No dia 25 de setembro, o Washington Post revelou que Pete Hegseth, Secretário da Guerra dos Estados Unidos, tinha convocado, em regime de urgência, cerca de 800 generais e almirantes espalhados pelo mundo para regressarem ao país e participarem numa reunião presencial. A notícia, em vez de transmitir segurança, acendeu sinais de alarme. Num contexto em que os Estados Unidos estão envolvidos de forma indireta em conflitos de grande dimensão, desde a guerra na Ucrânia às incursões russas contra território da NATO, passando pelas especulações em torno de uma proposta de Donald Trump para Gaza, a convocatória parecia prenunciar uma deliberação estratégica de peso.
Mas depressa se percebeu que não estava em causa reforçar a prontidão militar. Muitos interpretaram a ordem como um teste de lealdade, mais do que como uma resposta a qualquer ameaça concreta. A reunião de 30 de setembro, na base do Corpo de Fuzileiros Navais em Quantico, na Virgínia, veio confirmar essa suspeita: longe de decisões substantivas, o encontro foi encenado como espetáculo público, preparado para as câmaras, onde o simbolismo e a verborreia inflamada se sobrepuseram a qualquer debate real.
O discurso de Hegseth soou menos como uma diretriz de Estado e mais como um guião ideológico para um show televisivo. Chamou o Pentágono de “Woke Department”, atribuiu a decadência institucional às iniciativas de diversidade e proclamou o fim da liderança politicamente correcta, com rejeição total de políticas para a comunidade LGBTQ+ e para a igualdade de género. Disse que as mulheres podem servir, desde que cumpram padrões físicos unificados, e se nenhuma se qualificar para funções de combate, “paciência, assim será”. Meteu no mesmo balaio tanques eléctricos, vacinas contra a covid-19 e políticas ambientais, rotulando tudo como erros crassos.
Hegseth atacou a aparência dos militares, declarando inaceitável “ver generais gordos nos corredores do Pentágono”, e jurou acabar com o que chamou de visual não profissional, impondo “no more beardos”. Anunciou que os testes físicos seguirão critérios masculinos, disfarçados de gender-neutral, e quem discordar que “faça o favor de se demitir honrosamente”. Defendeu demissões já executadas, como a de um chefe militar negro e uma almirante mulher, prometendo mais limpezas e afrouxando regras anti-bullying e de assédio, sob o pretexto de que “as pessoas cometem erros honestos” e que infracções leves não merecem registo.
Foi um show de bravatas digno de um estúdio da Fox News, não de um gabinete da Defesa. Num discurso em que generais gordos surgem como a verdadeira ameaça à segurança nacional — porque, aparentemente, o peso na balança é mais perigoso do que mísseis russos ou chineses — Hegseth conseguiu transformar o Pentágono no seu palco pessoal, trocando qualquer estratégia militar por uma ideologia que descredibiliza o cargo que ocupa.
A cereja no topo do bolo foi o discurso de Donald Trump, repetindo o hábito de politizar ambientes militares, tradicionalmente neutros nos EUA. Não foi a primeira vez: em 10 de junho, em Fort Bragg, atacou Biden à frente de soldados fardados e respondeu a manifestantes sobre imigração. Em 24 de maio, em West Point, transformou a formatura em palanque para elogiar cadetes, fustigar rivais e gabar-se das suas políticas militares.
No dia 30 de setembro, seguiu o guião à risca. Acusou Biden de nunca ter dito que os EUA têm as Forças Armadas mais fortes do mundo, ignorando declarações repetidas do presidente em 2023 e 2025. Reinventou a história ao reivindicar a criação da meta de 2% de gastos na NATO, oficializada na Cimeira de Riga em 2006. Inflacionou a ajuda à Ucrânia para 350 mil milhões de dólares, quando números oficiais indicam 135 mil milhões alocados até junho de 2025 e menos de 100 mil milhões desembolsados. Repetiu a lorota de que Congo e Venezuela esvaziaram prisões para mandar criminosos, superdimensionou o número de migrantes para 25 milhões (contra menos de metade nos dados reais) e insistiu na fábula da eleição de 2020 roubada, que, segundo ele próprio, permitiu a invasão russa da Ucrânia.
Se metade do discurso foi a costumeira distorção dos factos, a outra foi um perigoso flerte com o autoritarismo. Trump propôs transformar cidades como Chicago, Los Angeles e Washington em “campos de treino” para as Forças Armadas, anunciou o envio de 100 membros da Guarda Nacional para o Illinois, disse já ter autorizado presença militar em Los Angeles e Washington e prometeu repetir em Portland. Chamou o governador de Illinois de incompetente, defendeu que o exército deve combater uma “invasão interna” e falou numa “guerra doméstica”.
Ao proclamar um “despertar do espírito guerreiro” e assegurar total apoio aos oficiais, Trump revelou a sua intenção de subverter o papel histórico das Forças Armadas. Antes símbolo do hard power americano no cenário global, ele procura transformá-las num braço armado do governo dentro dos EUA, tratando comunidades como alvos de guerra e o exército como ferramenta política da Casa Branca.
A bravata de Pete Hegseth e Donald Trump não é apenas problemática, mas perigosamente subversiva. Um secretário da Defesa, sem qualquer peso na hierarquia militar e com um histórico de vazar planos de ataque em aplicações como o Signal, reúne centenas de oficiais apenas para afirmar a sua autoridade com fanfarronice. Enquanto isso, o presidente transforma o evento num palco para exigir lealdade incondicional e subserviência. O circo em Quantico não reforçou liderança, mas corroborou a percepção de politização das Forças Armadas, desafiando a sua tradição de neutralidade e fidelidade à Constituição, não a um partido ou à Casa Branca. O que se viu foi uma clara tentativa de importar para o Pentágono a táctica já usada no Departamento de Justiça: intimidação, com a mensagem implícita de que discordar sairá caro. Essa encenação não é apenas uma afronta à democracia, mas à própria essência das instituições militares americanas.
O espetáculo em Quantico foi caro, inútil e flagrantemente perigoso. Uma afronta à segurança e à eficiência militar. Generais e almirantes foram retirados de responsabilidades críticas espalhadas pelo mundo, comprometendo decisões estratégicas e a prontidão das Forças Armadas, tudo para encenar subserviência num evento televisionado. Que sentido faz concentrar a cúpula militar dos Estados Unidos e o presidente num único local, criando uma vulnerabilidade tão óbvia? E que ganho concreto justifica tal risco? A ausência de respostas plausíveis deixa a sensação de que tudo se resumiu à vaidade de um governo obcecado por performances.
O Departamento da Guerra, reduzido a palco de propaganda, expõe a teatralidade oca do governo Trump. Lembremos o fiasco do desfile militar dos 250 anos do Exército, convenientemente agendado para o aniversário do presidente, que custou milhões, serviu apenas para autopromoção e, de quebra, esburacou o asfalto da capital com tanques a desfilar para as câmaras. Pode um governo que se gaba de eficiência e tentou promover cortes via Departamento de Elon Musk justificar este desperdício grotesco? E pode um secretário construir credibilidade com encenações tão caras? A sensação é de uma legitimidade artificial, forjada a qualquer preço porque não nasce naturalmente. Quem vibra com este circo são as autocracias, que, sem precisar de prestar contas, assistem com prazer à fragmentação interna do maior rival militar e geopolítico do mundo.
