Pizarro admite mais vagas em Medicina além das sete novas. Estudantes estão contra

Agência Lusa , MBM
3 abr, 12:52
Manuel Pizarro (Lusa/Nuno Veiga)

Estudantes defendem que o aumento de vagas diminui a qualidade da formação médica e não resolve os problemas no sector da saúde

O ministro da Saúde admitiu esta segunda-feira que as vagas em Medicina no Ensino Superior, que este ano são só mais sete, ainda possam aumentar graças ao contingente de cerca de 15% reservado para detentores de outra licenciatura.

O governante que tutela a pasta da Saúde, Manuel Pizarro, disse ter ouvido no domingo o secretário de Estado do Ensino Superior, Pedro Nuno Teixeira, “explicar que estas sete vagas podem ainda ser muito reforçadas”.

“Porque há, todos os anos, um contingente de cerca de 15% das vagas que ficam reservadas para pessoas que já cumpriram outra licenciatura poderem aceder ao mestrado integrado em Medicina”, acrescentou o ministro, em declarações aos jornalistas, em Mourão (Évora).

E, disse Manuel Pizarro, “o que o Governo vai fazer, neste caso através do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, é garantir que todas essas vagas são ocupadas”.

Se uma parte não for ocupada, “elas serão transferidas para o contingente geral, o que significará um reforço que o secretário de Estado estimou entre 150 e 200 vagas [e] esse é já um número com um significado”, frisou.

De acordo com o número de vagas do concurso nacional de acesso ao Ensino Superior, divulgado no domingo pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, tutelado por Elvira Fortunato, “a generalidade dos cursos de Medicina mantém o mesmo número de lugares, que totalizam 1.541 vagas”. As sete novas vagas são nas universidade de Coimbra (cinco) e do Minho (duas), noticia o jornal.

Manuel Pizarro revelou que o grupo de trabalho conjunto a criar entre o Ensino Superior e a Saúde, anunciado pela ministra Elvira Fortunato, “visa ultrapassar as dificuldades” existentes na área da formação.

“É um grupo de trabalho que visa estudar a realidade atual, verificar se há necessidade de ampliar o número de vagas, se é possível ampliar o número de vagas nas atuais faculdades de Medicina públicas, que são oito, ou se é necessário alargar a formação a outras estruturas públicas de ensino superior”, afirmou, esperando o relatório ainda este ano.

Sem preconceitos em relação ao ensino privado na área da Medicina, Pizarro defendeu, contudo, que, “para formar os médicos de que os país precisa”, são mesmo necessários “a universidade pública e o SNS”.

Estudantes contestam o aumento de vagas

O presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) manifestou-se esta segunda-feira contra o aumento de vagas de Medicina no Ensino Superior, alegando que diminuirá a qualidade da formação médica e não resolverá os problemas no setor da saúde.

Para o presidente da ANEM, Vasco Cremon de Lemos, “não faz sentido aumentar o número de vagas em Medicina”, considerando que este aumento “em nada resolverá os problemas” que Portugal enfrenta neste momento na saúde.

No seu entender, o aumento do número de vagas “diminuirá a qualidade da formação médica”, bem como “a oportunidade dos estudantes terem contacto personalizado com os doentes”.

Diminuirá também os recursos disponíveis para cada estudante, os lugares disponíveis em termos de infraestruturas, uma vez que, disse, “as faculdades estão preparadas para ter muito menos estudantes do que os que já recebem atualmente, e este aumento em nada apoiará isso e, acima de tudo, diminuirá a humanização da medicina”.

Para Vasco Cremon de Lemos, os “únicos aumentos” que se observam são “o aumento do subfinanciamento da formação”, dos rácio estudante/tutor e estudante/doente, o que, na sua opinião, “trará implicações éticas muito graves para a prestação de cuidados para o futuro da profissão e, sobretudo, para a formação médica”.

Afirmando que não consegue perceber “o racional por trás desta medida”, o presidente da ANEM manifestou ainda preocupação com o facto do número de vagas poder aumentar.

“Ontem [domingo] o secretário de Estado [do Ensino Superior, Pedro Nuno Teixeira], indicou que este aumento pode crescer até às 200 vagas e isso é uma coisa que nos preocupa bastante”, sublinhou.

Em declarações à RTP3, Pedro Nuno Teixeira afirmou que “a Medicina merece uma explicação, devido a alterações” que foram feitas.

Antes, o curso de Medicina reservava 15% de vagas para licenciados em áreas próximas, vagas essas que, se não fossem preenchidas, eram perdidas.

Agora, essas vagas não preenchidas reverterão para o concurso nacional de acesso, pelo que o número de vagas disponíveis para Medicina poderá aumentar até duas centenas, disse o governante.

Para Vasco Cremon de Lemos, este incremento de 200 vagas a nível nacional “seria catastrófico”: “Seria o maior aumento nos últimos anos e é algo para o qual acredito genuinamente que as faculdades não estão preparadas” devido à falta de financiamento.

Questionado se não resolveria o problema da falta de médicos, explicou que “formar médicos não acrescenta nada a esse problema: Apenas aumentará o número de profissionais, como em qualquer profissão”.

“A questão aqui é onde estão os médicos e onde é que nós queremos que os médicos estejam, porque quando falamos da falta de médicos, referimo-nos à falta de médicos no SNS [Serviço Nacional de Saúde] e não há falta de médicos ‘per si”, referiu Vasco Cremon de Lemos.

Defendeu ainda que, para reter os médicos no SNS é preciso criar condições atrativas e melhorar as condições de trabalho e qualidade de vida dos profissionais.

 

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