As crianças podem ter uma dieta vegetariana? É possível, mas há cuidados a ter

CNN Portugal , FMC
19 nov, 22:00
Vegetarianismo nas crianças

Seja por vontade dos pais, seja por exemplo, cada vez mais crianças são vegetarianas. Mas no caso de uma dieta restritiva é importante o acompanhamento médico

Num mundo em constante mudança, também os hábitos alimentares se têm alterado e cada vez mais assistimos a um aumento de pessoas que optam por uma alimentação vegetariana. O número de adultos que escolhem abolir a carne tem aumentado e, consequentemente, as famílias, o que inclui bebés, crianças e jovens. Apesar de muitos acreditarem ser uma opção mais saudável, algumas questões levantam-se: será uma alimentação correta para as idades mais jovens? A proteína animal não é imprescindível para o crescimento? 

Para muitos, a dieta vegetariana não é uma opção, seja porque defendem não conseguem viver sem carne ou peixe, ou porque acreditam que uma dieta somente à base de vegetais pode ser prejudicial, conduzindo a carências nutricionais. E tal não deixa de ser uma realidade: uma dieta vegetariana, se não for equilibrada, pode levar à falta de nutrientes, como o ferro, a vitamina B12, entre outras, sendo o risco transversal a qualquer idade. Como tal, importa perceber quais os perigos que acarreta e quais os cuidados inerentes para que a saúde seja salvaguardada.

Ana Isabel Monteiro é nutricionista e autora do blogue “Laranja-Lima”, onde partilha receitas vegetarianas e artigos sobre nutrição e vegetarianismo, com um alcance de milhares de seguidores nas suas redes sociais. Vegetariana desde 2018, tem agora um bebé de dez meses, que introduziu na alimentação vegetariana. Por ter noção das dúvidas e da curiosidade sobre este tipo de dieta em crianças, criou a página de Instagram “Francisco.cenouras”, onde partilha uma espécie de diário das refeições do filho. 

Em declarações à CNN Portugal, explica que “Francisco tem uma alimentação 100% vegetal”, estando excluídos quaisquer alimentos de origem animal. Ainda assim, não descarta que o filho um dia os queira experimentar, garantindo que o próprio terá liberdade para o fazer.   

Apesar de os pais não deverem impor a sua vontade, muitas vezes os filhos continuam os hábitos de sempre, mantendo-se fiéis à dieta. Tal é o caso, por enquanto, do filho de Sofia Magalhães. 

Apesar de não assumirem um regime a 100%, Sofia e o filho mantêm uma dieta predominantemente vegetariana, ingerindo, por vezes, produtos lácteos e, raramente, peixe. Contudo, a carne jamais é opção, pelo menos por agora. Pelo contrário, o marido de Sofia come carne e mesmo quando convida o filho a uma dentada, ele recusa, não mostrando interesse em introduzi-la na sua alimentação.  

Os riscos existem “quanto mais restrita” for a dieta 

Em relação aos riscos associados a dietas restritivas, Ana Isabel Monteiro explica que “a carência de nutrientes pode estar presente em qualquer dieta”, contudo, assume que na alimentação vegetariana pode existir “um risco acrescido nalguns nutrientes, como o ferro e o cálcio”.   

A pediatra e professora universitária Carla Rêgo sublinha que a adoção de qualquer dieta restritiva comporta perigos, uma vez que pode causar carências energéticas e nutricionais. Em relação às idades mais novas, em que a velocidade de crescimento é maior e existe uma maior necessidade de energia, os problemas podem ser exacerbados, existindo a possibilidade de prejudicar o desenvolvimento “quanto mais restritivos forem” os hábitos alimentares.   

Segundo a médica, os regimes que excluem os alimentos de origem animal “não são os melhores”, pois o ser humano é “naturalmente omnívoro”. Lembrando a roda alimentar, tantas vezes ensinada na escola, Carla Rêgo defende que, teoricamente, a exclusão de alimentos que lá se apresentam “está necessariamente associada a um défice da oferta de macronutrientes (estruturais e fornecedores de energia), mas sobretudo micronutrientes (funcionais)”.  

A nutricionista Lillian Barros corrobora a premissa, acrescentando que o problema se deve sobretudo a um mau planeamento da dieta em si, considerando que o regime alimentar em questão não é sinónimo de uma alimentação mais saudável.  

“Uma dieta vegetariana, se mal planeada, seja por défice de nutrientes, seja por consumo excessivo de alimentos processados ricos em açúcar, gordura ou sal, pode ser bastante prejudicial para a saúde”, adverte.

Como explicam as especialistas, importa que a dieta vegetariana seja acompanhada por uma profissional de forma a ser o mais equilibrada possível, evitando problemas desnecessários.   

Um estudo de maio deste ano comparou o crescimento de crianças com uma dieta omnívora com crianças com uma dieta vegetariana, verificando que não foram encontradas “evidências clinicamente significativas das diferenças em crescimento ou medidas biomédicas de nutrição para crianças com dietas vegetarianas. Contudo, a dieta vegetariana está associada a uma maior propensão de terem um peso abaixo do indicado”.   

Face a estes resultados, a pediatra Carla Rêgo prefere remeter a questão para outros estudos comparativos entre crianças com graves alergias alimentares, que se veem obrigadas a excluir certos alimentos, e crianças sem quaisquer restrições, referindo que estas análises “são cientificamente incontestáveis, respeitando as regras metodológicas”, o que não ocorre no estudo referido, em que “quer as populações incluídas não são representativas, tendo um reduzido número da amostra, quer porque não são uniformes na prática alimentar (diferentes tipos de dietas), quer ainda porque o tempo de seguimento não é suficiente para tirar ilações relativas ao impacto no potencial de crescimento, maturação e saúde futura do individuo”.  

Para a especialista, a exclusão de certos alimentos leva a um “compromisso nutricional”, clarificando que mesmo com uma supervisão e acompanhamento médico por vezes “o estado nutricional em janelas importantes do crescimento” fica comprometido, o que permite tirar ilações das dietas vegetarianas e veganas. Sem uma orientação e vigilância devida, o crescimento da criança pode ficar gravemente comprometido, alerta.  

Também Lillian Barros nota que além do crescimento, a própria aprendizagem pode ser afetada, visto que a capacidade de concentração fica debilitada quando falham certos nutrientes.   

Para as crianças existem algumas “carências relevantes que podem causar um compromisso grave da saúde e do crescimento”, como por exemplo da vitamina B12, da vitamina D, cálcio e ferro, elenca a nutricionista.  

“O défice em vitamina B12 está associado a compromisso irreversível do desenvolvimento cerebral, do crescimento e ainda da anemia megaloblástica”, clarifica Lillian Barros. No que respeita à vitamina D e cálcio, o crescimento e a saúde óssea, bem como o desenvolvimento muscular podem ser fortemente afetados. Por último, mas não menos relevante, a carência de ferro pode ter sérios impactos no “desenvolvimento neuro-cognitivo e motor, assim como na imunidade”, finda a especialista.   

Além das consequências no crescimento e capacidade de concentração, certos estudos apontam para problemas de saúde como o raquitismo como consequência destas dietas. A nutricionista clarifica que tal pode ocorrer por “baixa ingestão de cálcio e vitamina D, muito presente nos produtos lácteos”. 

Como assegurar uma alimentação equilibrada  

Lillian Barros afirma que uma dieta “bem planeada, contendo vegetais, frutas, grãos integrais, legumes, frutos secos e sementes pode fornecer uma nutrição adequada a todas as fases do ciclo de vida, incluindo gravidez, lactação, infância, adolescência, idosos e até atletas”.   

A evolução e adaptação do mercado a estas questões nos últimos anos são uma mais-valia, destaca, ao oferecerem uma ampla rede de alternativas como “iogurtes e bebidas vegetais fortificadas com estes micronutrientes” além de alimentos como o “tofu, tempeh e as crucíferas, onde se inserem as couves que também possuem cálcio”.  

Ainda assim, a pediatra Carla Rêgo alerta que estas bebidas vegetais, importantes substitutos para pessoas na idade adulta, não são recomendáveis para até pelo menos os três anos de idade, ao que frisa que “em nenhuma idade pediátrica podem ser consideradas substitutas do leite”. Segundo diz, para estes casos “é recomendada a suplementação em vitamina D a todos os lactantes (1-12 meses), independentemente do tipo de alimentação”.   

Para Lillian Barros, quando escolhemos retirar alimentos importantes para o desenvolvimento humano, como já havia mencionado a pediatra Carla Rêgo ao recordar a roda dos alimentos, é crucial a substituição de forma adequada, procurando colmatar eventuais fahas noutros alimentos que não os de origem animal.

“No caso de se restringir carne, peixe e ovos (na dieta vegan), as leguminosas são um dos substitutos a privilegiar, seja na forma de feijão, grão, tremoços, soja, tofu ou tempeh. Não esquecendo que deverão fazer-se as combinações certas para se obter todos os aminoácidos essenciais. A título de exemplo, o feijão contém uma quantidade significativa de lisina, mas reduzida quantidade de metionina. Por isso, deverá ser complementado com cereais como o arroz, que, ao invés, contêm metionina e baixo conteúdo em lisina”, exemplifica.   

A nutricionista Ana Isabel Monteiro atesta o mesmo, mencionando ainda que é importante incluir “oleaginosas”, o que no caso dos bebés é dado triturado ou em pasta, sementes, “que também são trituradas, ou no caso da chia, podem ser inteiras ou consumidas com algo húmido, e alimentos fortificados com cálcio, especialmente a partir do primeiro ano de vida”.   

Se tal não for suficiente, existe sempre a possibilidade de se proceder a alguma suplementação. Catarina Matos, CEO da loja “Mind The Trash” e mãe de Margarida, uma menina com pouco mais de um ano, conta que a filha tem uma alimentação vegan e que “está ótima, impecável”.

Na sua opinião, talvez seja até “mais saudável do que muitas crianças que comem carne”, lembrando que “toda a gente a contrariou” quando decidiu seguir esta dieta também para a filha.  

Provando o que é aconselhado pelas especialistas, Catarina explica que a filha é acompanhada por uma nutricionista e que atualmente toma “uma suplementação de vitamina B12 e ferro”.  

Depois disto tudo, e se quiser que os seus filhos adotem o vegetarianismo, a melhor forma de garantir que a dieta é a mais saudável, como reiteram as especialistas é que exista o acompanhamento certo e que a dieta seja o mais bem planeada possível. Os riscos existem e “o equilíbrio pode ser mais difícil”, mas tanto a Direção-Geral da Saúde, como os comités de nutrição, seja o europeu, americano ou canadiano, como sublinha Carla Rêgo, declaram que a dieta vegetariana em idade pediátrica é exequível, desde que bem praticada.

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