Varíola dos macacos. DGS não diz o que é feito das vacinas adquiridas há mais de dez anos

19 mai, 18:00
Vacina (AP Photo/Eraldo Peres)

Direção-Geral da Saúde diz apenas que está a planear “a melhor estratégia” junto do Infarmed e da OMS. Espanha vai comprar milhares de vacinas

Espanha está a preparar a compra de milhares de vacinas contra a varíola tradicional para lidar com o surto de varíola dos macacos, avança o El País, que adianta que os alvos são os contactos de casos positivos de varíola dos macacos. Portugal possui vacinas contra a varíola compradas em 2008 mas não adianta se vão ser usadas ou se vão ser adquiridas novas.

Graças Freitas, que em 2008 era subdiretora-geral da Saúde, informou na altura que Portugal tinha adquirido vacinas de primeira geração contra a varíola, vacinas essas que iriam fazer parte da reserva estratégica de medicamentos em Portugal. À data, a aquisição de vacinas contra a varíola foi decidida a propósito do 11 de setembro, de modo a haver um 'escudo-protetor' face ao risco de o vírus ser usado como arma de guerra. Quatro anos depois, foi dito que a validade dessas vacinas era “muito prolongada”.

A CNN Portugal entrou esta quinta-feira em contacto com a Direção-Geral da Saúde para perceber qual o estado atual da reserva de vacinas contra a varíola. Em resposta por escrito, o organismo limitou-se a dizer que “a DGS está em contacto direto com o Infarmed, com peritos nacionais e instituições internacionais como a OMS a fim de ser definida a melhor estratégia de controlo deste surto”, não indicando, porém, quantas vacinas há na reserva nacional de medicamentos, quais as validades em causa e se planeia ou não reforçar essa mesma reserva, questões que foram colocadas pela CNN Portugal e que ficaram por responder.

Também foi contactado o Ministério da Saúde e até ao momento a CNN Portugal não obteve qualquer resposta. Foi feito um reforço no pedido de informação sobre o estado da reserva nacional destas vacinas, mas não houve resposta.

As vacinas adquiridas em Portugal há mais de 10 anos “são vacinas aprovadas para a varíola dos humanos, há um racional científico para dizer que este [varíola dos macacos] é um vírus da família e muito próximo da varíola humana e por isso é expectável que pelo menos confira alguma imunidade em relação à infeção e doença”, destaca Luís Mendão, médico e responsável nos serviços da IPSS, o Grupo de Ativista em Tratamento (GAT). Mas, para já, não há qualquer indicação para tal.

Face à situação atual, para estas vacinas serem usadas “tem de haver um parecer técnico”, explica o médico. “Acredito que as que estão na reserva estão em condições de usar usadas quando necessário, não faria sentido ter em reserva vacinas que não são eficazes”.

Para Luís Mendão, importa ver como a situação evolui, mas o médico acredita que “daqui a meia dúzia de dias, quando tivermos dimensão do surto, podemos usá-las em pessoas que estão em maior risco de se infetarem”, ajudando a quebrar cadeias de transmissão e agravamento da doença.

O vírus da varíola-dos-macacos - o Monkeypox - é semelhante ao da varíola, que foi erradicado nos anos 70, e a vacinação, mesmo que para a varíola dos humanos, é uma das apostas, sobretudo em situações de “crise” como esta, diz o médico.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, “a vacinação contra a varíola com a vacina vaccinia foi demonstrada através de vários estudos observacionais como sendo cerca de 85% eficaz na prevenção da varíola dos macacos”, afirma o organismo, defendendo que, “assim, a vacinação prévia contra a varíola na infância pode resultar num curso mais leve da doença”.

A evolução da vacinação levou à erradicação da varíola em 1980, com o último caso descrito em 1977, na Somália, tendo o primeiro caso em humanos acontecido apenas sete anos antes, na República Democrática do Congo. Entretanto foram surgindo casos e pequenos surtos, sendo considerada uma doença endémica na República Democrática do Congo, como relata a Organização Mundial da Saúde (OMS). A vacina da varíola saiu do Plano Nacional de Vacinação em 1977. 

“Desde 1970, casos humanos de varíola foram relatados em 11 países africanos – Benin, Camarões, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Gabão, Costa do Marfim, Libéria, Nigéria, República do Congo, Serra Leoa e Sudão do Sul. Em 2017, a Nigéria teve o maior surto documentado, 40 anos após o último caso confirmado”, diz a OMS. Na primavera de 2003, continua o organismo, foram confirmados casos de varíola dos macacos nos Estados Unidos. “Recentemente, a varíola dos macacos foi transportada para Israel e para o Reino Unido em setembro de 2018 e dezembro de 2019 e para Singapura em maio de 2019 por viajantes da Nigéria que adoeceram com a varíola dos macacos após a chegada”. Os Estados Unidos tinham também identificado um caso no ano passado de um passageiro que viajava da Nigéria.

Atualmente, Portugal tem já 14 casos confirmados da doença e esta quinta-feira o Centro Europeu de Controlo de Doenças Europeu (ECDC) emitiu uma nota com recomendações para travar o contágio do vírus. Segundo o organismo, “os casos suspeitos devem ser isolados e testados e notificados imediatamente”, sendo que o organismo destaca ainda a possibilidade de se recorrer à vacina da varíola humana para travar a cadeia de contágio da varíola dos macacos.

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