Veganismo: “Uma tomada de consciência” que vai além de uma restrição alimentar

CNN Portugal , FMC
12 nov, 15:00
Veganismo, uma forma de viver (SOPA Images/ Getty Images)

Noel, Beatriz e Sofia testemunham que ser vegan é uma decisão que afeta vários aspetos do dia-a-dia: o que se come, os produtos que se compram e até as atividades de lazer que fazem. E não esquecem o lado ativista

O veganismo começa a ganhar cada vez mais adeptos e ao contrário do que muitos acreditam, ser vegan é muito mais do que uma dieta alimentar. É um “estilo de vida. É uma tomada de consciência”, defende Noel Santo, da associação Animal Save & Care Portugal.  

Beatriz Batista criou um blogue para difundir o veganismo e em declarações à CNN Portugal também ela reforça que “as pessoas se focam muito na alimentação e a diferença entre um vegetariano e um vegan vai muito além disso”, explica.  

Uma pessoa vegan “tem outras escolhas que o diferenciam como o cuidado que tem ao escolher uma peça de roupa, um produto de higiene ou mesmo limpeza. "Os vegans não utilizam produtos que tenham ingredientes de origem animal ou que tenham sido testados em animais”, concretiza.  

Beatriz, como tantos outros, abraçou a causa há muitos anos. A mudança ocorreu em 2005 quando adotou Natty, uma cadela, que mudou a sua “perspetiva em relação aos animais não humanos”. 

O blogue “Sociedadevegan” foi criado, posteriormente, para poder “partilhar conteúdos sobre veganismo em português, visto que na altura havia pouca informação e a maior parte era em inglês” e explicar aos amigos a decisão tomada. Mesmo com milhares de seguidores nas redes sociais e inúmeras partilhas não deixa de se mostrar disponível para informar e ajudar no combate aos estereótipos associados ao tema. 

Num dos textos publicados, Beatriz descreve um processo longo e gradual para chegar ao ponto atual. Segundo conta atravessou três fases, começando por deixar a “carne de animais terráqueos”. Com uma maior afinidade pelo estilo de vida, passado algum tempo deixou o peixe “e com a ajuda de podcasts” aprendeu o que a “indústria dos laticínios e produção dos ovos escondiam”, acabando por também os eliminar.  

A nível alimentar, uma das diferenças com algumas das vertentes do vegetarianismo prende-se com isso mesmo. Não é apenas uma questão de abolir a carne animal, mas também qualquer produto de origem animal, evitando consumir o que é o resultado de um profundo sofrimento. 

Em resposta à CNN Portugal destaca anda assim, que mesmo ovos biológicos (em que há uma certeza de que as galinhas são bem tratadas) não são uma opção na sua alimentação.  

Segundo diz, tem familiares que possuem galinhas porque gostam e sabe que estas “vivem uma vida em pleno e em liberdade”. Contudo, “nem neste caso consumo”, afirma, acrescentando que não faz sentido “retroceder e voltar a comer produtos de origem animal”.  

Noel Santo reforça a ideia: “É abrir uma porta para comer ovos em qualquer lugar”.  

Sofia Carvalho, vegan desde 2018, também o diz enquanto conta os deslizes que em tempos cometeu, como por exemplo comer uma mousse de chocolate ou um bolo.  

“Abre um precedente”, enfatiza agora, acrescentando que voltar a comer esses produtos dificulta o processo. 

“Além disso, as galinhas que subsistem nos dias de hoje acabam por ser o resultado de décadas de modificação genética que conduziu a que produzissem mais ovos do que seria normal”, afirma Noel, ao que acrescenta que tal tem consequências e uma delas é a redução do tempo de vida do animal.  

“A exploração reduz a esperança média de vida e, isso, para nós é um problema, é um fator que que indica que o bem-estar animal está comprometido”, justifica o representante da Animal Save & Care Portugal. 

Ser vegan é muito mais do que isso: “Sou contra qualquer forma de exploração animal” 

Apesar da alimentação ser um ponto forte e facilmente associado ao conceito, o veganismo é um estilo de vida, é uma crença e uma forma de ativismo social. Noel Santo enfatiza que no fundo é adotar uma forma de vida “minimalista contra o excesso de consumo e o capitalismo” 

“O veganismo é ir ao encontro de uma mudança de consciência, em que existe uma luta por direitos e pela justiça”, notando que ainda que exista uma forte componente pela justiça animal, os direitos humanos não são descartados. “O objetivo é viver na medida do possível sem causar sofrimento de outros seres vivos”, diz Noel.  

“Sou contra qualquer forma de exploração animal”, garante Sofia. Ainda que adote nos dias de hoje esta posição, explica que, os primeiros passos como vegan deveram-se a questões de saúde e não pela empatia pelos outros seres vivos. Sofia conta que primeiro prescindiu do leite, e de todos os derivados do mesmo e só depois suprimiu a carne e o peixe. Agora é defensora acérrima dos animais, opondo-se a qualquer atividade que se aproprie deles.  

Como tal, todos são unânimes na indignação perante estabelecimentos como jardins zoológicos, oceanários ou, pior, eventos como touradas e circos e tantos outros que usam os animais para “puro entretenimento”, como nos descreve Noel Santo.  

Também Beatriz realça como problema o “facto de retirarem os animais do seu habitat natural”, frisando que em muitos locais estes estão “em condições deploráveis sujeitos ao stress e barulho dos visitantes”.  

Ainda que os estabelecimentos advoguem que existe uma tentativa de conservação da espécie, Noel deixa questões no ar: “Então porque é que não têm só espécies ameaçadas em Portugal? Porque é que têm um tigre da Sibéria?” as quais rapidamente reponde: “Porque é mais lucrativo”, prosseguindo ainda com críticas aos espetáculos que deliciam as crianças, mas repugnam os defensores dos animais,  
 
“Pior são os espetáculos de golfinhos, existe uma instrumentalização do animal por puro entretenimento”, ressalva Noel.  

A autora do blogue “Sociedadevegan” aponta ainda as “quintas pedagógicas” como problemáticas. “Ter espaços de lazer com animais para as crianças manipularem não é uma boa prática. Fazem-se festas de aniversário que causam um grande stress”.  

Sofia atesta o argumento ao lembrar-se do dia em que foi a uma dessas quintas. "Um coelho foi passado de mão em mão", descreve, confirmando que quando o pequeno bicho chegou ao seu colo “estava a tremer”.  

“Os animais não são ferramentas pedagógicas”, sublinha agora a jovem. 

Contudo, as mudanças dos últimos tempos e outros projetos implementados em Portugal mostram como o bem-estar animal começa a ganhar espaço na sociedade civil e como a pressão por parte de organizações e individuais suscitam efeitos. Exemplo disso são os centros de recuperação do lince ibérico, do lobo ibérico e o Parque biológico de Gaia. Ao discorrer sobre estes projetos, Beatriz e Noel cingem-se a elogios. 

“Existem para dar continuidade a espécies ameaçadas pelo homem”, indica Beatriz, enquanto Noel sublinha tratar-se de “excelentes programas que procuram reabilitar a espécie no seu próprio habitat”, evidenciando que são centros de sucesso, ou pelo menos que não têm feito pior.  

De acordo com Noel, “existem atualmente 300 exemplares do lobo ibérico em liberdade no país”, acrescentando ser um número que se tem mantido inalterável nos últimos anos.  

“Por um lado, não tem ocorrido um aumento, mas por outro não deixa de ser um bom sinal, uma vez que não houve uma diminuição”.  

É procurar a melhor alternativa possível: “Mas é mais fácil ser eticamente correto quando se é rico” 

Ser vegan é ter em cada passo dado, a consciência do que está por detrás de cada alimento, cada produto, evitando sempre que possível escolher aqueles que não se rejam pelos mesmos princípios.  

"Nunca vou ter um impacto zero na vida animal, mas vou tentar na medida do possível, minimizar o impacto e tomar as melhores escolhas, com uma maior consciência” diz Noel, confidenciando, porém que nem sempre é fácil, uma vez que para sobreviver precisa de recorrer a grandes superfícies que albergam tudo e que, por vezes, os restaurantes disponíveis não são 100% vegan, apresentado apenas no cardápio uma opção viável. 

Se existirem supermercados ou restaurantes 100% movidos pela causa, Noel admite que os irá privilegiar sobre os restantes, senão admite que a sobrevivência tem de ter primazia.  

É neste ponto que Noel lamenta não conseguir ter um impacto zero visto que continua a contribuir com financiamento de grandes marcas, mas mantém a consciência da sua ideologia, decidindo sempre pela “melhor alternativa”.  

Neste aspeto, Beatriz congratula a evolução das marcas: “Cada vez é mais fácil encontrar produtos vegan ou vegan friendly”. Empresas de renome têm procurado fabricar produtos com certificação “cruelty free” - ou seja o produto não foi testado em animais - e até mesmo vegan – que é inerentemente 'cruelty free', ao que acresce não ter qualquer produto de origem animal, como por exemplo cera de abelha – o que demonstra que existe uma transição no pensamento, mais não seja para albergar o nicho que são os vegans.  

Noel reitera que, também nestes casos, se tiver uma alternativa em que todos os produtos e toda a essência da marca se move pela exclusão do uso animal, serão a opção, caso não exista seleciona um que tenha o certificado. “Não tendo outra escolha, vou comprar uma pasta de dentes no supermercado que seja vegan”, afirma.  

Ainda que não seja uma proibição a detenção deste tipo de produtos, como por exemplo, roupa de lã, Beatriz refere que “existem alternativas no mercado e de origem nacional” e que essas devem sobrepor-se.

Todos os produtos devem, portanto, ser passíveis de alguma investigação para perceber quais os ingredientes usados e qual a política de produção.  

Apesar das transformações incontestáveis na oferta, existe ainda um problema que se eleva para muitos: os preços dos produtos vegan são normalmente mais caros. Sofia alerta para tal, afirmando que por uma questão de sobrevivência nem sempre consegue decidir ideologicamente.  

“É mais fácil ser-se eticamente correto quando se é rico”, lamenta.  

Tal mostra que as escolhas nem sempre são fáceis, mas são possíveis para quem quer mudar e ser parte do aperfeiçoamento do mundo. Seja por razões de saúde, por empatia para com os animais ou por questões ambientais, os vegans têm tido uma voz uníssona, ativa e crítica aos comportamentos humanos que estão a destruir o planeta, tendo até conseguido surtir efeitos positivos.  

Contudo, o apelo não tem fim à vista, mesmo que estudos indiquem que o número de pessoas que tem excluído a carne animal ou, pelo menos diminuído o seu consumo, o problema persiste. “Nós comemos de forma abusiva e excessiva. Todo o mundo grita. Um dos maiores crimes que temos feito nos últimos anos é o que estamos a fazer aos animais”, remata Noel, acrescentado que impera um maior cuidado para com todos os seres vivos.  

"Somos o único animal que mata, tortura e faz mal a outros animais por puro prazer, não o fazemos por sobrevivência. Devíamos coexistir", finda Sofia Carvalho.

Ainda que nenhum dos testemunhos imponha a sua maneira de viver, não deixam de considerar pertinente elucidar as pessoas para o que se passa no mundo, principalmente pelo longo tempo em viveu de olhos fechados. Porque no final e ao contrário do que muitos pensam, ser vegan é muito mais do que uma dieta alimentar.  

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