Há 50 anos, Pompílio da Cruz era o "candidato dos refugiados" nas Presidenciais. Só nunca foi candidato

7 fev, 08:00
Venceslau Pompílio da Cruz, o "candidato dos refugiados" nas Presidenciais de 1976

Em 1976, Venceslau Pompílio da Cruz chegou a entrar no sorteio das Presidenciais e apareceu em telexes e crónicas estrangeiras como “o candidato dos refugiados” vindos de África. Leia-se: retornados. Mas na urna nunca existiu: o Supremo Tribunal de Justiça travou-lhe a corrida por falta de assinaturas e Portugal votou com apenas quatro candidatos. Meio século depois, regressa em fragmentos, um engenheiro vindo de Angola que queria falar por “um milhão”, um dirigente de associações de retornados que procurou o tempo de antena para acusar a descolonização, e, no fim, um nome seco num édito de 23 de novembro de 2009, a chamar herdeiros ao Cofre de Previdência das Forças Armadas, como se a vida acabasse num carimbo

O nome dele acaba num edital.

Em 23 de novembro de 2009, o Diário da República chama-o pelo lado frio do Estado, aquele lado em que os nomes regressam quando já não têm voz. Um édito, um prazo de 30 dias, uma fórmula de habilitação para “pessoas que se julguem com direito” a receber subsídios legados do Cofre de Previdência das Forças Armadas. No meio de outros, aparece ele, com grafia sem acentos e sem biografia, reduzido a uma linha que parece ter vindo de outro tempo: “Venceslau Pompilio da Cruz”. A seguir, o número de subscritor, 106.348, e um posto, GMAR. A seguir, o silêncio. Não há Tavira. Não há Angola. O livro ditado “em fúria” não cabe. Cabe o carimbo. E fica, implícita, a hipótese de que talvez ninguém venha buscar o resto. Não é dramático, é só administrativo. É assim que um país aprende a esquecer.

Pouco depois, já em janeiro de 2010, a vida reaparece noutro papel, com outra temperatura, como se o arquivo tivesse várias portas e nem todas fossem de Estado. No Boletim da Associação dos Pupilos do Exército, Augusto Dias escreve uma evocação de tom cerimonial, “Eng.º Pompílio da Cruz, figura notável de pupilo”, e cola-lhe uma fotografia do Arquivo Histórico da Biblioteca Central da Marinha. A legenda é uma pancada de farda: “Segundo-Tenente Venceslau Pompílio da Cruz”. Aí, a biografia começa como começam as vidas quando ainda não são mito: data, filiação, disciplina, número. Nasceu a 28 de setembro de 1908, na freguesia de S. Tiago, Tavira, filho de Joaquim Edmundo da Cruz e de Maria Luiza Batista Cruz. Aos 12 anos, a 6 de novembro de 1920, entra no Instituto Profissional dos Pupilos do Exército de Terra e Mar com o número 255 e recebe o nome interno de “pilão”. Faz cursos, passa por S. Domingos de Benfica e pela Estrada de Benfica, aprende comércio e indústria, máquinas e electrotecnia, entra numa equipa de esgrima, disputa com o Colégio Militar a Taça Challenge. No fim do ano lectivo de 1928/1929 entra na Escola Naval, torna-se Engenheiro Maquinista Naval da Marinha de Guerra Portuguesa, atinge o posto de guarda-marinha. Depois, anota o boletim, “por conveniência própria”, deixa de prestar serviço.

Antes de tudo isto ser boletim, já tinha sido jornal de província, essa prova que parece pequena porque é rotina. Em setembro de 1930, O Povo Algarvio regista uma chegada de férias: “Já se encontra entre nós o Sr. Wenceslau Pompilio da Cruz, Dg.mo Aspirante da Escola Naval”. Na mesma página, um aniversário ao “dia 28”, sem mês, porque o calendário local faz-se assim, por proximidade e hábito. Cinco anos depois, em abril de 1935, o mesmo jornal conta um incêndio a bordo do navio República, no Lobito, na então Divisão Naval de Angola, e fixa a frase com orgulho de terra: “À coragem do 2.º tenente Sr. Venceslau Pompilio da Cruz”, que entra “sozinho no porão”, munido de agulheta, resiste ao fogo e ao fumo “até que caiu inanimado”, salva-se, convalesce, recebe louvor confirmado no topo da Armada. Em maio de 1948, uma nota familiar, quase escondida num obituário, prende-o a outra fórmula: “Agente técnico de Engenharia.” A farda vira técnica, a técnica vira destino.

Venceslau Pompílio da Cruz, candidato presidencial em 1976, na sombra de um país a refazer-se: fala como quem quer representar os retornados e a guerra que ficou por fechar, mas a candidatura acabaria travada antes de chegar ao boletim. Foto: Peter Collis/Casa Comum

A evocação dos Pupilos coloca esse destino num mapa de minério e electricidade. Em 1937, já fora da Marinha, entra no “staff sénior” das Minas da Panasqueira como Engenheiro Chefe da Lavaria, junto ao Zêzere, onde o tout venant se transforma em concentrados de volframite, volfrâmio ensacado e expedido para o estrangeiro “por preços muito significativos”, escreve o boletim, e a frase traz consigo a sombra de um país que também se fez de tungsténio e guerras alheias. Depois, por volta de 1948, está em Luanda, nos Caminhos-de-Ferro, e na Câmara Municipal, nos serviços de águas e electricidade. Um engenheiro faz isto: põe as coisas a funcionar.

A política, porém, entra-lhe como febre. Ou talvez sempre lá tivesse estado e só mudasse de máscara conforme o regime mudava de nome. E é aí que a biografia começa a andar ao lado de si própria: uma vida pública a contradizer uma vida íntima, um homem a construir-se contra tudo e depois a ser usado como símbolo por quem o queria preso num rótulo.

Em 1976, quando o país se prepara para votar para Presidente da República pela primeira vez em liberdade, Venceslau Pompílio da Cruz é fotografado como se fosse candidato. Nas imagens, está sentado num sofá baixo, encostado a uma parede de reboco rugoso, apanhado pela luz lateral de uma janela. O cabelo é curto e já quase todo branco, o bigode cheio, a barba aparada em ponta. Usa um fato escuro bem cortado, gravata com padrão geométrico, um pequeno alfinete na lapela e um lenço dobrado no bolso. Tem relógio no pulso e anel no dedo. As mãos falam tanto como a boca, a palma abre, os dedos fecham, há um gesto de quem aponta para o chão como se ali estivesse a prova. Não há bandeiras, não há palanque, há uma sala neutra, um homem e a ideia de que a democracia também se discute assim, em entrevista, em gesto, em frase.

Aquele ano não pede nostalgia nem moral. Pede descrição e contexto, porque foi um tempo em que tudo se moveu depressa demais. Dois anos antes, o regime ditatorial caíra num golpe militar levado a cabo pelo MFA e o país entrara num processo revolucionário com governos provisórios, saneamentos, nacionalizações, confrontos entre partidos e facções, ruas cheias, medo e euforia a alternarem na mesma semana. Ao mesmo tempo, o império colonial, sobretudo em África, desmoronava-se. Portugal negociava independências, assinava acordos, perdia controlo. Centenas de milhares de pessoas que viviam nas ex-colónias regressavam à metrópole com o que conseguiam carregar, ou com nada, alojadas em hotéis, pensões, casas de família, muitas vezes sem emprego e sem rede. O Estado chamou-lhes “retornados”. Muitos chamaram-se “refugiados”. As palavras não eram iguais, porque uma tenta normalizar e a outra tenta denunciar.

É nesse cenário que a imprensa estrangeira fixa Pompílio da Cruz como figura. A 22 de abril de 1976, Marvine Howe, jornalista do The New York Times, escreve de Lisboa sobre o peso político dos refugiados das antigas colónias africanas. Descreve o Rossio como lugar de reunião diária, descreve ataques a caravanas comunistas, comícios perturbados, estima o número de retornados entre 800 mil e um milhão. Conta que milhares encheram o Coliseu de Lisboa para tentar criar um comité de coordenação das organizações de refugiados, até aí dispersas. Enumera alvos da ira — Costa Gomes, Melo Antunes, Rosa Coutinho, Mário Soares — e, no meio desse retrato, surge uma frase curta de Pompílio da Cruz, uma frase que o prende à página como voz de um ressentimento colectivo: “A grande maioria dos refugiados não consegue conceber votar nos partidos que considera responsáveis pelo seu sofrimento e pela sua pobreza”. O artigo identifica-o como engenheiro vindo de Angola, candidato do CDS em Setúbal, cidade industrial com forte presença de retornados. E a lógica aparece ali sem romantismo: os refugiados entram na política como força organizada, podem empurrar o país “à direita”, podem alterar o mapa num regime ainda a nascer.

Antes de ser vitória nas presidenciais de 1976, Eanes já é parede, o mesmo rosto multiplicado, “muitos prometem… Eanes cumpre” a bater como um refrão, enquanto uma mulher passa a cola no papel e ajuda a colar, na rua, a promessa do “candidato de Portugal”. Foto: Arquivo Diário de Notícias/Museu da Presidência

Até aqui, Pompílio da Cruz é Setúbal e legislativas. Mas o homem quer a Presidência. A Presidência, em 1976, era também um símbolo da nova ordem, um árbitro num regime em construção. E a máquina das candidaturas não era romântica. Era judicial. Era prazo. Era papel. Era notário. Era certidão. Era carimbo.

A eleição presidencial foi marcada para 27 de junho de 1976. A janela abre-se em maio e fecha-se depressa. As candidaturas tinham de dar entrada no Supremo Tribunal de Justiça até 28 de maio. No dia seguinte, o juiz presidente fazia o sorteio e enviava o auto para a Comissão Nacional de Eleições e para os governos civis. Seguia-se a verificação: regularidade, autenticidade dos documentos, elegibilidade. O que falhava tinha de ser suprido até 1 de junho. Havia reclamações por dias contados, decisões por dias contados. A relação das candidaturas admitidas tinha de ser afixada à porta do Supremo até 3 de junho. Ainda havia recurso para o tribunal pleno. E, fechada a fase judicial, os governadores civis afixavam por edital as candidaturas definitivamente admitidas até 7 de junho. Mesmo a desistência tinha limite: até 25 de junho, dois dias antes de o país votar.

Nesse corredor estreito, o nome de Venceslau Pompílio da Cruz chega a entrar. Existe uma lista de “Sorteio das Candidaturas” da eleição presidencial de 1976 onde ele aparece alinhado como quarto, entre Ramalho Eanes, Pinheiro de Azevedo, Octávio Pato e Otelo Saraiva de Carvalho. Esse alinhamento dá-lhe um estatuto provisório que, por alguns dias, é estatuto suficiente para existir como candidato — suficiente para as fotografias, para os arquivos, para os telexes, para as crónicas que repetem o nome como se a urna já o tivesse aceitado.

Depois vem a lâmina do procedimento. A correção do The New York Times, publicada a 17 de junho de 1976, corta o mito com uma frase breve: “Um despacho anterior noticiara cinco candidatos à Presidência, mas o número era quatro porque o Supremo desqualificara Wenceslau Pompilio da Cruz, que procurava representar os refugiados portugueses vindos de África”. É uma correção quase técnica. É também um epitáfio.

E quando se abre o mapa oficial do resultado final, publicado em suplemento do Diário da República, a eleição tem quatro colunas e quatro nomes. Ramalho Eanes. Pinheiro de Azevedo. Octávio Pato. Otelo Saraiva de Carvalho. Pompílio da Cruz não está. O “candidato dos refugiados” é o candidato que não chegou a ser candidato.

Para perceber porquê, a melhor fonte não é um adversário nem um aliado. É o próprio, no livro que publica nesse mesmo ano, “Angola — Os vivos e os mortos”.

A Editorial Intervenção publica-o em Lisboa em 1976. O editor, Paradela de Abreu, apresenta o autor como “o candidato dos retornados” e escreve que “todo o país ficou assim a conhecê-lo”. A capa mostra duas crianças, uma branca e uma negra, e o editor fala em traição, em crianças “treinadas para crianças mortas”, numa visão em que a descolonização não é libertação nem transição, é uma queda moral. O editor afirma que Portugal “não perdeu a guerra” e que essa é “a tese de Pompílio da Cruz”. E atira a provocação política: “Os que apoiam o PCP, os que gritaram histericamente nas ruas e nos comícios de Lisboa pela unidade com o PCP, serão secretamente comunistas ou apenas estúpidos.” O país, ali, não é debate, é ringue.

As dedicatórias são ainda mais directas. O livro é dedicado “aos mortos, sacrificados pela traição”, “aos vivos, transformados em refugiados e apátridas pela covardia”, “às Forças Armadas”, com uma frase de Abraham Lincoln sobre um país não poder ser "metade livre e metade escravo”. E é dedicado a “Oli” e à filha “Xana”, que “sofreram como eu o exílio, a perseguição, a fome e a sede”. O prefácio recusa a palavra memórias e logo a seguir mergulha nelas, como quem diz uma coisa para se proteger e faz outra para se vingar. O que vem é uma narrativa de império perdido contada como se a História estivesse a ser roubada em tempo real. O autor diz que o livro é “ditado”, como se a urgência não tivesse paciência para a escrita. Define o pós-25 de Abril como tempo “de sofrimento, de injúria e de injustiça”. A revolução aparece como “Cravo Vermelho”, um símbolo “sangrento” — curiosamente, na capa de “Angola — Os vivos e os mortos” as crianças surgem com o cravo na mão. E a frase que organiza a visão do mundo surge repetida como martelo: “Nunca aceitei e continuo a não aceitar a palavra descolonização”.

O núcleo ideológico do livro gira à volta disso: a palavra “descolonização” como vergonha, como operação pejorativa, como falsificação. A revolução, para ele, é “um grande equívoco”. Tudo “se baralhou, se esfrangalhou”. Uma “minoria de palhaços fardados” conduziu Portugal à anarquia. E a imagem imperial aparece com simplicidade quase infantil: “O tronco nunca abandona a flor”.

Mas este homem, no próprio livro, não nasce apenas colonialista. Nasce, ou apresenta-se, com um passado que pede outros rótulos e que ele próprio oferece. Um rapaz que escreve “sobre democracia”. Um jovem catalogado como “quase comunista”. “Um conspirador contra a ditadura.” Um perseguido da PIDE.

O primeiro capítulo chama-se “Apelos do mar e das Áfricas” e começa com uma frase que ele escreve como destino: “O mar vinha bater à minha porta.” Ao fundo, a praia. Uma casa pobre “de marítimos”, como chamam no Algarve aos pescadores. Há o avô, as campanhas de pesca, a avó na cozinha, a mãe a fazer contas, o mar sempre ali, a bater perto. O pai regressa do ultramar, combateu em Moçambique na guerra de 1914-1918 e apaixona-se por África. Em serões longos descreve viagens e sofrimentos “numa voz calma e saudosa”. Traz um cão chamado Naulila, nome de uma batalha, e conta o cerco, “oito dias cercados por alemães, comendo ervas e bebendo água dos pântanos”. A África alia-se ao mar nos anseios do menino. O mar e a África como chamamento duplo.

“Angola — os vivos e os mortos”, de Pompílio da Cruz, publicado em 1976: o livro reúne o testemunho do autor sobre a descolonização e a guerra em Angola, num ano marcado pelo regresso de milhares de portugueses e pelo debate político em Portugal sobre o fim do império

Em “Primeiros Passos”, a família não quer que siga o destino de pescador. “O neto mais velho tem de ser alguém que dê orgulho.” O pai acompanha-o a Lisboa para o inscrever nos Pupilos do Exército. A viagem de Tavira à capital dura quatro dias. “Entrei a chorar nos Pupilos do Exército”, escreve, pela separação e pelo cabelo “cortado à escovinha”. Diz que nesses anos se preocupava “em defender os desprotegidos". Respeita a disciplina e é bom aluno, mas torna-se “irreverente", revoltado contra regras. Os Pupilos moldam-lhe o carácter e “consciencializam-no politicamente”. Aos 14 anos escreve o primeiro artigo para o jornal de Tavira, O Séqua, defendendo “intransigentemente a democracia”. Lê tudo o que lhe cai nas mãos. “Os princípios socialistas não me eram estranhos.” Por isso, “catalogavam-me como um quase comunista”. E, logo a seguir, a frase que abre a fissura: “Mas a verdade é que estava muito distante de aceitar o comunismo”.

É aqui que o homem fica difícil e, por isso, interessante. Porque o oposicionista e o “quase comunista” é o mesmo que, décadas depois, escreverá com saudade imperial e chamará “traidores” aos responsáveis pela descolonização. O texto não resolve essa contradição com julgamento. Segue-a, deixa-a andar, deixa-a bater nas paredes.

Em “Conspirações Revolucionárias”, abandona os Pupilos depois do curso de engenheiro auxiliar de máquinas, assenta praça como primeiro-sargento-cadete de engenharia no Parque Automóvel Militar, depois batalhão automobilista, na Avenida de Berna. Continua a estudar e a “tirocinar nos Caminhos-de-Ferro”. Um castigo apressa a decisão do “sonho de sempre”: alistar-se na Marinha, concorrer à Escola Naval. Aí entra na maçonaria, escolhe o nome de código “Cavaleiro Negro”, e escreve que isso coincide com a “aberta atividade no campo revolucionário”. A ditadura militar tornava-se sufocante e ele, por formação, “era contra totalitarismos e intolerância”. Diz que se deslocava “com regularidade do Minho ao Algarve, incentivando células revolucionárias”. “As revoluções falhavam todas.” Porquê? “Porque aqueles que mais se comprometiam eram os que ficavam em casa.”

Depois vêm prisões e grades, e a proteção de Mesquita Guimarães, almirante e antigo professor. A polícia política entrega ao almirante relatórios sobre os seus passos. Ele inventa histórias para se desculpar. Quando já não consegue inventar novas histórias, resolve casar-se, vai ao Algarve com frequência e usa a noiva como álibi. “Na verdade, o que tinha no Algarve era um namorico.” E deixa a frase que parece romance e confissão: “Para não ir para a prisão, fiquei prisioneiro”. Ao mesmo tempo, afirma que atingiu “o mais alto grau da maçonaria”. Vulnerabilidade e auto-mitologia no mesmo parágrafo.

Depois vem Angola, “Angola namorada”, e a frase quase bíblica ao entrar na baía de Luanda: “Descalça as sandálias, que são sagradas as terras que pisas”. Diz que em 1934 Luanda “não tinha água nem luz nem ruas asfaltadas”. Conta comissões e viagens, Itália, Suécia, Grã-Bretanha. Tenta ficar em Angola, insiste, “mas os pedidos são indeferidos pelo ministro da Marinha”. A vida volta a Lisboa e à prisão com a Revolta da Armada de setembro de 1936. Colocado no contratorpedeiro Dão, acaba na cadeia e entregue à PIDE. “Estive 58 dias incomunicável.” Perde a carreira, passa a licença ilimitada sem vencimentos. Trabalha para a Krupp como engenheiro especializado em máquinas e ferramentas. Vai para a Panasqueira. Dá aulas na Escola Industrial Tomás Cabreira, em Faro. A polícia tenta impedir-lhe a ida para Angola. “Ao fim de quase um ano consegui.” Volta em 1943. Passa pela Companhia do Açúcar, pelos Caminhos-de-Ferro de Benguela, vive em Nova Lisboa. Diz que “reacende atividade política” quando lhe propõem criar o Partido Socialista de Angola. Em 1948 recebe um telegrama para colaborar na propaganda da candidatura de Norton de Matos à Presidência. É identificado como “comunista angolano". Mandam-no sair. Recusa. Fecha-se tudo. Só mais tarde entra na Câmara Municipal de Luanda como engenheiro-chefe. A campanha de Humberto Delgado passa por Luanda como tempestade. “Sou despedido e readmitido.” Adere à causa monárquica “sem abdicar da oposição ao salazarismo”.

Até aqui, a narrativa é a de um opositor. E depois o livro endurece e escreve a guerra colonial com um vocabulário que hoje soa brutal. Chama “terrorismo” aos movimentos de libertação, descreve-os como “selvagens drogados”. Escreve a guerra com canhões e metralhadoras no vocabulário, e coloca-se no centro dela “como organizador, propagandista”, autor de manifestos, alguém que quer ter sido peça e motor. E, ao mesmo tempo, insiste no escudo: “Não sou nem nunca fui fascista, sou um democrata progressista”. 

Nas presidenciais de 1976, num corredor de assembleia de voto, uma eleitora para diante da folha afixada com a lista de candidatos, como quem confirma um nome antes de entrar. Foto: Carlos Gil/Casa Comum

No meio do livro, surgem confissões sob a forma de arrependimento que expõem um homem a escrever sem filtro. Lamenta “não ter permitido o rapto do general Silvino Silvério Marques”, planeado no aeroporto. Lamenta “não ter consentido o assassínio de Rosa Coutinho” à chegada a Luanda. Não são rumores, não são terceiros. São palavras do próprio, deixadas como se fossem prova de coragem ou de desespero. 

É também no livro que ele explica, do ponto de vista dele, a FRA, Frente de Resistência Angolana. “Em 19 de julho de 1974, nasceu a FRA”, escreve, com a ideia de preparar uma “ação psicológica” e tornar a população “recetiva a um possível golpe de Estado”. Nessa reunião, diz, participaram Jaime Nogueira Pinto, Nuno Cardoso da Silva, Vasco Silvério e ele. “A FRA falha por desonestidades, erros, traição e egoísmo.” E há uma cena contada como se estivesse a acontecer: o aparato militar em frente à sua casa, homens a saltar muros, G3 empunhadas, o prédio invadido para prender “um homem só”. Ele foge, deixa crescer barba e bigode, põe óculos escuros, vai para a África do Sul. Regressa. Muda-se para um rancho no deserto de Moçâmedes. Porquê? Conta a existência de um “esquadrão da morte” dentro da FRA, com assaltos e ataques, lista nomes, garante que “não fazia parte”, afirma que o chefe de segurança do MPLA até o conhecia e estava certo da sua “inocência”. São páginas de clandestinidade, paranoia e auto-justificação, já com Lisboa no horizonte e com a sensação de estar a ser expulso de todos os lados.

Depois vem o êxodo. A palavra “retorno” é pequena demais para a cena que ele descreve. “Caixotes martelados dia e noite.” E filas de quilómetros. Cais. Aviões e navios insuficientes. Um plano de “caravana humanitária” com dois mil pesados e 600 ligeiros, comunicações rádio, assistência médica, cozinhas e alimentos, um percurso que atravessaria a Zâmbia, contornaria Brazzaville e entraria "em países mais hospitaleiros”. Emissários enviados ao Alto Comissariado, à Cruz Vermelha, ao Governo de Lisboa. “Quebraram-se os elos da cadeia”, escreve, porque o MPLA “não deixou passar”. A independência surge como “intransigência e crueldade.” O recheio da sua casa, escreve, “ficou para confortar um dirigente do MPLA”. A perda material torna-se prova moral.

Num pavilhão improvisado de acolhimento no pós-25 de Abril, entre fardos, malas e colchões no chão, as crianças olham de frente para a câmara enquanto os adultos esperam que a vida recomece. Foto: Alfredo Cunha

A chegada a Lisboa é contada com pobreza quase cinematográfica. No aeroporto, e ainda em Angola, “insultos e agressões”, acusações de “reacionário e imperialista”. Detenção. Libertação “sem explicação”. E a frase que ele fixa como defesa e faca, sem precisar de adjetivos: à chegada a Lisboa, tem uma nota de 10 francos no bolso, 61 escudos ao câmbio, dada pela sua filha. “Não se pode dizer que voltei rico depois de quatro décadas a explorar os negros.”

Já em Portugal, atira-se às instituições criadas para gerir o drama. O IARN, Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, surge como alvo e insulto: “Um covil de banditismo”. Nada planeado, nada organizado, nada previsto. Funcionários ladrões. Senhas de alimentação a acabar. Menores sem pais sem auxílio. E a tese moral que atravessa o livro, dita com uma espécie de exaustão: os refugiados “não precisavam de caridade, precisavam de trabalho, justiça, compreensão”. Integra o GRIP, Grupo de Refugiados Independentes de Portugal. e depois o CSI, Centro Social Independente, tentando transformar indignação em pressão.

O CSI escreve comunicados a pedir intervenção ao Presidente da República e ao Conselho da Revolução. “Rogamos interferência”, escreve, pedindo uma solução “humana e justa”. E há uma noite que o livro fixa com a precisão de quem quer provar que foi real: “18 de maio de 1976, duas horas da manhã”. Um mar de gente sai do Pavilhão dos Desportos, no Parque Eduardo VII, depois de um comício do CSI, e dirige-se para o Cais do Sodré, para apanhar comboio para a Linha do Estoril, “onde muitos estavam alojados em hotéis fixados pelo Governo”. Ao chegarem, escreve, “encontram entradas obstruídas por bancos”. A PSP vai ao encontro, “fala rispidamente”, agride os da frente, “incluindo senhoras”. O conflito gera-se. E então ele escreve a frase que pede aspas e pede silêncio em volta: “Os agentes abriram fogo sobre a multidão”. “Forças de choque emboscadas atrás dos comboios carregam sobre toda a gente e perseguem grupos em fuga até ao largo da Assembleia da República.” Há feridos. Ele acusa a imprensa de, em grande parte, “falsear relatos” com base em informações governamentais. “O CSI não apresentou queixa”, escreve. Três dias depois ainda se hesitava quando, no Hotel Penta, cinco dirigentes do CSI lhe pedem que aceite a candidatura à Presidência.

É aqui que a candidatura entra como manobra política e como desespero. O prazo era curto, 11 dias para obter 7.500 assinaturas. Não havia dinheiro. “Ninguém contribuiu com verbas apreciáveis”, escreve. Mas havia um objetivo, dito de forma nua, quase estratégica: “Impunha-se aproveitar o tempo de antena da rádio e da televisão proporcionado por lei aos candidatos para denunciar erros e esclarecer a descolonização”. A candidatura, no livro, não aparece como capricho pessoal. Aparece como megafone.

E o livro volta a mostrar como o homem se via como alvo de todos. Um jornal “da chamada direita” calunia-o, chamando-lhe comunista. “E os jornais comunistas acusaram-me de fascista.” A frase é dele. A mesma página, da candidato a Presidente, fala de dívidas pequenas, na campanha, para a escala da política e “astronómicas para refugiados”. Fala de promessas falhadas. Fala de manipulação. E atira, em excesso, a imagem dos “computadores americanos, alemães, ingleses, franceses e russos” a influenciá-lo negativamente, como se o país fosse governado por teclas invisíveis. Guerra Fria transportada para uma Lisboa de plenários e comícios, mas também de pressões e medos exteriores.

A parte decisiva, porém, é a burocracia, sempre a burocracia. No fim de maio, entregam no Supremo cerca de quatro mil assinaturas reconhecidas em notário e acompanhadas pelas certidões de eleitor, como determinava a lei. E o livro descreve obstáculos práticos que parecem pequenos e são grandes: funcionários do Cartório Nacional “a recusarem reconhecer assinaturas de passaportes oficiais”; “refugiados sem bilhete de identidade metropolitano”; comunicados omitidos com locais de recolha de assinaturas em Lisboa e no Porto; falta de dinheiro para deslocações de Valença a Vila Real de Santo António. No fim, a frase que derruba a candidatura é numérica e sem adorno, como uma porta que se fecha: “Conseguimos 3.058 assinaturas”. Protestaram, escreve, mas não prosseguiram a luta, “para evitar calúnias públicas e prejuízos às associações”, porque escasseava o dinheiro e a esperança.

O Supremo desqualifica. O nome cai da lista definitiva. O The New York Times corrige e explica que afinal eram quatro candidatos. E o mapa oficial publicado em Diário da República mostra quatro colunas, quatro nomes. A democracia começa assim: com princípios e com carimbos, com comícios e com prazos, com a rua e o tribunal a correrem no mesmo calendário.

Pompílio da Cruz ainda faz uma declaração à imprensa, já em junho, apresentando-se como engenheiro e “ex-candidato à Presidência da República”. Queria ser “apenas o candidato português”, diz, alguém que interpretasse “o sentir nacional” e contribuísse para restabelecer “a confiança dos portugueses em si próprios”. E recusa o papel de milagreiro com uma frase curta, de palco e de aviso: “Não sou um taumaturgo”. Não tem “receitas infalíveis” para “livrar Portugal do sangue, do suor, das lágrimas e da miséria que se adivinham”. E deixa uma receita que não é receita, é quase um voto. Continuar portugueses, “genuinamente”, sem “dependências”, essas que “começam por desonrar e acabam por arruinar”.

Pompílio da Cruz em 1976, já com a campanha a pesar no corpo: mãos juntas, olhar de lado, o homem que quis entrar na primeira eleição presidencial da democracia e ficou pelo caminho, entre assinaturas, tribunais e a urgência do pós colónias. Foto: Peter Collis/Casa Comum

No livro, já depois da eleição, volta ao lamento como acusação final. “Não me foi possível levantar perante o povo português a voz que expressasse o drama da minha pátria, de que os refugiados são as maiores vítimas.” O “silenciamento” manteve-se, escreve. E há uma frase que fica a ecoar: “Um milhão de pessoas caladas pela democracia”.

É difícil ler isto hoje sem ver, ao mesmo tempo, a contradição do homem e a contradição do país. Um rapaz de Tavira que escreve aos 14 anos um artigo a defender a democracia e se assume “quase comunista”. Um opositor que descreve conspirações e prisões e se diz perseguido pela PIDE. Um engenheiro que pôs a funcionar lavarias e linhas de caminho de ferro, água e electricidade. E depois um autor que recusa a palavra descolonização, que pede a devolução de Angola, que escreve Angola como “catedral” e “floração de Portugal”, que descreve o êxodo como “cruz” e a metrópole como “hostilidade”. Um homem que se diz “democrata progressista” e deixa, em papel, arrependimentos de rapto e de assassínio. Um homem caluniado como comunista por um jornal de direita e acusado de fascista por jornais comunistas, e que tenta, na confusão de 1976, apresentar-se como “candidato português”.

Há ainda um detalhe que parece pequeno e é, outra vez, rasto. O nome aparece e reaparece com grafias instáveis, Venceslau, Wenceslau, com acento ou sem, às vezes mal escrito. Essa oscilação não é só tipografia. É um homem a atravessar oceanos e regimes, a existir por instantes em listas e notas de rodapé, a desaparecer de novo quando chega a hora do boletim.

Talvez por isso a fotografia de 1976 pese tanto. Não há palanque, não há bandeiras. Há um homem a falar com as mãos, como quem sabe que, no fim, a democracia pode caber num papel.

E quando a história volta ao início, ao édito com 30 dias de prazo, percebe-se a forma particular que um país tem de esquecer. Não é um esquecimento dramático. É um esquecimento em linhas, sem rosto, sem biografia, sem barulho.

O mar vinha bater-lhe à porta em Tavira. Em Lisboa, anos depois, foi o carimbo.

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