Relatório revela que um agente da polícia de Uvalde teve a oportunidade de alvejar Salvador Ramos - mas parou para pedir permissão. A hesitação pode ter custado 21 vidas

7 jul, 23:22
Tiroteio em Uvalde, Texas (Associated Press)

Uma nova análise revela (mais) provas de hesitações, erros e oportunidades perdidas por parte das forças policiais do Texas

Um novo relatório vem reacender a onda de indignação gerada pela atuação da polícia no massacre de Uvalde, o mais letal dos Estados Unidos desde Sandy Hook. As conclusões desta avaliação, elaborada por um centro de formação para situações de tiroteios da Universidade do Estado do Texas, ecoam as críticas que têm sido apontadas desde o fatídico 24 de maio: algumas das 21 vítimas - entre as quais 19 crianças - "poderiam ter sido salvadas" se a polícia tivesse atuado mais cedo.

O documento de 26 páginas, divulgado esta quarta-feira, baseou-se em filmagens recolhidas no sistema de vigilância da escola, câmaras corporais usadas pelos agentes e testemunhos das autoridades e investigadores. 

Um polícia em particular, não identificado, terá observado o atirador de 18 anos a entrar no recinto escolar por volta das 11:33 da manhã (16:33 em Portugal), carregando uma espingarda semiautomática. De acordo com o relatório, o agente pediu autorização ao supervisor para disparar - do outro lado da linha, o superior "ou não ouviu, ou respondeu demasiado tarde". O momento de hesitação foi decisivo. Quando o agente em questão redirecionou a atenção para o alvo, Salvador Ramos já tinha entrado, "inabalável", no interior da escola.

Quando confrontado com estes dados, o elemento das autoridades texanas alegou não ter agido com "receio" de que a proximidade com a escola resultasse num tiro mal calculado e, na pior das hipóteses, alvejasse os estudantes no interior. 

"No fim de contas, a decisão de usar força letal depende sempre do agente que a vai usar", continua o documento, explicitando que o objetivo da discussão não é "menosprezar as ações tomadas pelas forças policiais durante este incidente", mas sim melhorar a capacidade de resposta em ocasiões futuras. "Se o agente não estava confiante de que poderia atingir o seu alvo - ou o pano de fundo do alvo, caso falhasse - então não deveria ter disparado". 

Mas a conduta individual deste polícia não foi o único objeto de análise por parte do recém-divulgado relatório. Nas restantes páginas, são denunciados outros métodos de atuação e abordagens adotados pelas forças de intervenção que se revelaram inadequados.

Já no interior do edifício, os agentes que aguardavam nos corredores não verificaram se as portas das salas de aula estavam trancadas. Quando as autoridades finalmente acederam ao interior das mesmas, mais de uma hora após o avistamento do suspeito, não dispunham de meios e equipamentos reforçados. Ainda assim, sublinha o centro de formação da Universidade do Texas, os polícias tinham em sua vantagem "armas (incluído espingardas), blindagem corporal e treino. As vítimas nas salas de aula não tinham nenhumas destas coisas". 

Parte um de três. Mais informações vão sendo divulgadas, perante o silêncio das autoridades

Esta é a mais recente análise crítica do massacre à escola primária texana - mas está longe de ser a única. 

O diretor do Departamento de Segurança Pública do Texas, o coronel Steven McCraw, tinha classificado há um mês a resposta das forças policiais como um "fracasso abjeto" - e culpou, em particular, o então Chefe da Polícia, Pete Arredondo, por "decisões terríveis" que impediram que os agentes tivessem confrontado o atirador a tempo. 

Pete Arredondo procurou defender-se, argumentando um mal entendido: não sabia ser responsável pelas operações, que julgava terem sido atribuídas a um outro agente. Justifica ainda a demora na aquisição de equipamento e reforços com a ausência do seu habitual rádio da polícia, tendo recorrido ao telemóvel pessoal. 

No entanto, o relatório divulgado na quarta-feira pinta um cenário diferente. Nestas novas informações, é revelado que Arrendondo e um outro polícia de Uvalde terão despendido cerca de um quarto de hora nos corredores da escola primária, discutindo entre si opções táticas, a possibilidade de entrar pelas janelas e a necessidade (ou não) de recorrer a atiradores furtivos. 

"Discutiram também quem tinha as chaves, o teste das chaves, a probabilidade da porta estar trancada, e se as crianças e os professores estariam a morrer ou já mortos", acusa o documento. 

O advogado do chefe da polícia, que entretanto se demitiu, recusou-se a comentar ou a atestar a veracidade destas informações. A porta-voz do departamento policial da cidade de Uvalde declinou, igualmente, prestar declarações.

Enquanto os envolvidos no massacre se remetem ao silêncio, novas revelações vão sendo descobertas e partilhadas com o público. Pete Blair, o diretor executivo do centro de formação da Universidade do Estado do Texas, anunciou que esta é apenas a primeira parte de um estudo completo que deverá ser constituído por três partes. 

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