Das 11:00 às 13:06. A cronologia do massacre, o que fez Salvador Ramos e o que podia ter ou não feito a polícia (enquanto os pais desesperavam à porta da escola)

27 mai, 18:00

Tudo começou com o atirador a balear a avó, para depois acabar também ele baleado, na escola primária de Uvalde. Pelo meio foram vários minutos de terror, dentro e fora da escola. Entre a chegada ao local e a morte do atirador, a polícia demorou mais de uma hora. E é isso que os pais não perdoam

O massacre na escola primária de Uvalde, no Texas, foi um dos piores na história dos Estados Unidos. Ainda há muito para saber sobre o dia em que 19 crianças e duas professoras morreram às mãos de um jovem de 18 anos. Com as informações das autoridades, das testemunhas e da imprensa norte-americana, tentamos perceber o que se passou naquela terça-feira (as horas utilizadas são sempre as locais, menos seis horas do que em Portugal continental):

Por volta das 11:00, a polícia de Uvalde recebia uma chamada de uma senhora de 66 anos que se queixava que o neto a tinha baleado. Era a avó de Salvador Ramos, jovem responsável pelo ataque à escola. As autoridades não revelaram a hora exata da chamada, mas publicações do rapaz no Facebook ajudaram a descobrir.

É que, cerca de 30 minutos antes de chegar à escola, o jovem enviou uma mensagem no Facebook, na qual dizia ter a intenção de disparar sobre a avó. Na mesma plataforma, e 15 minutos mais tarde, enviava outra mensagem, agora a dizer que ia “disparar numa escola primária”. Ambas as informações foram fornecidas pelo governador do Texas, Greg Abbott.

Segundo a CNN, o jovem terá enviado as mensagens a uma rapariga que vive na Europa, e que conheceu online.

Cerca das 11:28, Salvador Ramos embatia com o carro num obstáculo perto da escola. Estava a conduzir uma carrinha Ford, que pertence à avó.

O aparato com que o jovem chegou foi semelhante a um acidente, o que chamou a atenção dos residentes. Um homem acabou por sair de casa e viu o rapaz a sair do carro enquanto carregava o que parecia ser uma espingarda. Ligou de imediato para as autoridades. As informações foram corroboradas pelo porta-voz do Departamento de Saúde Pública do Texas, Travis Considine, e pelo diretor-regional do Departamento de Saúde Pública, Victor Escalon.

Duas mulheres tentaram ajudar Salvador Ramos depois do suposto acidente, mas o jovem disparou seis tiros. Foi o que contou Derek Sotelo, que estava a trabalhar ali perto e se apressou para o local. Quando lá chegou, as mulheres disseram que tinham disparado contra elas. Victor Escalon confirmou mais tarde que duas “testemunhas” foram baleadas. Salvador Ramos continuou para a escola: “Agora está no parque de estacionamento, a disparar contra a escola. Várias vezes”, acrescentou o responsável.

Às 11:40, o jovem entra no recinto da escola sem impedimentos. Victor Escalon sinalizou que a entrada se deu “pelo lado oeste” da escola: “Não foi confrontado por ninguém.”

É neste momento que começa alguma confusão, já que alguns responsáveis do Departamento de Saúde Pública disseram, antes da conferência de imprensa, que um polícia se tinha envolvido em disparos com Salvador Ramos, e que tinha ficado ferido. Victor Escalon acabou por dizer, mais tarde, que essas informações tinham sido "imprecisas". 

Às 11:43, a escola anunciava nas redes sociais que estava fechada “devido a tiros na zona”, afirmando que os estudantes e os colaboradores estariam “seguros dentro do edifício”. Esta publicação foi depois apagada.

Às 11:44, chegava a polícia, sendo recebida com tiros. O jovem conseguiu entrar na escola através de uma porta nas traseiras.

“Ouvem tiros. Fazem rondas. Recuam e protegem-se”, descreveu Victor Escalon, acrescentando que, nessa altura, os agentes conseguiram aproximar-se da localização do suspeito.

Salvador Ramos acabaria por conseguir entrar numa sala de aula do quarto ano, barricando-se lá dentro com os alunos e as duas professoras, como explicou Chris Olivarez à CNN: “Barricou-se ao fechar a porta e começou a disparar contra as crianças e as professoras que estavam na sala.”

Os polícias continuaram no local, fora da escola, mas não conseguem avançar devido aos tiros, garantiu Victor Escalon.

Às 11:54, é filmado um vídeo em que se veem familiares das crianças frustrados com o trabalho da polícia. Os pais criticam a resposta dos agentes, e ouve-se um homem a dizer que “eles têm de entrar”, acusando a polícia de “ficar cá fora”.

O vídeo continua, e por volta das 12:00 são vistos familiares a confrontar um polícia, que acaba por empurrar um homem ali presente, gritando às pessoas que recuem para o outro lado da estrada.

"Deixem-nos fazer isto", pode ouvir-se por parte dos familiares, que mostravam raiva e desespero e queriam ser eles a entrar na escola.

Pela mesma hora, vê-se um conjunto de crianças a fugirem da escola, enquanto a polícia tenta reunir “equipamento especial”, como coletes à prova de bala, mas também negociadores, enquanto continua a retirada de professores e alunos que estavam noutras salas.

“Estavam a levar tiros, a criar uma equipa para entrar e parar o homem”, descreveu Victor Escalon.

Pelas 12:23, a cena “mantém-se ativa”, confirma a polícia numa publicação no Facebook, em que dá as primeiras indicações aos pais: deviam dirigir-se ao Willie de Leon Civi Center, a cerca de cinco minutos de carro da escola. Às 12:30, a polícia identificava aquele como o local do “reencontro” dos familiares com as crianças.

Mas o tiroteio continuava. Às 12:51, num áudio dos serviços médicos obtido pelo The Washington Post, ouve-se “tiros disparados”.

Apenas às 13:06 a polícia dá o atirador como neutralizado, tendo os agentes abatido Salvador Ramos. Ao todo, estiveram no local mais de 150 agentes das autoridades.

O tiroteio durou cerca de uma hora, durante a qual uma sala de alunos entre os 9 e os 11 anos foi palco de terror. Os sobreviventes contaram o que se passou, como alguns se conseguiram esconder debaixo de mesas ou tiveram de se fingir de mortos para não serem alvo do atirador.

Feitas as contas, mais de uma hora passou entre a chegada de Salvador Ramos à escola e a entrada da polícia na sala onde o atirador se barricou. Esta demora foi ponto de discussão numa conferência de imprensa desta quinta-feira, na qual os meios de comunicação social confrontaram as autoridades.

“O que estavam a fazer entre as 11:44 e as 12:44?”, perguntou um jornalista a Victor Escalon, para depois questionar se tinham sido seguidas as melhores práticas no caso.

Victor Escalon desviou a pergunta, e disse apenas que “voltaremos ao tema para vos responder a todas as questões”. A conferência de imprensa terminou assim, de forma abrupta, com os agentes da polícia a deixarem o local sem mais comentários.

Sabe-se agora que havia cerca de 20 agentes dentro da escola, posicionados no corredor de acesso às salas de aula, que acreditavam que o atirador estava barricado sozinho e que não havia crianças em perigo. A informação foi revelada pelo Diretor do Departamento de Segurança Pública do Texas, numa nova conferência de imprensa, realizada nesta sexta-feira.

A revolta dos pais

O vídeo gravado por volta das 12:00 no dia do massacre foi o primeiro de muitos momentos de tensão com a polícia. Três dias depois, muitos pais continuam a achar que as autoridades não fizeram tudo o que podiam.

Fora da escola, foram muitas as imagens de desespero: pais a tentar saltar o cordão policial, polícias que são pais, e que estavam no local em dia de folga, a tentar entrar no edifício. A multidão chegou às centenas: “Os pais estavam a chorar e alguns estavam a trocar ofensas com a polícia e a gritar que queriam os seus filhos”, afirmou Marcela Cabralez, que estava no local, em declarações ao The New York Times.

Uma dessas pessoas era Angeli Rose Gomez, que conduziu mais de 50 quilómetros desde o local de trabalho até à escola assim que soube do tiroteio. Os filhos desta mulher estavam na escola naquele dia, nas salas do segundo e do terceiro anos. Segundo o Wall Street Journal, tentou falar com a polícia de forma educada, mas acabou por se exaltar. Os agentes algemaram-na após alguns minutos e disseram-lhe que ia ser presa por interferir numa investigação.

A mesma indignação tomou conta de Javier Cazares, que tinha a filha Jacklyn lá dentro: “Havia muitos homens armados até aos dentes que podiam ter entrado mais rápido”, afirmou, contrariando a versão da polícia, que diz ter entrado rapidamente: “Não vimos nada disso”, referiu o homem. Jacklyn foi uma das 19 crianças que morreu dentro da sala de aula.

Revoltado, Victor Luna, que tinha o filho de nove anos dentro da escola, não percebe a ação da polícia: “É senso comum: se o tivessem abatido, as crianças podiam sair pela porta”, afirmou ao The New York Times, dizendo que os agentes deviam ter sacrificado as suas vidas para salvar as crianças: “É para isso que ali estão”.

O dilema: fazer tudo para salvar as crianças ou colocar mais pessoas em perigo?

O pai da menina acredita que uma ação mais rápida da polícia teria feito a diferença: “Mais crianças teriam sido salvas, no meu entender”, acrescentou.

Num comunicado assinado pelo chefe da esquadra, a polícia afirma que entrou na escola “minutos” após o tiroteio ter começado. Tal como Victor Escalon disse, a polícia tentou entrar por volta das 11:45, mas acabou por ser forçada a esperar por mais meios.

A polícia de Uvalde sublinhou que tentou primeiro resgatar todas as pessoas que estavam fora da sala onde estava o atirador, mas o protocolo existente, segundo o New York Times, permite aos agentes tomarem uma ação em simultâneo com a evacuação de edifícios, não sendo necessário esperar por equipamento especial.

Segundo Brian Higgins, antigo comandante de equipas SWAT, isso é válido até para uma equipa de apenas dois polícias. Mas, “se a polícia tivesse entrado, mais pessoas podiam ter sido alvejadas, é um dilema. Não queremos que mais ninguém leve um tiro”, referiu, também ao The New York Times.

O pai-marido-polícia que entrou na escola para ajudar

O dilema terá sido ainda maior para Jacob Albarado. Não só era polícia, como tinha a mulher e o filho dentro da escola. Quando chegou ao barbeiro no seu dia de folga, este agente da patrulha de fronteira recebeu uma mensagem aterradora: “Está aqui um atirador. Ajuda. Amo-te”. Era a mulher, Trisha, professora na escola primária.

O desespero dos pais à porta da escola (AP)

Jacob Albarado pediu uma shotgun ao barbeiro, que o seguiu para a escola. Chegado ao local, reuniu-se com os polícias que lá estavam, com quem traçou um plano: retirar o máximo de crianças possível.

“Comecei à procura da minha filha, mas não sabia em que ala ela estava. Então comecei a evacuar as salas”, explicou ao The New York Times. Mal viu a filha, de oito anos, abraçou-a, para depois continuar a ajudar as crianças que iam saindo.

A mulher também acabaria por sair com vida do local, onde a polícia entrou minutos mais tarde, abatendo o atirador.

Várias autoridades, entre as quais o FBI, estão a investigar o caso, nomeadamente a conduta das autoridades e como tudo se desenrolou.

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