"Não houve uma ameaça direta à vida de Ursula von der Leyen, mas foi uma carga de trabalhos para os pilotos": susto no ar

1 set 2025, 16:38

Avião onde seguia Ursula von der Leyen afetada por alegada interferência russa no GPS. Fenómenos deste tipo têm-se tornado mais frequentes em regiões próximas da Ucrânia

O avião que transportava a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi alvo de um alegado ataque de "jamming" durante uma viagem à Bulgária, no domingo. A interferência bloqueou o sinal de GPS, obrigando os pilotos a recorrer a sistemas alternativos de navegação para garantir a aterragem em segurança.

“O avião nunca esteve em perigo, até porque aterrou em segurança e, horas depois, voltou a descolar em segurança”, começa por explicar o antigo comandante da TAP e especialista em aviação José Correia Guedes

O especialista recorda que fenómenos deste tipo têm-se tornado mais frequentes em regiões próximas da Ucrânia. “Estas coisas têm vindo a acontecer em inúmeros casos, desde o Báltico até ao Mar Negro, ou seja, na zona envolvente da Ucrânia.”

José Correia Guedes explica que existem dois tipos de ataques possíveis: "O jamming, que corta o sinal GPS que vem por satélite e que é fundamental para os equipamentos de navegação; e depois há outro, que considero bastante mais grave, que é o spoofing. Aí o avião continua a receber sinais mas são falsos e distorcidos, o que pode levar o avião para caminhos mais difíceis”.

No caso do voo de Ursula von der Leyen, o especialista acredita que o problema foi a perda no sinal GPS. “O avião tem um sistema básico que funciona por inércia, o INS. É uma plataforma autónoma que recebe atualizações do GPS. Sem isso não funciona ou funciona muito mal. Uma vez privado desse sinal, o sistema de navegação deixa de funcionar.”

Sobre as notícias que mencionaram o recurso a mapas em papel, esclarece: “É um bocadinho exagero, porque esses mapas são cartas de aproximação em formato digital. Nos aviões comerciais já não há papel. Isso já acabou”.

José Correia Guedes sublinha ainda que o ataque não visou diretamente a aeronave, mas o sinal GPS. “Não há um ataque ao avião, há um ataque ao sinal GPS, que é bloqueado a partir de uma emissão de rádio feita de terra. Aí os pilotos são obrigados a reverter para um sistema básico, que no passado muito se fez, ou seja, sistemas rádio no solo. Dá mais trabalho aos pilotos, com certeza que sim, mas não é nada de outro mundo.”

Embora existam dezenas de episódios semelhantes, este ganhou destaque pelo alvo: a presidente da Comissão Europeia seguia a bordo. “O que há de diferente aqui é que aconteceu na Bulgária contra a presidente da Comissão Europeia, ou seja, um alvo que parece que foi cuidadosamente escolhido. Não me parece que houvesse a pretensão de abater o avião, mas unicamente criar dificuldades e criar uma notícia.”

Para o antigo comandante, “não houve uma ameaça direta à vida de Ursula von der Leyen”, ainda que tenha havido “uma carga de trabalhos para os pilotos”.

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