"Campanha de intoxicação", pais cautelosos, divergências entre peritos: explicações para só haver metade das crianças vacinadas

12 jan, 07:00
Vacinação pediátrica no Centro de Vacinação do Funchal
Vacinação pediátrica no Centro de Vacinação do Funchal

Entre os dias 6 e 9 de janeiro foram vacinadas cerca de 300 mil crianças, apenas metade das elegíveis pela Direção-Geral da Saúde. Trata-se de um resultado que pode ser o reflexo da divisão que se instalou entre pais e pediatras, apontam especialistas ouvidos pela CNN. Há mesmo quem fale em “campanha de intoxicação, nomeadamente de pessoas com responsabilidades”

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Devemos dizer que metade das crianças entre os 5 e 11 anos já foi vacinada contra a covid-19 ou que metade ainda não foi vacinada? 

Entre 6 e 9 de janeiro, o primeiro período exclusivo de vacinação desta faixa etária, foram vacinadas 300.481 crianças - 48% das 626.000 elegíveis, como indicou a Direção-Geral da Saúde (DGS). Deste universo, é preciso retirar cerca de 45.000 que recuperam da doença após infeção (7,2%) e que não podem ser vacinadas desde já, sobrando 44,8% de crianças por vacinar.

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Não se trata de uma questão de copo cheio/copo vazio mas, calculam os especialistas contactados pela CNN Portugal, é provavelmente um reflexo da divisão que se instalou entre pais, pediatras e mais ou menos peritos na matéria. “A taxa de vacinação não foi má, já me poupa crianças nos hospitais”, diz a infecciologista pediátrica Maria João Brito, do Hospital D. Estefânia. “Trata-se de uma vacina segura, que diminui a síndrome inflamatória multissistémica. Acho que é uma maldade o que se faz aos pais, basta explicar”, defende.

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Uma das explicações para esta adesão é o facto de muitos pais quererem esperar pelos primeiros resultados da vacinação, ou seja, se houve reações ou se as reações foram graves. “Eventualmente, os pais tiveram uma atitude mais cautelosa, de ver o que ia acontecer, os efeitos, as reações adversas e agora vão sentir-se mais seguros por ver que decorreu tudo com normalidade”, considera a médica Eunice Trindade, diretora de Serviço de Pediatria do Hospital de São João, no Porto.

Mas tal como a cautela, a percentagem de crianças vacinadas reflete também a divisão que surgiu com a necessidade ou não de vacinar um grupo etário que se considerava resistente à doença. “Tendo em conta as muitas dúvidas, a ausência de uma posição muito consensual, não fico surpreendida [com os 48%]. Traduz um pouco o facto de haver uma divisão entre os pediatras, na minha opinião”, aponta Eunice Trindade.

A diretora de Serviço de Pediatria do São João defende a vacinação das crianças e recomenda-a aos pais que a questionaram sobre o assunto, mas, não sendo contra o processo, Jorge Amil Dias, presidente do colégio de pediatria da Ordem dos Médicos, continua a defender que este “não era um assunto prioritário”. “Da mesma maneira que a comunidade médica tinha demonstrado divisões, consequentemente estas ambivalências também se manifestaram nos pais”, diz o pediatra.

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Jorge Amil Dias mantém o argumento de que as crianças estão na sua maioria imunizadas, pelo que “uma boa parte das crianças vacinadas já contactou com o vírus”. “Se esta percentagem de vacinados vai afetar a evolução da doença, penso que não”, acrescenta. “Por demonstrar”, sublinha, está de que modo esta vacinação vai servir perante a variante Ómicron ou para travar os casos de MISC, a síndrome inflamatória multissistémica. 

O pediatra aplaude, no entanto, o que considera ser uma “decisão muito sensata” por parte da DGS, que determinou que uma criança que contacte com um caso positivo na escola não precisa de ficar em isolamento. “Foi uma excelente decisão. Quem está doente está, sem haver segregação”, observa Jorge Amil Dias.

"Campanha de intoxicação de pessoas com responsabilidades"

Já o médico Bernardo Gomes, especialista em saúde pública, não tem dúvidas de que a percentagem de crianças vacinadas, ainda que “razoável”, reflete “a campanha de intoxicação, nomeadamente de pessoas com responsabilidades”. “Lançou-se o medo sobre uma vacina que é segura e que tem provas dadas na proteção contra a MISC”, lamenta, apontando “os artigos de opinião, as entrevistas na televisão e os comentários no Facebook” de pessoas que nunca o deveriam ter feito.

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“Não critico os pais, como é óbvio, que tentaram procurar fontes de informação. Mas a quantidade de falsidades, de extrapolação, que não tem base científica...” Bernardo Gomes também não duvida por isso que a taxa de vacinação vai subir porque os pais, “com o tempo, vão perceber que é segura”.

Para a DGS, o mais importante era vacinar “o maior número possível” de crianças. Logo na manhã de domingo, o último dia dedicado até aqui à vacinação pediátrica, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde avançou com uma estimativa de 45% de vacinados. Lacerda Sales defendeu que esse valor permitiria reunir “todas as condições para começar o ano letivo com segurança”, tranquilidade para a qual também contribuiria a dose de reforço dos docentes e não docentes.

Certo é que, com os números de casos diários a aumentar, haverá mais crianças infetadas e que por isso não se podem vacinar. Aliás, a própria DGS sublinhou à CNN Portugal que o número de 45.000 crianças infetadas/recuperadas, os tais 7,2% que não se puderam vacinar, estará já desatualizado e para tal basta olhar para o boletim epidemiológico diário: nas últimas 24 horas, só na faixa etária dos menores de dez anos, registaram-se mais 2.282 novos casos.

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A DGS sabe que a adesão à vacinação “é progressiva, vai aumentando com a passagem do tempo” e, nesse sentido, “haverá novas oportunidades” já no início do próximo mês: a partir de 5 de fevereiro, e até 13 de março, vão ser dadas não só as segundas doses pediátricas, como as crianças que não se vacinaram na primeira fase vão poder fazê-lo.

 

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