Antigo comandante-chefe da Ucrânia revela episódio "de intimidação" de Zelensky

19 fev, 15:41
Nesta foto fornecida pela Assessoria de Imprensa da Presidência da Ucrânia, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, à esquerda, aperta a mão do comandante-chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Valerii Zaluzhnyi, durante a sua reunião em Kiev, Ucrânia, na quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024. O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy reuniu-se com o general mais graduado da Ucrânia e disse-lhe que é hora de alguém novo liderar o exército. (Gabinete de Imprensa da Presidência da Ucrânia via AP)

Segundo o antigo líder das Forças Armadas ucranianas, Valerii Zaluzhnyi, as tensões começaram logo após a invasão de Moscovo em larga escala, em fevereiro de 2022, com desacordos frequentes sobre a melhor estratégia para defender o país

O antigo líder das Forças Armadas da Ucrânia, Valerii Zaluzhnyi, considerado amplamente como o principal rival político de Volodymyr Zelensky, revelou à Associated Press a existência de profundas divergências entre ambos desde os primeiros meses da invasão russa.

Destituído do comando das Forças Armadas em 2024, e posteriormente nomeado embaixador da Ucrânia no Reino Unido, Zaluzhnyi, de 52 anos, tem evitado falar sobre eventuais ambições políticas, afirmando não querer comprometer a unidade nacional em plena guerra com a Rússia, conflito que se aproxima do quarto aniversário.

Ainda assim, numa entrevista recente, abordou pela primeira vez de forma pública uma rutura significativa com o chefe de Estado, sinalizando a possibilidade de uma futura candidatura presidencial após o fim da guerra.

O então comandante-chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Valerii Zaluzhnyi, participa num evento comemorativo por ocasião do primeiro aniversário da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, em Kiev, Ucrânia, a 24 de fevereiro de 2023. Gabinete de Imprensa Presidencial da Ucrânia via AP, Arquivo

Segundo Zaluzhnyi, as tensões começaram logo após a invasão da Ucrânia em larga escala, em fevereiro de 2022, com desacordos frequentes sobre a melhor estratégia para defender o país. A relação deteriorou-se ao ponto de, nesse mesmo ano, dezenas de agentes dos serviços de informações internas terem invadido o seu gabinete, algo que o ex-comandante-chefe descreve como um ato de intimidação que poderia ter exposto a rivalidade num momento em que a coesão nacional era essencial. O episódio era desconhecido publicamente.

A revelação já motivou uma reação por parte do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), que nega a existência de buscas no gabinete de Zaluzhnyi, embora tenha confirmado que o endereço em causa integrava uma investigação sem ligação ao militar. Já o gabinete presidencial recusou comentar o episódio, quando questionado pela Associated Press.

Zaluzhnyi afirma que, durante o incidente, contactou o chefe de gabinete de Zelensky e alertou que estava preparado para mobilizar militares para impedir a entrada e proteger o centro de comando em Kiev. “Lutarei consigo [Zelensky] e já solicitei reforços para o centro de Kiev para me apoiarem”, terá dito.

Apesar de a crise inicial ter sido ultrapassada, as divergências estratégicas mantiveram-se, incluindo uma disputa particularmente sensível em torno da contraofensiva de 2023, que acabou por fracassar. Embora a sua popularidade junto do público tenha sido reforçada por sucessos militares anteriores, Zaluzhnyi foi afastado do cargo em fevereiro de 2024 e enviado para Londres.

A revelação destas tensões surge num momento delicado para a Ucrânia, com as forças russas a registarem avanços graduais na frente leste e com exigências incompatíveis entre as partes, enquanto os EUA pressionam por um acordo de paz.

Atualmente a viver longe da Ucrânia, Valerii Zaluzhnyi é um dos grandes rivais internos de Zelensky. Segundo sondagens recentes, o militar consistentemente tem uma ligeira vantagem sobre Zelensky numa eventual eleição presidencial, tão ambicionada por Moscovo.

A popularidade do presidente, outrora robusta, tem diminuído à medida que o conflito se prolonga e depois de um escândalo de corrupção que envolveu vários dos seus principais assessores.

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