Devo preocupar-me com a Monkeypox? Especialista explica

CNN , Katia Hetter
30 jul, 10:00
Monkeypox (GettyImages)

A Monkeypox está a espalhar-se em todo o mundo. Existem pelo menos 16 mil infeções registadas em mais de 40 países, e a Organização Mundial da Saúde declarou uma emergência global de saúde pública. O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA fala em mais de três mil infeções, apenas dois meses depois de ter sido detetado o primeiro caso deste surto de varíola dos macacos.

Quão preocupadas devem estar as pessoas sobre contrair a Monkeypox? Todos deviam tentar tomar a vacina? Quem são os grupos de maior risco e que ações devem tomar? Como se propaga ao certo esta varíola dos macacos e como podem as pessoas evitar apanhá-la? Quais são os sintomas comuns a ter em atenção?

Para nos ajudar a entender melhor a Monkeypox e o risco que representa, conversei com a analista médica da CNN, Leana Wen, médica das Urgências e professora de Política e Gestão da Saúde na Faculdade de Saúde Pública do Instituto Milken da Universidade George Washington. Ela também é autora de “Lifelines: A Doctor's Journey in the Fight for Public Health”.

CNN: Como se espalha a Monkeypox? É tão transmissível como a covid-19, outra doença que já todos conhecemos muito bem?

Leana Wen: A Monkeypox não se espalha como a covid-19. Como já sabemos, a covid-19 é altamente transmissível e pode espalhar-se através de aerossóis microscópicos. Isso significa que podemos ser infetados por alguém com quem estamos a conversar casualmente ou até por alguém que esteja na mesma sala de conferências ou no mesmo restaurante do que nós.

A Monkeypox é transmitida principalmente através do contacto prolongado e direto de pele com pele. A maioria dos casos até agora tem sido associada à atividade sexual, embora esta não seja considerada uma infeção sexualmente transmissível. Os indivíduos podem transmitir o vírus através de contacto íntimo como beijos, abraços, carinhos e relações sexuais.

Os indivíduos que têm lesões também podem espalhar o vírus nos lençóis, nas toalhas e noutros tecidos que, depois, podem transmitir o vírus a outras pessoas. É por isso que as pessoas com lesões ativas de Monkeypox recebem indicações para não partilhar itens potencialmente contaminados, como lençóis, toalhas, copos e talheres com outras pessoas.

CNN: Que tipos de sintomas têm os pacientes com Monkeypox?

Wen: As pessoas que contraem a Monkeypox geralmente começam por ter febre, dor de cabeça, dores musculares e fadiga geral – tal como acontece em muitas outras doenças virais. Muitas pessoas também ficam com os gânglios linfáticos inchados. Depois, desenvolvem uma erupção cutânea que progride para bolhas, borbulhas ou feridas. As lesões podem localizar-se por todo o corpo ou apenas numa parte. Podem ficar limitadas apenas à área anal ou genital, ao rosto, ao interior da boca ou a qualquer outra parte do corpo.

Um estudo abrangente publicado recentemente no “New England Journal of Medicine” examinou 528 infeções em 43 locais de 16 países. Descobriu-se que os sintomas mais comuns são febre, cansaço, dores musculares e inchaço dos gânglios linfáticos. Quase todos tiveram uma erupção cutânea com bolhas, embora alguns indivíduos tenham tido apenas uma lesão, enquanto outros tiveram várias. Algumas pessoas só tinham lesões no interior da boca ou nas áreas anais ou genitais.

Os médicos que atendem pacientes com febre e novas erupções devem fazer análises à Monkeypox, especialmente se o paciente fizer parte de um grupo de alto risco para contrair a mesma. É importante sublinhar que o recente estudo também descobriu que 29% das pessoas diagnosticadas com Monkeypox tinham uma infeção sexualmente transmissível. Para mim, isso significa que, só porque um paciente é diagnosticado com uma coisa não significa que não possa ter a outra também, e os pacientes dos grupos de alto risco com novas lesões têm fazer a análise para descartar a Monkeypox.

CNN: O que deu início à Monkeypox e quão difundida está nos Estados Unidos?

Wen: A Monkeypox é um vírus da mesma família do vírus da varíola. Foi descoberto pela primeira vez em 1958, em macacos - daí o seu nome - embora os seus hospedeiros habituais, entre os animais, sejam os roedores e outros pequenos mamíferos. Apareceu pela primeira vez em humanos em 1970, na África Oriental. Tem sido endémica em alguns países da África Subsaariana, com os surtos às vezes a acontecer quando viajantes infetados trazem a doença para os seus países de origem. Em 2003, houve um grande surto nos Estados Unidos devido a roedores importados.

Este surto é muito maior. Mais de 3000 pessoas foram infetadas nos Estados Unidos, até agora, com infeções em quase todos os estados. O CDC tem um mapa atualizado dos casos e das infeções.

CNN: Quem são os indivíduos dos grupos de alto risco para contrair a Monkeypox?

Wen: Até agora, a Monkeypox afetou predominantemente gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens. Nos casos internacionais do “New England Journal of Medicine”, 98% das pessoas com Monkeypox eram gays ou bissexuais, e a transmissão estava ligada à atividade sexual em 95% dos casos. O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA disse que a “grande maioria” dos casos nos Estados Unidos acontece em homens que fazem sexo com homens, com uma idade média de 36 anos.

Os indivíduos atualmente no grupo de alto risco são homens que fazem sexo com homens e que fazem sexo com parceiros múltiplos ou desconhecidos. Há também relatos nos Estados Unidos de algumas mulheres e de duas crianças que contraíram Monkeypox, casos que se julga resultarem de contactos diretos com homens que fazem sexo com homens.

CNN: Alguém morreu de Monkeypox?

Wen: A Monkeypox, geralmente, tem uma taxa de mortalidade de 3% a 6%, segundo a Organização Mundial da Saúde. Felizmente, ainda ninguém morreu de varíola dos macacos nos Estados Unidos, mas esta é uma doença dolorosa que pode e leva a doenças graves e à morte. Os indivíduos especialmente vulneráveis ​​incluem as mulheres grávidas, as crianças pequenas e as pessoas imunocomprometidas.

CNN: Quão preocupadas devem estar as pessoas em relação à Monkeypox?

Wen: Tendo em conta a forma como a Monkeypox se transmite, ainda não é uma preocupação para a maioria dos norte-
americanos. No entanto, os indivíduos gays e bissexuais, bem como outros homens que fazem sexo com homens, e que têm contacto íntimo com várias pessoas ou desconhecidos, estão no grupo de alto risco.

Esses indivíduos devem fazer o teste, imediatamente, se tiverem uma nova erupção cutânea ou uma lesão, e devem evitar o contacto físico próximo, enquanto aguardam os resultados. As pessoas que desejam reduzir o risco devem evitar as discotecas cheias de gente, as raves, as festas de sexo e outros lugares onde houver contacto prolongado pele com pele ou cara com cara, com muitas pessoas que podem estar a usar pouca roupa.

CNN: Toda a gente devia ser vacinada contra a Monkeypox?

Wen: Não. Em primeiro lugar, a vacina contra a Monkeypox é extremamente limitada, no momento. Foram entregues, até agora, nos EUA, cerca de 300.000 doses da vacina de duas tomas, um número muito reduzido face ao 1,5 milhão de pessoas que o CDC diz serem elegíveis.

As pessoas que devem mesmo tomar a vacina são as que sofreram uma exposição conhecida a alguém com Monkeypox. Se
administrada nos quatro primeiros dias após a exposição, a vacina pode impedir a evolução da Monkeypox. Se administrada no espaço de duas semanas, diminui a probabilidade de progressão para uma doença grave.

Em breve, espero que haja vacinas suficientes para todas as pessoas dos grupos de alto risco. Mas, tendo em conta a forma como a Monkeypox se dissemina, a maioria dos norte-americanos não a deve contrair, e uma campanha de vacinação em massa direcionada à população em geral não deverá ser recomendada tão cedo.

CNN: A Monkeypox será mais um vírus endémico nos Estados Unidos?

Wen: Espero realmente que não. Ainda é possível conter a Monkeypox através de análises e vacinação. Espero que a declaração da OMS de emergência global de saúde pública estimule mais países, incluindo o nosso, a desenvolver todos os esforços para tentar impedir que a Monkeypox se instale e se torne endémica.

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