O problema? Ursos. A resposta? IA, drones e lobos-robô

CNN , Salome Grouard
1 set, 09:46
Os robôs Monster Wolf imitam o uivo de um lobo para assustar os ursos das plantações e aldeias (Lobo Kamuy Co., Ltd.)
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É uma "séria ameaça à segurança pública e à paz" no Japão, que registou 50 mil avistamentos de ursos só no ano passado

Os ataques de ursos no Japão atingiram um recorde histórico, com 13 mortes e mais de 220 feridos registados entre abril de 2025 e março de 2026. Trata-se de um aumento acentuado em relação ao mesmo período do ano anterior, quando três pessoas morreram e 82 ficaram feridas. Com o aproximar do outono, a época de maior atividade alimentar dos ursos, as autoridades estão em alerta máximo.

O aumento dos encontros entre humanos e ursos no Japão pode ser atribuído à redução das comunidades rurais após a Segunda Guerra Mundial, quando milhões de jovens começaram a migrar para as cidades. "Com a perda das terras agrícolas que serviam de proteção aos povoados contra os ursos, a fronteira entre as cidades e as florestas tornou-se mais ténue para eles", explica Liam Adcock, investigador de vida selvagem no Centro de Investigação da Vida Selvagem de Picchio, em Nagano.

O especialista acrescenta que as restrições mais rigorosas à caça e a diminuição da população de caçadores permitiram que as duas espécies de ursos nativas do Japão — o urso-pardo-de-hokkaido e o urso-negro-asiático — se reproduzissem. Estima-se que existam mais de 57 mil ursos no país.

As alterações climáticas agravaram o problema: os vegetais, os frutos silvestres e as bolotas, dos quais os ursos dependem, estão a amadurecer mais tarde na estação e a tornar-se mais escassos, diz Adcock. "Mas eles sabem que uma fonte de alimento permanece inalterada: o lixo humano."

Isto fez com que os ursos famintos se aproximassem das cidades como nunca antes, tendo sido registados 50 mil avistamentos de ursos no ano passado.

Num documento oficial sobre o ambiente de 2026, o governo descreveu os animais como “uma séria ameaça à segurança pública e à paz”, ao mesmo tempo que flexibilizou as regras para a caça de ursos e introduziu um plano de controlo da população. O plano visa reduzir a população de ursos para entre 62% e 67% dos níveis atuais em várias prefeituras até 2030, através do abate seletivo.

Adcock afirma que, embora ainda exista uma preferência cultural geral pela coexistência, a prioridade passou a ser garantir a segurança pública imediata e responder de forma eficiente às ameaças.

A população de ursos-negros-asiáticos aumentou drasticamente no Japão (Centro de Investigação da Vida Selvagem de Picchio)
A população de ursos-negros-asiáticos aumentou drasticamente no Japão (Centro de Investigação da Vida Selvagem de Picchio)

“Frequentemente, são lançados fogos de artifício nas cidades para espantar os ursos”, explica Adcock. “Mas quando isso não é suficiente, a polícia ou o exército são chamados, o que muitas vezes significa sacrificar os ursos, especialmente se for durante o dia e houver pessoas por perto”.

“Queremos mostrar que a coexistência através de gestão não letal, incluindo a tecnologia, é perfeitamente possível”, acrescenta.

Alternativas de alta tecnologia

Regiões propensas a encontros com ursos, como Gunma, Toyama e Ishikawa, começaram a equipar as florestas em redor de áreas residenciais com câmaras de monitorização de movimento que utilizam IA para identificar ursos e notificar as autoridades locais. O sistema, desenvolvido pela Hokuriku Electric Power Company em conjunto com a empresa de sistemas de comunicação Hokutsu, permitiu às autoridades emitir alertas aos residentes e tomar medidas para afastar o urso da cidade, segundo os relatos.

Em Hokkaido, a KDDI SmartDrone instalou um porto de drones na cidade de Shintotsukawa, capaz de posicionar um drone até 10 minutos após o avistamento de um urso, rastreando o animal até à chegada do socorro. Os métodos não letais são geralmente priorizados para afugentar os ursos.

A Inteligência Artificial e os drones são “muito eficientes para a deteção e bastante úteis para a dissuasão”, afirma Adcock. A tecnologia também se mostrou eficaz noutras partes do mundo, como nos EUA, onde um pequeno estudo de 2024 constatou que os drones no Montana conseguiram afastar os ursos de áreas habitadas por humanos em 91% dos casos.

Mas a tecnologia não é prática para quem quer afastar os ursos das suas propriedades. É aqui que entra o "Lobo Monstro", um robô animatrónico movido a energia solar. O robô de quase quatro mil euros foi originalmente desenvolvido para proteger as plantações agrícolas dos ursos, imitando o uivo do extinto lobo japonês para os espantar.

Motohiro Miyasaka, diretor-geral da Wolf Kamui Co., empresa que comercializa o robô, revela à CNN que as suas vendas duplicaram "após os frequentes avistamentos de ursos em áreas urbanas do Japão desde o ano passado".

A empresa está a desenvolver uma versão portátil de peluche de 20 centímetros para aqueles "que gostam de pescar em riachos, acampar e fazer trilhos", completa Miyasaka. "O Lobo Monstro Mini será testado por volta do final de 2026."

Uma família de ursos negros asiáticos a vaguear livremente (Picchio Wildlife Research Center)
Uma família de ursos negros asiáticos a vaguear livremente (Picchio Wildlife Research Center)

No entanto, segundo o engenheiro Danyel Koca, de Tóquio, estes sistemas não são a solução definitiva. "O uso de IA, drones e robôs custa muito caro", avisa à CNN. "Não são fáceis de construir, utilizar e expandir à escala nacional", sendo que, em certos casos, podem salvar vidas, mas não fornecem informações imediatas aos residentes locais e aos excursionistas.

Em agosto de 2025, um ataque fatal de um urso a um excursionista no Monte Rausu, em Hokkaido, levou Koca a investigar dados sobre incidentes com ursos em todo o país. "Não havia um local simples e prático para verificar o risco", recorda. "O Japão já tinha muitas informações sobre os ursos, mas estavam espalhadas por diversas fontes locais. As câmaras municipais e os municípios publicavam relatórios em diferentes formatos: PDF's, mapas locais, folhas de Excel, comunicados de imprensa e páginas apenas em japonês. Isto dificultava a verificação de uma rota ou destino específico."

Por isso o especialista decidiu tornar as informações públicas acessíveis antes de as pessoas saírem para atividades ao ar livre e fundou o Kumamap, um rastreador de incidentes com ursos. Utilizando dados de governos locais, notícias nacionais e relatos comunitários verificados, Koca defende que a aplicação promove a coexistência. "Se as pessoas compreenderem o risco, podem preparar-se melhor e evitar encontros inesperados", diz. "O Kumamap está a ajudar as pessoas a tomarem decisões mais acertadas em zonas com presença de ursos." No início de agosto, a aplicação contava com quase seis milhões de utilizadores e tinha registado 156.631 incidentes com ursos, incluindo 821 relatos comunitários revistos.

O Kumamap é uma base de dados nacional do Japão que reúne avistamentos de ursos (Kumamap)
O Kumamap é uma base de dados nacional do Japão que reúne avistamentos de ursos (Kumamap)

Métodos tradicionais de dissuasão

Adcock reconhece o potencial da tecnologia para a conservação dos ursos, mas sublinha que a presença humana no terreno é quase sempre necessária para lidar com o problema.

É por isso que o Centro de Investigação da Vida Selvagem de Picchio recomenda a utilização da "tecnologia de dissuasão" original do Japão: cães de caça a ursos. "O Japão costumava criar cães semisselvagens que, naturalmente, afugentavam os ursos da cidade", diz Adcock, acrescentando que a sua organização utiliza cães de caça da raça Carélia da Finlândia para reduzir os conflitos entre humanos e ursos, seguindo, ladrando e afugentando os ursos das zonas residenciais sem os ferir.

Os cães da Carélia foram originalmente criados para a caça de ursos na Finlândia. Atualmente, são utilizados no Japão para auxiliar na conservação das espécies de ursos (Centro de Investigação da Vida Selvagem de Picchio)
Os cães da Carélia foram originalmente criados para a caça de ursos na Finlândia. Atualmente, são utilizados no Japão para auxiliar na conservação das espécies de ursos (Centro de Investigação da Vida Selvagem de Picchio)

“Apesar de os encontros com ursos terem quase duplicado em relação ao ano passado, as cidades com quem trabalhámos registaram as taxas mais baixas de encontros com ursos em muito tempo”, completa. “O método funciona e esperamos que mais regiões e países o considerem. De um modo geral, a forma como o Japão está a implementar eficientemente novas tecnologias e métodos não letais, como cães de guarda contra ursos, é algo que outros países podem aprender”.

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