"O aproximar de uma grande operação" ou um sinal da "instabilidade" russa? O que significa Valery Gerasimov a comandar a invasão na Ucrânia

12 jan, 08:47
Valery Gerasimov (AP Photo)

O general russo é conhecido por ter criado a doutrina militar que defende a aplicação da "guerra híbrida", estendendo o campo de batalha a outras áreas como a da comunicação. O que significa a promoção de Valery Gerasimov à liderança da guerra na Ucrânia?

Menos de 11 meses depois de ter dado ordem de invadir o território ucraniano, lançando a maior guerra em continente europeu desde a Segunda Guerra Mundial, o Kremlin voltou a mudar o chefe da “operação militar especial”, elevando Valery Gerasimov para o cargo mais elevado. A decisão deixou muita gente surpreendida e o seu significado permanece por desvendar, mas os especialistas alertam: esta reestruturação pode ser sinal de que as operações militares na Ucrânia vão aumentar de dimensão.

Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa, foi nomeado o comandante do exército russo na Ucrânia. Substitui Serguei Surovikin, o “general Apocalipse” que liderou as operações no teatro de operações ucraniano e que passa a ocupar o cargo de chefe-adjunto. Para o major-general Agostinho Costa, esta alteração da estrutura militar russa pode antever que o conflito venha a intensificar-se.

“Isto pode ser um rearranjo dos comandos para uma grande operação russa que se aproxima. Acredito que pode estar em causa uma rearticulação para uma ação que envolva as forças que estão na Bielorrússia. Nesse sentido, faz sentido uma estrutura de comando mais robusta, uma vez que estamos a falar de um teatro de operações que se alarga a um país vizinho”, considera o especialista militar.

Essa hipótese é cada vez mais possível, uma vez que as informações recolhidas pelo ocidente sugerem uma acumulação crescente de soldados e de equipamento militar no interior do território bielorrusso. A situação é de tal forma sensível que a Ucrânia já minou todas as vias de acesso que ligam os dois países e está a criar uma vasta rede de fortificações. Para Agostinho Costa, o objetivo da Rússia pode passar por tentar cortar o abastecimento de material militar ocidental à Ucrânia, bloqueando o acesso terrestre com a Polónia.

“A Polónia pode posicionar uma força militar de interposição no ocidente. Se os russos intervirem, é muito provável que a Polónia posicione uma força de interposição na parte ocidental da Ucrânia. Só isso explica o mais recente encontro entre Zelensky e Duda”, acrescentou.

Uma mensagem interna ou um sinal de "instabilidade"

Nem toda a gente está de acordo com a ideia de que esta reestruturação significa um “robustecimento” da liderança militar para a guerra na Ucrânia. Para a comentadora da CNN Portugal Sónia Sénica, esta mudança da chefia do comando é “uma mensagem clara” para o público doméstico, de forma a justificar os fracassos no terreno de operações.  

Mas para o comandante João Fonseca Ribeiro esta decisão revela alguma "instabilidade da estrutura de controlo em gerir a situação no terreno". Essa instabilidade é ainda exacerbada pelo líder do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, que está "fora de controlo" e aparenta estar a ganhar muito “capital político” com o que poderá ser a conquista da cidade de Soledar. 

O major-general Isidro Morais Pereira considera que esta mudança da estrutura militar russa é mais um sinal de que a campanha militar russa continua a ter severos problemas de coordenação, muito devido à “imensa incapacidade” que os regimes autocráticos têm “em descentralizar aquilo que for".

“Gerasimov vai ser o responsável pela articulação coordenada de todas as componentes normais de uma campanha. Esta campanha iniciou-se sem um comando unificado devido à dificuldade imensa que os autocratas têm em descentralizar aquilo que for”, explicou.

Valery Gerasimov é conhecido por ter criado a doutrina militar atualmente utilizada pela Federação Russa. Conhecida como “Doutrina Gerasimov”, o general russo defende a utilização de uma variedade de métodos em guerra, incluindo ações psicológicas, económicas e de natureza informacional, para influenciar a opinião pública e desestabilizar adversários políticos sem o uso de força militar direta.

Para o líder russo, a guerra moderna apresenta a necessidade de desenvolver capacidades para controlar e manipular a opinião pública e os meios de comunicação. Isso inclui o uso de propaganda, desinformação e ciberguerra. Essas estratégias devem, no seu entender, servir para influenciar a opinião pública e criar condições favoráveis para o uso da força militar, caso seja necessário.

“Todas estas componentes devem ser orquestradas ou sincronizadas para que cada uma delas faça sentir os seus efeitos no momento e no local decisivo. E isso não aconteceu até agora”, reforça Isidro Morais Pereira.

A estratégia de Gerasimov é, de facto, a dominante no seio militar russo. Depois de ter sido promovido ao cargo de chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa em 2012, existem vários exemplos da utilização da “guerra híbrida” por parte da Rússia, em particular, no leste da Ucrânia, em 2014. “Vladimir Putin e o ministro da Defesa descobriram tardiamente que uma campanha militar deve ter um comando unificado. Uma campanha no terreno não são apenas as linhas de operações terrestres”, reforça o major-general Isidro Morais Pereira.

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