos familiares por localizar e pela Venezuela que voltava a ferir-se; ele pela casa às escuras, pela espera de saber o que tinha acontecido e pelo medo das réplicas. O balanço continua provisório, mas os dois sismos, de magnitude 7,2 e 7,5, deixaram mais de duas centenas de mortos, centenas de feridos e um país inteiro à espera de notícias, ajuda e do que ainda pode vir

Às onze da noite em Portugal, Susan Marques deixou de conseguir dormir. 

Em Caracas, do outro lado do telefone, ainda era noite e a distância já tinha começado a medir-se em chamadas falhadas, grupos de WhatsApp, mensagens cruzadas, nomes que apareciam e nomes que continuavam em silêncio. A venezuelana, 49 anos, a viver em Aveiro, tentava chegar aos primos, aos filhos dos primos, aos vizinhos da zona onde viveu e às pessoas da agência de viagens que mantém na Venezuela. Ia de contacto em contacto, como se a insistência pudesse encurtar o Atlântico.

“Foi uma noite terrível, porque comunicávamos com uns, não conseguíamos comunicar com outros, e havia pessoas que me ligavam para eu tentar fazer a ponte com outras. É muita incerteza. É horrível.” 

Faltava um primo. Depois apareceu. 

A família dele também estava bem. Só então Susan pôde dizer a frase que se procura primeiro, mesmo quando tudo o resto continua por resolver: “A nível dos meus ficou tudo bem”.

A cerca de dez quilómetros de Caracas, Daniel Baptista não precisou que ninguém lhe contasse que aquele terramoto era diferente. 

Sentiu-o antes de saber a magnitude, antes das imagens, antes do balanço, antes de conseguir ligar a alguém. Vive numa casa de três andares, fora do centro da capital venezuelana, e quando o chão começou a mexer procurou o que havia de mais fixo. “Começou a tremer com força. Eu não sentia um tremor assim desde pequeno. Começou a aumentar, a aumentar. Quando uma pessoa pensava que já não ia parar, agarrei-me ao caixilho da porta de casa. Pensei que a casa me ia cair em cima.” 

A seguir veio a escuridão. “Foi-se a luz, foi-se a eletricidade, foi-se tudo. Ficámos sem internet. Fiquei sem saber o que tinha acontecido.”

Foi assim que a mesma noite se partiu em duas geografias. Em Caracas, o corpo agarrado a uma casa que deixara de ser quieta. Em Portugal, o telemóvel preso à mão. 

Daniel, lusodescendente venezuelano, 50 anos, conhece os pequenos sismos de uma vida inteira num país sísmico. Susan também. Nenhum dos dois fala deles como surpresa. Falam deste como outra coisa, uma diferença percebida antes de ser medida. Susan lembra os abalos anteriores como episódios quase administráveis. “Eu já passei por vários. Mas eram sismos em que uma pessoa estava no escritório, ficava tranquila, esperava uns segundos, ia para a rua, esperava mais um pouco, havia uma réplica ou outra, e não havia nenhum problema. Mas assim como isto, não.”

Daniel foi buscar a memória da mãe. Tinha chegado de Portugal à Venezuela quando viveu o terramoto de Caracas de 1967, uma lembrança que ficou na história da família e da cidade. Agora, a comparação voltou. “O de 1967 foi vivido pela minha mãe. Eles tinham vindo de Portugal para a Venezuela. Estavam cá há um ano, ou há menos de um ano, e caiu-lhes o terramoto em cima. Foi horrível. Mas este foi pior, porque foram dois. Foram dois ao mesmo tempo.”

Os dados conhecidos, entretanto, ajudam a perceber essa perceção. A Venezuela foi atingida por dois sismos muito fortes em sequência, primeiro um de magnitude 7,2 e depois outro de magnitude 7,5, separados por menos de um minuto. 

O país acordou para prédios caídos, buscas em escombros, feridos, mortos, réplicas e uma contagem ainda provisória. Nas primeiras horas, porém, a catástrofe ainda não cabia em números. Cabia em mensagens curtas, em telefonemas que caíam, em imagens soltas, em pessoas a repetirem a mesma palavra.

Susan recebia tudo por pedaços. “De Caracas, não consigo ter televisão local para ver as notícias. É tudo pelas redes sociais, pelos canais de WhatsApp e por aí.” O que lhe chegava de quem tinha vivido a noite era sempre parecido. “Todos diziam o mesmo: que foi horrível. A palavra era essa: horrível. E choravam.” Na zona onde Susan viveu, Los Palos Grandes, bairro da zona leste de Caracas, no município de Chacao, chegaram-lhe relatos de quatro prédios caídos. Era preciso confirmar edifícios, ruas, familiares, conhecidos, vizinhos, trabalhadores, o escritório. 

Susan trabalha em viagens há 30 anos e, de repente, o seu trabalho também ficou preso ao terramoto: o Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em Maiquetía, principal porta aérea de Caracas, estava inoperacional, e aquilo que para muitos era uma tragédia distante passou a ser também uma lista de passageiros, voos em trânsito, companhias aéreas sem resposta e férias que começavam no fim de semana errado. “Agora é tentar perceber como está o prédio, como está a loja, como está tudo. É levar os computadores, os portáteis, para casa, ver os voos, perceber como vamos reprogramar tudo, porque não temos aeroporto, não é? Está tudo colapsado. Estamos à espera de informações das companhias aéreas.”

A vida prática entrou pela tragédia dentro. Havia voos cancelados, passageiros para reencaminhar, famílias que já estavam de férias ou a caminho delas, alternativas ainda incertas em Valência, Maracaibo, Curaçau ou Las Piedras. Susan ouvia nomes de aeroportos e hipóteses de solução, mas nada era seguro, porque aterrar um avião não é apenas encontrar uma pista. É saber se há pessoal, se há programação, se há condições, se há país para receber quem chega. “É toda uma logística sobre a qual ainda não sabemos absolutamente nada. Sei que os voos estão todos cancelados, isso sim.”

Daniel, por sua vez, decidiu não sair de casa ainda, não “logo, logo”. Não era medo abstrato nem falta de vontade de perceber o que se passava à volta. Era mais uma forma de prudência. Depois de um terramoto, até a rua pode deixar de ser caminho. Anda de mota, conhece a zona, mas percebeu que bastava uma coisa fora do lugar para transformar a curiosidade em risco. “Não saí daqui porque há muitos postes de alta tensão e podem cair cabos em cima de uma pessoa. Ou seja, não é recomendável sair até alguém verificar isso.”

Quando as comunicações melhoraram um pouco, Daniel ligou ao irmão, em Sabana Grande, zona central de Caracas. Do outro lado veio outra imagem da noite: pessoas a dormir na praça porque os edifícios antigos, construídos na década de 50, já não ofereciam a confiança mínima que um edifício deve oferecer depois de a terra se mexer. “Ele disse-me que foi horrível, que tiveram todos de dormir na praça, porque os edifícios não ofereciam segurança. São edifícios muito antigos. E, bem, dá medo.”

Há uma forma particular de medo quando a casa deixou de ser abrigo e a rua ainda não é segurança. Daniel reconheceu-a nos outros, mas também reconheceu uma maneira de reagir que talvez só pareça estranha vista de fora. “As pessoas estão na rua, a falar, a rir, assustadas, mas a contar o que aconteceu, assustadas e a rir ao mesmo tempo. Ou seja, não é um caos.”

Não é indiferença. É mais defesa. A maneira de continuar inteiro num país habituado a que a normalidade tenha sempre alguma coisa de emergência. Daniel não a romantiza. Coloca-a no terreno da sobrevivência. “Acho que é um mecanismo de defesa psicológico. Com tantos problemas como as pessoas têm, se uma pessoa se põe só a sofrer, é pior.”

A Venezuela que tremeu nesta noite já vinha ferida. Susan olha para o país como quem vê uma esperança interrompida. Daniel mede-o em anos de desgaste. “A Venezuela sofreu 25 anos de destruição consecutiva. Tem sido difícil. E agora, acontecer-nos isto, era o que faltava.”

Quando olha para os próximos dias, Daniel começa por admitir o que falta ao país e acaba no que ainda resta às pessoas. A capacidade de resposta, por si só, não chega. A ajuda internacional começava a ser anunciada, com equipas de resgate, países da região e apoio a caminho, mas o primeiro recurso que lhe ocorre está mais perto. “As pessoas aqui são muito boa gente. Toda a gente se ajuda. Isso, a Venezuela tem. Toda a gente vai ajudar: o vizinho, o amigo, pessoas que uma pessoa nem conhece vão ajudar, porque é assim. Aqui estamos habituados a fazer isso.”

Susan pede o mesmo, mas da outra margem. Não fala de hospitais, clínicas, aeroportos e ruas como peças isoladas de um desastre. Fala de um país com pouca margem para mais uma prova. “Espero ajuda. Espero ajuda, sobretudo dos países de fora: dos Estados Unidos, da Europa. Lamentavelmente, a Venezuela não tem suporte para o que está a acontecer. Não há hospitais com material médico, as clínicas também não conseguem responder ao que está a acontecer. Ajuda. Ajuda: é isso que eu peço.”

A noite já ia longa em Portugal quando Susan percebeu que a família mais próxima estava contactada. Eram oito pessoas, entre primos, filhos de primos e várias famílias. Ainda assim, o alívio não apaga a vigília. À distância, uma tragédia continua a acontecer mesmo quando os nossos estão vivos. Continua no escritório por avaliar, nos voos cancelados, nos grupos de vizinhos, nas imagens que chegam tarde e num país outra vez suspenso.

“Não tenho palavras para descrever isso”, admite Susan. “Agora tínhamos uma luz ao fundo do túnel, uma esperança, e agora voltamos outra vez a isto. Realmente, não sei. Não tenho palavras. Temos de ter fé, mas... uau: é muito forte.”

Daniel também termina no lugar onde o medo se cruza com uma espécie de acerto de contas. As réplicas continuam a preocupar. Há edifícios que podem não resistir a outro abalo forte. Há noites em que uma pessoa percebe que a vida podia acabar ali, num segundo a mais, e a partir daí já não fala apenas do terramoto, mas da maneira de viver depois dele. “Uma pessoa tem de tentar procurar sempre o lado positivo das coisas. Porque nunca se sabe. Ontem, por exemplo, podia ter-me caído alguma coisa na cabeça e matado. Portanto, temos de viver a vida como a temos vivido.”

Em Aveiro, Susan ainda se desculpou pelo “portunhol”, a rir-se dos próprios nervos. Em Caracas, Daniel falava num castelhano acelerado, prometendo ficar atento se fosse preciso voltar a ligar. A conversa terminou assim, de um lado e do outro do Atlântico: com gente à procura de notícias, à espera de ajuda e ainda sem saber o que podia vir a seguir.

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