Se há evidência da segurança da vacina pediátrica, porque é que as opiniões médicas se dividem?

10 dez 2021, 07:00
vacinação pediátrica contra a covid-19
vacinação pediátrica contra a covid-19

Uns avisam que não faz sentido vacinar crianças saudáveis, outros defendem que só a vacina lhes devolverá a vida “normal”. A CNN Portugal foi perceber porque é que não há consenso médico quanto à vacinação das crianças dos cinco aos 11. Ontem, numa posição técnica, a DGS justificou a decisão com a incidência da Ómicron nesta faixa etária

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"Ninguém é contra estas vacinas que mostraram resultados fantásticos de redução de mortalidade”. A frase é de Jorge Amil Dias, presidente do colégio de pediatria da Ordem dos Médicos, para explicar que apesar das divisões e opiniões contrárias todos continuam a acreditar na ciência. 

Isto é universalmente reconhecido e só quem vive nas nuvens e inventa teorias da conspiração é que nega que as vacinas não foram preciosas para evitar a mortalidade”, afirma.

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No entanto, a vacinação das crianças, ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias, está a lançar dúvidas e o debate entre a própria comunidade médica.

Direção-Geral da Saúde divulgou ontem um documento com uma posição técnica onde explica que a incidência da covid-19, nomeadamente da nova variante nas crianças, foi um dos motivos que a levou a dar luz verde ao processo de vacinação nestas idades nos próximos dias.

A vacina é segura?

Os especialistas são unânimes ao afirmar que a vacinação é segura.

“As vantagens são imensas, desde logo pela segurança e eficácia da vacina”, diz Alberto Caldas Afonso, diretor do Centro Materno Infantil do Norte - CHPORTO. “Não é uma questão de fé ou opinião pessoal”, defende o pediatra.

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A medicina baseia-se em evidência científica e as duas maiores agências de certificação de dispositivos médicos deram a validação científica [à vacina]”, argumenta ainda o médico, referindo-se à Food and Drugs Administration (FDA) e à Agência Europeia do Medicamento (EMA), sendo que esta última deu luz verde à vacina da Pfizer/BioNTech (Comirnaty) a 25 de novembro.

Também Maria João Baptista, médica especializada em cardiologia pediátrica e diretora clínica do Centro Hospitalar Universitário São João no Porto, considera que a “vacina é segura e com poucos efeitos colaterais”.

No final do mês de novembro, a Sociedade Portuguesa de Pediatria classificou como “segura” a vacinação de crianças dos cinco aos 11 anos, tendo por base um estudo norte-americano que envolveu 1.500 crianças. 

Há mais riscos ou mais benefícios?

Se todos estão de acordo quanto à segurança da vacina, o mesmo não acontece quanto à relação entre o risco e o benefício. Alguns médicos consideram que as vantagens são superiores aos eventuais riscos e outros defendem o contrário. 

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É o caso de Cristina Camilo, presidente da Sociedade de Cuidados Intensivos Pediátricos, para quem as crianças não vão beneficiar das atuais vacinas que apenas impedem a gravidade da doença que elas não têm.

Para os adultos, mesmo não se sabendo os efeitos que a vacina tem a longo prazo e tendo em conta a mortalidade e gravidade da doença, o risco- benefício fazia sentido, no caso das crianças essa relação não existe”, diz Cristina Camilo. Ou seja, a médica considera que nem mesmo o argumento de que as vidas permitem normalizar a vida é um argumento.  “A vacina não lhes vai normalizar a vida”, pois, a não ser que as regras mudem a curto prazo, continua-se a pedir testes e a pôr alunos vacinados em casa.

Para a especialista, nem mesmo o argumento de que ao serem vacinados vão poder ter um dia-a-dia mais normal é suficiente, pois, a não ser que as regras mudem a curto prazo, continua-se a pedir testes e a pôr alunos vacinados em casa - algo sobre o qual a Sociedade Portuguesa de Pediatria já tinha alertado.

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Também Jorge Amil Dias, presidente do colégio de pediatria da Ordem dos Médicos, considera que esta relação de risco-benefício “não está claramente demonstrada”.

E para o médico há um argumento de peso que o faz questionar a necessidade da administração da vacina, mesmo que tenha um terço da dose da que é administrada nos adultos. “As crianças estão, na sua grande maioria, imunizadas” pelo vírus de forma natural e “se o processo de imunização natural está a decorrer sem sobressaltos, porque é que é preciso iniciar um programa de vacinação se a imunização já está a ser conduzida pela própria natureza?”, questiona.

Já a médica Maria João Baptista acredita que dar a vacina agora vai trazer benefícios: “São mais dificilmente quantificáveis mas têm mais peso do que noutros grupos etários, como a possibilidade de ir à escola, para além dos benefícios sociais, emocionais e psicológicos”. Por isso, para a cardiologista, uma vez que a vacina é segura, estes benefícios são suficientes para avançar.

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Também Alberto Caldas Afonso, diretor do Centro Materno Infantil do Norte - CHPORTO, refere que a vacinação das crianças é importante e deve acontecer, até porque “os riscos [desta vacina] em nada de diferem do que temos com qualquer vacina, são diminutos” e “as vantagens são imensas, desde logo pela segurança e eficácia da vacina”.

O que fazer no caso das crianças com doenças graves?

Crianças do grupo de risco, como as imunossuprimidas ou com patologia oncológica, estarão na lista de prioridades para a vacinação, tal como aconteceu com os adultos. 

Enquanto para as crianças saudáveis o médico Jorge Amil Dias considera que não é claro que haja mais benefícios do que riscos, para as que têm outros problemas de saúde, já tem uma posição diferente: “Havendo uma vacina que mostra mais benefícios do que riscos, faz sentido vacinar estas crianças”. 

Quais são os efeitos adversos da vacina?

Tal como qualquer outra vacina, há sempre riscos associados. No caso da vacina contra a covid-19, “os resultados dos ensaios [feitos] nesta faixa etária, até 11 anos” mostram que “muitos dos efeitos, os dias de febre, as dores no corpo e as dores articulares que se via nas faixas etárias mais velhas, apareciam muito menos” nas crianças, explica Caldas Afonso.

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Mas se há tão poucos internamentos em cuidados intensivos faz sentido vacinar as crianças?

Para Maria João Baptista, médica especializada em cardiologia pediátrica e Diretora Clínica do Centro Hospitalar Universitário São João no Porto, diz que não se deve apenas olhar para a vacina como forma de prevenção de catástrofes. 

Não vamos pensar que só queremos proteger as crianças se isso implicar um número de mortes elevado, estamos noutro patamar”, garante a especialista, alegando que o que todos os médicos querem é um menor risco possível para as crianças. 

Na sua opinião “é mais seguro tomar a vacina do que ter a doença”. 

Para a cardiologista pediátrica, todos os casos têm de contar para a equação. “No meu entender, cada vida e cada internamento contam”, diz, admitindo, no entanto, que “nenhuma criança saudável morreu em Portugal de covid-19 entre os cinco e os 11 anos”.

“Mas evitar internamentos é um dos benefícios”, garante. Lembrando que faz cuidados intensivos e que tem noção das poucas crianças internadas nessas unidades, defende que, tendo conta que a vacina é segura, faz sentido vacinar evitar que uma ou duas fossem parar a esses serviços.

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Desde o início da pandemia, 217 crianças entre os 5 e os 11 anos estiveram internadas com covid-19, revelam dados apurados pela CNN Portugal junto da DGS, que dá ainda conta de que, até 3 de novembro, dos episódios de internamento com diagnóstico principal ou adicional de covid-19 registados neste grupo, 20 estiveram em Unidades de Cuidados Intensivos.

Já a médica Cristina Camilo, apesar de salientar que todos os casos são importantes, mesmo que só houvesse uma criança em cuidados intensivos, considera que estes números revelam o fraco impacto que o Sars-CoV-2 tem nas crianças e que isso tem de ser levado em conta na hora de decidir vacinar. “Até porque esta vacina não previne a doença, aí já seria uma situação diferente”. Segundo a médica, se as vacinas tivessem essa função, já a aconselharia.

Estamos a vacinar as crianças para proteger os adultos?

A ideia de que as crianças vão ser vacinadas para proteger os adultos tem sido uma das questões levantadas nos últimos dias. Ao todo, estão elegíveis para vacinação 638 mil crianças entre os cinco e os 11 anos e o pediatra Alberto Caldas Afonso, também coordenador da Unidade de Pediatria do Hospital Lusíadas Porto, garante que “contrariamente do que dizem, há vantagens individuais para as crianças”. 

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Segundo o médico, as pessoas que defendem esta teoria, de que os mais novos serão vacinadas para proteger os adultos, são as que “não têm uma responsabilidade direta em tratar crianças”.

Embora reconheça que “a proteção coletiva é muito importante”, o especialista defende que “há vantagens diretas” em vacinar, sobretudo no que diz respeito à possibilidade de evitar a interrupção do período escolar, seja por confinamentos ou por surtos em escolas

Maria João Baptista, também garante que as vacinas são úteis para esta faixa etária. “Vamos ter um ganho efetivo, pela possibilidade de irem à escola, de terem atividade desportiva e de terem uma vida normal”. No entanto, Cristina Camilo duvida que seja a vacina que vá devolver o dia-a-dia. Para a presidente da Sociedade de Cuidados Intensivos Pediátricos, mais do que inocular as crianças dos cinco aos 11 anos, é preciso "apostar no reforço da terceira dose nos mais velhos”.

É melhor adiar a vacinação?

Este é dos assuntos que mais divide os médicos. Uns consideram que deve acontecer o quanto antes para aumentar a proteção a curto prazo, outros defendem que se deve esperar por mais informação e até novas vacinas.

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Maria João Batista, do Hospital São João, destaca que, perante as novas variantes, “não há muito tempo”. 

“Temos de tomar decisões e ser rápidos”, avisa, considerando que faz sentido vacinar as crianças agora no inverno. “Temos de vacinar as crianças neste período que é de atividades letivas e onde há mais contactos e também pelas características do inverno, em que há mais probabilidade de haver infecção”, explica a médica, que salienta que “o objetivo é vacinar neste momento e proteger as crianças nos próximos meses”.

Se conseguirmos evitar a disseminação da doença neste grupo etário é agora que somos úteis, é agora que temos de agir e proteger”, atira Maria João Baptista.

Numa posição diferente está Jorge Amil Dias que diz que “seria prudente esperar para acumular mais dados e decidir o que fazer”.

Cristina Camilo também é defensora de maior prudência. “Devemos esperar pelos resultados de outros países e pela atualização das vacinas”. Até lá, não tem dúvidas: “A todos os meus amigos e familiares que me perguntam, eu digo para esperarem e não vacinarem já os filhos”.

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