O mais perigoso e o britânico: últimos fugitivos de Vale de Judeus apanhados juntos em Espanha
Sábado de manhã, 7 de setembro de 2024. Toca o alarme, mas já iam longe. Cinco reclusos tinham fugido do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus, em Alcoentre, região de Lisboa, em plena luz do dia. Quatro dos cinco tinham medidas especiais de segurança e, mesmo assim, conseguiram escapar. Menos de cinco meses depois, Rodolfo Jose Lohrmann, Fábio Loureiro, Mark Cameron Roscaleer, Fernando Ferreira e Shergili Farjiani, com idades entre os 33 e os 61 anos, foram apanhados. Mas voltemos ao início deste filme.
Usaram cordas, escadas, saíram por uma janela, saltaram muros, passaram uma vedação e tinham um carro à sua espera. Partiram rumo à liberdade. Podia ser um filme mas foi a mais pura realidade. E durou apenas seis minutos. Dois portugueses, um argentino, um georgiano e um britânico tinham conseguido escapar de uma das prisões mais seguras do país.
Tudo foi planeado ao pormenor e a ausência dos reclusos só foi detetada 50 minutos depois. Conseguiram planear, provavelmente durante semanas, sem que ninguém se apercebesse. Não foi um momento de oportunidade e algo efetuado em apenas seis minutos, tinham já tudo preparado, como o material nos sítios certos. Falta saber se estava escondido ou foi colocado em momento oportuno.
No dia seguinte, domingo, a Polícia Judiciária (PJ) assumia que se tratava de “gente muito violenta, com enorme capacidade de mobilidade”. Cumpriam penas entre os sete e os 25 anos de prisão, por vários crimes, entre os quais tráfico de droga, associação criminosa, roubo, sequestro e branqueamento de capitais. O diretor nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves, avisou que ninguém deveria esperar “resultados imediatos”. A captura dos evadidos podia demorar anos ou, eventualmente, nunca acontecer.
O grupo planeara tudo com ajuda externa “ao mínimo detalhe” e fugiu pelo lado da prisão que tinha os muros mais baixos. Ligados ao crime organizado e com elevada capacidade financeira, até os cúmplices agiram de cara tapada para não serem identificados. A fita do tempo revela que a fuga teve início às 09:56 e foi comunicada aos órgãos de serviço criminal 50 minutos depois. Só no momento de recolha às celas se deu pela sua falta. Ao serviço estavam 33 elementos da Guarda Prisional num “turno normal”.
Saíram por uma janela e teriam já uma escada para passar um primeiro muro de três metros. O muro seguinte tinha oito metros e para ser ultrapassado podia precisar de duas escadas: uma do lado exterior e outra do lado interior. Poderão ter sido levadas pelos cúmplices ou usaram a mesma, passando-a de um lado para o outro do muro. O próximo obstáculo era uma vedação, com arame farpado e que deveria ser eletrificada, mas não estava a funcionar e todos sabiam isso dentro da prisão. A vedação foi cortada e feito um buraco.
Estava à espera deles um Mercedes que partiu numa estrada de terra batida, com ligação à Estrada Nacional, e seguiu para o IC2. Foi então que se perdeu o rasto dos fugitivos. No exterior, estariam, pelo menos, três indivíduos, vestidos com coletes balísticos, usando material militar e com um aparente conhecimento de táticas mercenárias. Bem preparados para o pior dos cenários.
A fuga "demorou seis minutos", tendo começado às 9:55 e com o último recluso a abandonar o perímetro da prisão de Vale de Judeus às 10:01. Só foi detetada "quase em simultâneo” por dois guardas 59 minutos depois, às 11:00. O alerta só chegou à GNR às 11:18, uma hora e 23 minutos depois do início da fuga. Já Rita Júdice, ministra da Justiça, só foi informada por volta das 12:30, cerca de duas horas e meia depois.
Sabia-se que podiam fugir do país e alguns saltaram mesmo fronteiras. Nas primeiras horas foram feitas operações de trânsito com maior intensidade, mas 50 minutos deram-lhes um bom avanço. A GNR foi a primeira a ser chamada. Depois a PSP.
Todos recapturados
O primeiro
Fábio Loureiro, conhecido como Fábio “Cigano”, foi o primeiro a ser recapturado pelas autoridades. Foi detido a 7 de outubro, um domingo, em Tânger, Marrocos. A PJ conseguiu encontrá-lo após um esquema de vigilância de 24 horas por dia à companheira. Seguiu-a até ao encontro com o marido. Estava numa carrinha de nove lugares com uma pessoa que o estava a ajudar na fuga. O veículo já tinha passado por Sevilha e por outros locais de Espanha, antes de atravessar de barco até Marrocos.
O segundo
Fernando Ribeiro Ferreira, de 61 anos, foi o segundo recluso a ser apanhado pelas autoridades, a 22 de novembro. Estava em Portugal e foi também através da vigilância e monitorização da família e pessoas próximas que possível determinar a sua localização.
Com ele tinha um conjunto de equipamentos tecnológicos que a PJ acredita que possam ter sido usados na fuga da cadeia. “Tinha uma arma com silenciador, várias munições, equipamento tecnológico que permitia comunicar e não ser intercetado.”
O terceiro
Shergili Farjiani, georgiano de 40 anos, foi recapturado a 10 de dezembro, em Pádua, Itália. Quando fugiu estava a cumprir sete anos de cadeia por furto, violência e falsificação. Deverá agora ser transferido para Portugal, onde cumprirá o resto da pena e responderá ainda pelo crime de evasão.
O quarto e o quinto
Mark Roscaleer e Rodolfo Lohrmann eram os que faltavam. Foram apanhados juntos em Alicante, na costa mediterrânica de Espanha. O anúncio foi feito esta quinta-feira, cinco meses após terem fugido de Vale de Judeus.
Porque estavam presos
Rodolfo Jose Lohrmann
Tinha 51 anos quando foi preso pela primeira vez, mas era procurado há vários anos por crimes perigosos. Rodolfo Jose Lohrmann, "El Russo", foi detido em 2016 pela Unidade Nacional contra o Terrorismo, por assaltos a bancos, com um passaporte falso sob o nome de Jose Luis Guevara Martinez.
Tem no currículo crimes como associação criminosa, roubo, detenção de arma proibida, falsas declarações, furto qualificado, branqueamento de capitais e falsificação de documentos, crimes pelos quais foi condenado a 18 anos e 10 meses e mais 10 anos de expulsão do país.
Para além disso, foi ainda acusado de sequestro e extorsão. Era procurado na Argentina desde 2003, pelo rapto de Christian Schaerer, estudante de 21 anos, filho de um empresário da província de Corrientes, perto da fronteira com o Paraguai. O pai de Christian, Pedro Schaerer, ex-ministro da Saúde de Corrientes, pagou o resgate de 277 mil dólares (cerca de 250 mil euros), mas o jovem nunca foi encontrado, suspeitando-se de que tenha sido morto.
Terá assaltado quatro bancos na Grande Lisboa - entre Odivelas e Cascais, de 2014 a 2016. Foi apanhado em Aveiro, precisamente em 2016, na sequência de um assalto a uma ourivesaria.
É um especialista em disfarce e, quando foi detido, tinha na sua posse vários documentos autênticos de países da América Latina. Já tinha estado na prisão de alta segurança de Monsanto e estava em Vale de Judeus, onde era um recluso com escolta.
Fábio "Cigano"
O mais novo do grupo é Fábio Loureiro, conhecido como Fábio "Cigano". Durante muito tempo foi um dos homens mais procurados do Algarve e era conhecido por estar ligado ao crime violento. No seu cadastro constam crimes como injúria, rapto, destruição, sequestro, furto qualificado, detenção de arma proibida, extorsão, associação criminal, tráfico de estupefacientes e roubo.
Na altura em que foi detido tinha na sua posse uma arma de calibre de guerra.
Foi preso pela primeira vez com 19 anos e tem, até ao momento, 26 condenações. Cumpria pena de 25 anos de prisão, sendo um recluso com escolta. Ao longo do tempo em que esteve preso cometeu 29 infrações - algumas das quais levaram a que não pudesse sair da cela durante 30 dias - e fez greve de fome por duas vezes.
Mark Cameron Roscaleer
O cidadão britânico, Mark Cameron, de 39 anos, foi detido pela primeira vez aos 30 anos e já era conhecido no seu país por fugas da cadeia. Foi preso pela Polícia Judiciária do Algarve, em 2019, pelos crimes de rapto e roubo com arma de fogo.
Foi condenado a nove anos de prisão e tinha reapreciação da liberdade condicional agendada para 17 de novembro de 2024 depois da mesma lhe ter sido negada a 14 de novembro de 2013.
Ao longo do tempo em que esteve preso cometeu seis infrações - que levaram a punições como internamento em cela disciplinar e proibição de sair da cela - e passou por cinco estabelecimentos prisionais portugueses: Silves, Lisboa, Faro, Monsanto e Vale de Judeus, sendo também um recluso com escolta.
Fernando Ferreira
Fernando Ribeiro Ferreira, 61 anos, natural de Tarouca, foi preso pela primeira vez com 16 anos e tinha um longo cadastro e 11 condenações. Foi condenado a pena máxima por roubos violentos e sequestro de um empresário em 2009.
Fernando Ribeiro Ferreira é, tal como os outros detidos, particularmente violento, condenado por crimes como associação criminosa, homicídio, rapto, assaltos à mão armada, detenção de arma proibida, explosivos, tráfico de estupefacientes e furto qualificado, entre outros. Foi detido num crime particularmente violento, num rapto, onde a vítima foi agredida e torturada.
Nos últimos anos tentou por diversas vezes ter acesso a saídas precárias que lhe foram sempre negadas dada a extensão da pena e gravidade da atividade criminosa, assim como o facto de ser um recluso com escolta e que ainda não cumpriu 1/4 da pena.
Passou pelos estabelecimentos prisionais de Lisboa, Alcoentre, Monsanto, Coimbra, Caxias, Caldas da Rainha, Pinheiro da Cruz, Faro, Aveiro, Porto, Paços de Ferreira, São João de Deus (Hospital Prisional) e Vale de Judeus. No entanto, não foi a primeira vez que conseguiu fugir da prisão. Em 1989, quando se encontrava detido no Estabelecimento Prisional de Lisboa, consegui fugir, tendo sido recapturado três meses depois. Voltou a fugir três meses depois, em abril de 1990, da prisão de Alcoentre, para onde voltou após a recaptura em julho do mesmo ano. Já em 1999, fugiu da prisão de Caxias, tendo sido recapturado em 2000 e levado para o Estabelecimento Prisional de Lisboa.
Shergili Farjiani
Natural da Geórgia, de 40 anos, o quinto fugitivo é o menos perigoso do grupo. Sergili Farjiani está condenado por furto de qualificado e foi preso pela Polícia de Segurança Pública.
É aquele a quem não é reconhecido um elevado grau de violência e o único dos reclusos sem escolta, apresar de ter ligações à máfia georgiana.
Foi detido pela primeira vez em 2019, com 35 anos, e condenado a sete anos de prisão, sendo que tentou por duas vezes a liberdade condicional. Também tentou uma saída precária, em maio de 2023, que lhe foi negada por não ter sido possível avaliar a morada para onde pretendia ir.
Ao longo do tempo em que esteve detido cometeu 31 infrações e fez greve de fome por quatro vezes.