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Vacinação ao longo da vida: dos 0 aos 100, rumo a uma vida mais longa e saudável

19 mai, 12:27
Nuvaxovid, vacina da Novavax
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A celebração da Semana Europeia da Imunização, sob o lema poderoso “Para cada geração, as vacinas funcionam”, é o momento ideal para Portugal refletir sobre a sua situação atual nesta área da prevenção. Estamos, de facto, a cumprir esta promessa para todas as gerações, em particular para as mais vulneráveis?

 Como médica geriatra, vejo diariamente o culminar de múltiplas falhas e oportunidades perdidas ao longo de décadas. A ausência de estilos de vida saudáveis, incluindo alimentação inadequada, sedentarismo, tabagismo e consumo de álcool, a par da falha no rastreio e tratamento atempado de doenças, contribui para gerações mais velhas mais vulneráveis e frágeis. Esta vulnerabilidade traduz-se num risco acrescido de doenças infeciosas, incluindo nas suas formas mais graves, com impacto significativo na capacidade física e cognitiva, na autonomia e na qualidade de vida. Muitas destas situações levam à dependência funcional, à hospitalização, à institucionalização e, em alguns casos, à morte precoce — isto após uma vida inteira de contributos para a sociedade.

Perante esta realidade, precisamos de um compromisso reforçado com a prevenção, nomeadamente através da vacinação sistemática da população adulta, em particular dos mais velhos, garantindo cobertura alargada e acesso às vacinas mais eficazes.

O exemplo da gripe é paradigmático: todos os anos, está associada a um aumento significativo da carga assistencial nos hospitais. Pode evoluir para complicações graves, como pneumonia, frequentemente com necessidade de oxigenoterapia ou até ventilação mecânica, contribuindo para o aumento da mortalidade durante os meses de inverno. Pode mesmo levar à incapacidade de responder aos restantes doentes com outras patologias.

Portugal orgulha-se, e com razão, do seu Programa Nacional de Vacinação, cuja robustez na população infantil contribuiu decisivamente para a redução da mortalidade infantil ao longo das últimas décadas. No entanto, é imperativo que esta mesma ambição se estenda à idade adulta, sobretudo à população mais velha.

Mas o verdadeiro desafio está na continuidade da proteção ao longo do ciclo de vida. O calendário vacinal, tão estruturado na infância, dilui-se na idade adulta, criando um vazio de acompanhamento durante décadas, precisamente numa fase em que se acumulam fatores de risco com impacto em idades mais avançadas.

Numa altura em que tanto se fala de longevidade e em como dar vida aos anos conquistados, importa estabelecer medidas que minimizem a diminuição das reservas fisiológicas, garantindo a manutenção da saúde. Vacinar ao longo da vida contribui para o “treino” do sistema imunitário, permitindo uma resposta mais eficaz quando ocorre contacto com agentes infeciosos, evitando a infeção ou reduzindo a sua gravidade.

Um dos mecanismos reconhecidos na génese do envelhecimento dos vários órgãos e sistemas é a inflamação. Prevenir essa inflamação, incluindo a associada a infeções aparentemente banais ao longo da vida, poderá ser uma estratégia relevante para alcançar idades mais avançadas com menos défices, melhor função orgânica e maior capacidade de resposta aos desafios do envelhecimento biológico. Por exemplo, existe evidência de que a exposição a diferentes vírus ao longo da vida, incluindo o vírus da gripe, está associada ao aumento do risco de doenças neurodegenerativas, nomeadamente demência. Paralelamente, alguns estudos sugerem que a vacinação contra a gripe, a difteria, o tétano e a poliomielite poderá estar associada a uma redução do risco de doença de Alzheimer.

O mesmo mecanismo inflamatório poderá também explicar a associação entre a gripe e o aumento do risco de acidente vascular cerebral e enfarte agudo do miocárdio. Isto ajuda a compreender por que motivo a vacinação contra a gripe com vacinas de dose elevada em indivíduos mais velhos, se associa a menor taxa de hospitalização por gripe e pneumonia, mas também por eventos cardiovasculares.

Se o envelhecimento está associado ao aumento global da inflamação, por outro lado verifica-se uma diminuição da proteção conferida pelo sistema imunitário — fenómeno designado por imunossenescência. É, por isso, um facto estabelecido que as pessoas mais velhas têm menor capacidade de resposta à infeção, com maior risco de ocorrência e gravidade.

Neste contexto, adaptar e reforçar as estratégias de vacinação na população mais velha é uma prioridade. Trata-se não apenas de um investimento individual, mas também de um investimento coletivo, uma verdadeira estratégia de saúde pública que importa consolidar para garantir a sustentabilidade e eficiência de um sistema de saúde cada vez mais fragilizado, face ao envelhecimento da população e limitação de recursos. A prevenção de internamentos, complicações e perda funcional traduz-se em ganhos claros em saúde, mas também em eficiência do sistema.

O lema da Semana Europeia da Imunização, ao afirmar que “as vacinas funcionam para cada geração”, aponta para uma estratégia clara: a vacinação ao longo da vida. Esta deve abranger dos 0 aos 100 anos, todas as fases da vida, e ser adaptada à idade, ao risco e à evidência científica. Os seus objetivos incluem proteger os mais jovens (com sistema imunitário em desenvolvimento), evitar a acumulação de défices imunitários e inflamação, prevenir doenças incapacitantes na velhice e formas graves de infeções nos idosos.

Proteger o adulto é proteger o idoso de amanhã. E proteger os mais velhos é garantir um envelhecimento mais saudável, mais autónomo, com qualidade de vida e dignidade e, simultaneamente, um sistema de saúde mais resiliente para todos.

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