Restam apenas 10 dos mamíferos marinhos mais pequenos do mundo

CNN , Ashley Strickland
7 mai, 11:00
Vaquitas, animal marinho em extinção (Foto: CNN)

O mamífero marinho mais pequeno do mundo está tão gravemente ameaçado que restam apenas cerca de 10 no seu único habitat do Golfo da Califórnia, no México. 

Mas isso não significa necessariamente que estejamos já perante a extinção da toninha vaquita, de acordo com os recentes estudos. 

As vaquitas-marinhas quase que se tornaram numa espécie em extinção devido à pesca ilegal com rede de emalhar, que é utilizada para apanhar camarões e peixes da espécie totoaba e que partilham o mesmo habitat que as toninhas. As vaquitas, com cerca de 1,2 a 1,5 metros de comprimento, acabam como "fauna acompanhante", uma vez que não são o alvo pretendido das redes. 

O totoaba, peixe cujo estatuto é vulnerável na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, tem uma bexiga natatória que é muito valorizada na China e utilizada para a medicina tradicional - e até mesmo considerada como um investimento financeiro. O México proibiu a pesca de totoaba e tornou ilegal a pesca com redes de emalhar onde vivem as vaquitas, mas a prática continua inalterada. 

Com uma população tão pequena, os investigadores têm-se questionado se as vaquitas estariam em maior risco de extinção devido à consanguinidade.   

Os cientistas Barbara Taylor e Lorenzo Rojas-Bracho, que estudam este risco há mais de 20 anos, publicaram um artigo de 1999 sugerindo que a "hipótese condenada" da consanguinidade não podia ser confirmada. Isto é importante, porque se um animal for considerado "condenado à extinção" por esta razão, os esforços de conservação podem não ter continuidade, afirmou Rojas-Bracho. 

Atualmente, existe uma equipa de cientistas - incluindo Taylor e Rojas-Bracho – que têm estudado padrões genéticos a partir de amostras de tecido de vaquita recolhidas entre 1985 e 2017 por investigadores mexicanos. Taylor é um cientista sénior na Administração Oceânica e Atmosférica do Southwest Fisheries Science Center em La Jolla, Califórnia, e Rojas-Bracho é biólogo de conservação e membro da Comissão Nacional de Áreas Protegidas no México. 

"Quem imaginaria que várias décadas mais tarde estas mesmas amostras nos poderiam revelar tanto", afirmou o coautor do estudo Rojas-Bracho numa declaração. "A genómica dá-nos pistas sobre o passado da espécie, mas também nos permite analisar o futuro." 

E acontece que estas pequenas toninhas têm resiliência suficiente codificada na sua genética para recuperarem, se se conseguir impedir a utilização da rede de emalhar. Um estudo que detalha os resultados foi publicado na quinta-feira na revista Science

“Se permitirmos que estes animais sobrevivam, eles conseguem fazer o resto", referiu Jacqueline Robinson, a coautora do estudo, investigadora pós-doutorada na Universidade da Califórnia, São Francisco, num depoimento. "Geneticamente eles ainda têm a diversidade que os deixou prosperar durante centenas de milhares de anos, até chegarem as redes de emalhar." 

Pequenas, mas prósperas 

As informações genéticas das vaquitas revelam que esta espécie surgiu há cerca de 2,5 milhões de anos e que se adaptou à vida nas águas rasas do Golfo da Califórnia do Norte. 

Nos últimos 250.000 anos, a população oscilou de alguns milhares para cerca de 5.000 vaquitas - o que é raro quando comparado com outros mamíferos marinhos. O facto de terem mantido uma população pequena durante tanto tempo ajudou a reduzir os riscos de consanguinidade porque têm menos variação genética entre eles. Um estudo exaustivo da população em 1997 revelou que existiam 570 toninhas, mas esse número diminuiu muito ao longo dos últimos 25 anos. 

As vaquitas também sofrem mutações genéticas menos prejudiciais associadas a pequenas populações. Quando os animais com características genéticas negativas acasalam, é mais provável que os seus descendentes morram. 

No caso desta população, isso na verdade ajudou a eliminar as características nocivas de se propagarem pela população de vaquitas. 

 

As vaquitas são pequenas e velozes, por isso raramente conseguem ser fotografadas

"Elas são essencialmente o equivalente marinho de uma espécie insular", afirmou Robinson. "O facto de haver tão poucas vaquitas permitiu-lhes eliminar gradualmente variantes genéticas recessivas altamente prejudiciais que podiam afetar de forma negativa a sua saúde sob consanguinidade."  

As variantes raramente aparecem em populações maiores de animais porque é mais improvável que dois animais com estas características se cruzem e acasalem. Mas quando uma população diminui rapidamente, essas probabilidades aumentam e os seus descendentes experimentam uma "depressão consanguínea". Isto enfraquece a sua saúde e pode levar à extinção da espécie.  

"Uma visão predominante em biologia da conservação e genética populacional é que pequenas populações podem acumular mutações prejudiciais", afirmou Kirk Lohmueller num comunicado, o autor de estudos seniores, professor associado de ecologia e biologia evolutiva e de genética humana na Universidade da Califórnia, Los Angeles. 

"No entanto, a nossa descoberta de que a vaquita provavelmente tem menos mutações altamente nocivas escondidas na população significa que estão mais preparadas para sobreviver à consanguinidade futura, o que é um bom indicativo para a sua recuperação global." 

Como salvá-las  

As redes de emalhar representam a maior ameaça porque fazem com que as toninhas se afoguem.  

Os investigadores fizeram simulações, com base nas informações genéticas da espécie para perceber qual a melhor forma de protegê-las e calcular o seu risco de extinção nos próximos 50 anos. 

Retirar imediatamente as redes de emalhar de seu habitat seria a melhor aposta para a sobrevivência dos animais. Infelizmente, mesmo o uso modesto das redes pode diminuir as suas hipóteses de recuperação. Se as mortes de vaquitas como ‘fauna acompanhante’ diminuírem em 80%, 62% da população poderá ainda ser extinta, de acordo com as pesquisas. 

"A sobrevivência dos indivíduos, e das espécies, está nas nossas mãos. Há uma elevada probabilidade genética de que possam recuperar, se as protegermos das redes e permitirmos que as espécies recuperem o mais rapidamente possível para números históricos", afirmou Phillip Morin, o autor do estudo, um geneticista molecular de investigação no Southwest Fisheries Science Center da NOAA Fisheries, em comunicado. 

Foram também realizados inquéritos para observar algumas das poucas vaquitas restantes, e os investigadores ficaram satisfeitos por ver que pareciam saudáveis e tinham até crias a nadar com elas, o que significa que estão a reproduzir-se de forma ativa. 

"Resta muito pouco tempo de vida a esta espécie", revelou o coautor do estudo, Christopher Kyriazis, estudante de doutoramento em ecologia e biologia evolutiva na UCLA, num depoimento. "Se as perdermos, será o resultado das nossas escolhas humanas, e não de fatores genéticos inerentes.” 

Os cientistas continuam a monitorizar atentamente as vaquitas. Os investigadores acreditam que a sua abordagem a este estudo poderia ser utilizada para prever o risco de extinção de outras espécies ameaçadas, com base na sua genética.

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