Tripulação do USS Gerald R. Ford demoraram cerca de 30 horas a extinguir o fogo, sendo que perto de 600 marinheiros perderam as suas camas
Quando um incêndio atingiu o maior porta-aviões do mundo em março, durante operações contra o Irão, a Marinha dos EUA divulgou um breve comunicado em que dizia que o fogo estava "contido", que dois tripulantes receberam assistência médica para "ferimentos não fatais" e que o porta-aviões estava "totalmente operacional".
Mas um novo vídeo obtido pela CNN deixa claro que o incêndio foi mais grave e devastador do que a Marinha sugeriu. As camas onde os marinheiros dormiam ficaram completamente destruídas, como mostra o vídeo. O que restava das camas era metal carbonizado e retorcido sob um teto também aparentemente oco devido ao incêndio. Fios pendiam do teto e montes de cinzas cobriam o chão à volta das camas, segundo o vídeo.
"Pensei mesmo que íamos perder o navio", admitiu um marinheiro a bordo do USS Gerald R. Ford à CNN, descrevendo como se sentiu enquanto combatia o incêndio. "Era lutar ou morrer".
O sistema de supressão de incêndios do navio falhou, deixando os marinheiros em apuros para apagar as chamas, de acordo com o marinheiro e um alto funcionário americano familiarizado com o incidente.
Um alto funcionário norte-americano disse à CNN que a declaração pública da Marinha desvalorizou o impacto do incêndio no porta-aviões USS Ford, alegando que a embarcação estava no Mar Vermelho a apoiar operações militares norte-americanas contra o Irão, embora o incêndio tenha afetado as suas capacidades. Passaram dois dias até que o Ford pudesse retomar as suas missões, afirmou o chefe de Operações Navais, Almirante Daryl Caudle, em abril, e o navio foi forçado a regressar ao porto na Grécia para reparações temporárias.
Questionado sobre a extensão do incêndio e a falha do sistema de combate a incêndios, um porta-voz da Marinha disse à CNN: "A investigação do incêndio está em curso".
A tripulação do Ford demorou cerca de 30 horas a extinguir o fogo, a realizar a limpeza e a evitar que reacendesse, e aproximadamente 600 marinheiros perderam o acesso às suas camas devido aos danos, como foi anteriormente noticiado pela CNN.
"Não deveria ter chegado a este ponto. O sistema de supressão de incêndios integrado no navio deveria ter apagado o fogo", disse o marinheiro, falando sob anonimato para evitar represálias da Marinha. “Todos - incluindo eu - ajudámos a apagar o fogo.”
Vídeos obtidos pela CNN e relatos de marinheiros a bordo do Ford oferecem o retrato público mais claro até à data das adversidades enfrentadas pelos marinheiros durante um destacamento recorde de 11 meses, que incluiu a guerra com o Irão e a operação militar dos EUA na Venezuela.
“Os grandes incêndios são sempre um desafio, e este foi significativo - um incêndio causado por máquinas de lavar e secar roupa”, disse Caudle à CNN depois de o Ford regressar ao seu porto de origem na Virgínia. “A tripulação lidou com isto muito bem, combateu o fogo de forma brilhante e corajosa e, basicamente, voltou à luta numa questão de dias.”
O navio de 13 mil milhões de dólares foi fundamental para as operações militares dos EUA contra o Irão. Os pilotos a bordo do Ford realizaram sucessivas vagas de bombardeamentos que atingiram alvos iranianos. Mas o enorme porta-aviões não estava apenas na ofensiva.
O grupo de ataque de porta-aviões que inclui o Ford estava sob “ameaça constante de mísseis inimigos e drones de ataque unidirecional”, segundo uma citação presidencial de unidade concedida ao grupo.
O marinheiro entrevistado pela CNN recordou-se de, a certa altura, quando o USS Ford estava no Mar Vermelho, ter visto um rasto laranja no céu, indicando que as munições iranianas surgiam no horizonte. Quando os mísseis ou drones iranianos se aproximavam a uma certa distância do Ford, o navio “emitia um alerta, avisando-nos para esperarmos um possível ataque e tomarmos medidas de controlo de danos”, disse o marinheiro.
O incêndio não foi o único problema durante a missão. Os sanitários do navio entupiam constantemente. Outro vídeo a bordo do Ford, obtido pela CNN, mostra dejetos humanos a transbordar de todas as casas de banho.
“Se estivesse na proa do navio, teria de caminhar até à popa só para encontrar uma casa de banho a funcionar”, disse o marinheiro.
As consequências do incêndio poderiam ter sido piores. Hunter Stires, que serviu como estratega marítimo do então secretário da Marinha até 2025, afirma que a rápida recuperação do navio após o incêndio foi uma prova do treino e da resiliência da tripulação no meio de um período de serviço recorde.
"O incêndio e a inundação são os dois maiores perigos a bordo de qualquer navio", refere Stires à CNN. "A Marinha dos EUA, por sua vez, possui uma cultura organizacional e uma filosofia de design que se concentram incansavelmente na preparação para o controlo de danos e na redundância de sistemas, de forma a garantir a sobrevivência do navio."
"Os danos de guerra e de batalha são inerentemente imprevisíveis", diz Stires, quando questionado sobre a falha do sistema de supressão de incêndios. "Não se sabe o que se vai partir", acrescenta, explicando que é por isso que o treino e a preparação dos marinheiros são tão importantes.
Incorporado na Marinha em 2017, o Ford é o mais recente e tecnologicamente avançado dos 11 porta-aviões nucleares dos EUA e tornou-se um símbolo da força, e dos limites, do poder naval americano.
O sistema de catapulta eletrónica do Ford permite o lançamento de qualquer coisa, desde pequenos drones a grandes aeronaves, oferecendo aos comandantes uma vasta gama de opções de poder de fogo, explica Brent Sadler, veterano da Marinha com 26 anos de serviço e antigo oficial de submarinos, à CNN. Os outros 10 porta-aviões norte-americanos não têm essa capacidade, segundo Sadler.
A missão do Ford, que terminou com o seu regresso a Norfolk, Virgínia, em maio, incluiu também a participação do navio na operação americana para capturar o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro. A missão - a mais longa de um porta-aviões desde a Guerra do Vietname - incluiu também paragens no Mediterrâneo e na Noruega.
O Ford passa agora por uma longa fase de manutenção devido ao desgaste da viagem, incluindo reparações adicionais relacionadas com o incêndio. Um responsável norte-americano disse à CNN que pode demorar pelo menos um ano para que o Ford esteja pronto para voltar a navegar, e que outros navios podem ter de preencher essa lacuna.
